Geral

Casos de violência nas escolas estaduais do Vale diminuem 69%

Ações do Cipave ajudaram a reduzir o número de ocorrências nas instituições da região

Créditos: Julian Kober
Ação: titular da 3ª CRE, Greicy Weschenfelder, ao lado da idealizadora da Cipave, Maria Helena Sartori - Karine Viana/Palácio Piratini

Vale do Taquari - As escolas estaduais do Vale do Taquari conseguiram reduzir a violência no ambiente escolar, conforme levantamento da 3ª Coordenadoria Regional da Educação. De 2017 para 2018, o número de casos passou de 4726 para 1468, representando uma queda de 69%.

Todos os tipos de ocorrência apresentaram baixa nas 89 instituições estaduais da região: casos de indisciplina caíram de 2054 para 689, uma redução de 66,5%; bullying passou de 559 para 123, queda de 78%; agressão verbal a professores, funcionários ou direção de 776 a 219, redução de 77,2%; agressão física de 69 para 18, queda de 74%; violência entre alunos reduziu de 743 para 249, 66,5%. O tipo de ocorrência com maior diminuição de registros foi o racismo, que baixou de 238 para 8, representando uma queda de 97,6%.

De acordo com a titular da 3ª CRE, Greicy Weschenfelder, a redução dos índices foi possível graças ao programa de Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipave), que envolve toda a comunidade em ações que buscam promover a paz no ambiente escolar.

Para reduzir os índices de racismo, por exemplo, as escolas trabalharam com a valorização da cultura negra. "Foram feitas inúmeras formações com o corpo docente das escolas sobre questões ligadas a etnias, raças, religiões africanas, entre outros aspectos", explica Greicy. Outro aspecto fundamental para combater estas ocorrências, assim como as de bullying, foram os círculos da paz, onde os alunos compreenderam a importância da empatia. "Trabalhamos muito com a ideia dos alunos se colocarem no lugar dos colegas e dos professores, entender que não podem fazer para os outros o que não querem que façam para eles," destaca.

A redução dos índices de violência ajudou alunos e professores, que estavam desmotivados com a indisciplina e as agressões verbais e físicas nas salas de aula. "Quando tem um ambiente de paz, o conhecimento fluiu de forma mais rápida e qualitativa."
A Cipave também ajudou a aproximar as famílias da escola. "Percebemos que havia falta de participação dos pais. Eles não podem vir só para receber o rendimento escolar. Temos que chamá-los para pintar a escola, tomar chimarrão e participar das atividades."

Todas as escolas do Vale do Taquari aderiram à iniciativa, atendendo a mais de 22 mil alunos. "Não foi fácil. Muitos professores acreditavam que era apenas um programa partidário. Tivemos que fazer uma mobilização grande para mostrar que não se tratava de uma mera propaganda, mas um programa de política pública que a gente deveria acabar. E conseguimos."

Mapeamento

A coordenadora da 3ª CRE explica que o registro de denúncias on-line foi uma das grandes inovações em 2018, fundamental para o mapeamento dos casos de violência. "Está se criando o hábito do registro de violências. Até então, o levantamento era feito a cada semestre. Agora, o levantamento é feito em tempo real e é alimentado cada vez que entra um registro novo, permitindo um mapeamento mais transparente e preciso", destaca Greicy.

Com os dados, as escolas, juntamente com a coordenadoria, podem escolher quais ações de prevenção podem ser realizadas. "Percebemos, por exemplo, que houve muitas denúncias de bullying e indisciplina, o que nos preocupou bastante. Para combater estes casos, a CRE realizou formações e intervenções pedagógicas nas escolas", explica. "As escolas não podem mais se fechar. Temos que admitir nossos erros, e buscar parcerias e ações para combater a violência."

Parcerias

Conforme a titular da 3ª Coordenadoria Regional de Educação, Greicy Weschenfelder, a Cipave no Vale do Taquari conta com a parceria de diversas autoridades. Cita, entre elas, o juiz de Direito, Luís Antônio de Abreu Johnson; promotor da Infância e Juventude de Lajeado, Sérgio da Fonseca Diefenbach; Promotor de Justiça Neidemar José Fachinetto, coordenador do Programa Vida+Viva, sem álcool (-) 18 anos; delegado de Polícia titular da 19ª Delegacia de Polícia Regional do interior, Miguel Mendes Ribeiro Neto; e o tenente-coronel Marcelo Maia, comandante do CRPO-VT.

O combate à violência escolar ganhou um reforço com ações feitas por estas entidades. "A Brigada Militar e a Polícia Civil foram parceiras muito fortes em 2018. Realizaram palestras e ações onde passaram o conhecimento em temas que nós, docentes, não temos formação. Além de proporcionarem sensação de segurança para alunos e professores", destaca Greicy.

O juiz de Direito, Luís Antônio de Abreu Johnson, destaca que há uma parceria do Poder Judiciário com 3ª CRE e as escolas para reduzir os índices de violência. Cita os programas de justiça restaurativa, que promoveram a capacitação de professores da rede pública. "O Cipave é um programa que deve ser permanente. Acredito que não vai ter mudanças. A cultura da paz é um ideal que deve ser buscado cada vez mais, deve ser estimulado e incentivado."

Para o promotor Neidemar José Fachinetto, idealizador do Programa Vida+Viva Sem Álcool (-) 18 anos, a Cipave é uma conquista para a comunidade escolar, que contou com uma mobilização extraordinária, que precisa ser valorizada. "Na região, o Cipave tem feito um trabalho fantástico e, evidentemente, quando se mobiliza uma rede estadual gigante como é, esse trabalho não pode ter descontinuidade", afirma. O programa coordenado por Fachinetto realizou ações em parceria com a Cipave para intensificar a redução do uso de bebida alcoólica e drogas entre os estudantes.

A Brigada Militar também participa das atividades da Cipave, especialmente por meio das atividades do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD). O tenente-coronel Luis Marcelo Gonçalves Maya ressalta que, no primeiro semestre de 2018, foram 420 aulas do programa, envolvendo 42 turmas de escolas e cerca de 900 alunos."Estes encontros permitem a criação de um vínculo entre instrutor e alunos. Em regra, ao final das aulas, a amizade e o carinho dos alunos com o instrutor são muito grandes. Este vínculo é fundamental para que as mensagens do instrutor sejam valorizadas, acreditadas e fixadas pelos alunos. A ideia é ensiná-los os malefícios das drogas e da violência e como resistir às ofertas e apelos de ambos os temas. Os ensinamentos costumam trazer efeitos imediatos nos comportamentos dos alunos junto à escola e os protege de um futuro envolvimento com as drogas e a violência", explica. Para Maya, o programa tem apresentado resultados muito importantes e previne muitos casos de drogadição e violência. "Percebemos que participantes do programa, mesmo muitos anos após sua realização, demonstram permanecer com os conceitos por ele trabalhados, de uma forma muito clara e presente."

Drogas

A questão das drogas é motivo de preocupação para a 3ª Coordenadoria Regional da Educação. Apesar dos casos de tráfico posse e uso de entorpecentes ter reduzido de 60 para 18, uma queda de 70%, as escolas enfrentam muitas dificuldades ligadas diretamente às drogas, como a indisciplina, reprovação e evasão escolar. "Trata-se de ocorrência que não ocorre apenas em Lajeado ou Estrela, mas em todo o Vale. Escolas de municípios pequenos estão preocupadas com esta questão e não sabem como lidar com o problema", afirma Greicy.

A coordenadora destaca o apoio da Brigada Militar e Polícia Civil como fundamental, além da parceria com o Programa Vida+Viva Sem Álcool (-)18 anos, coordenado pelo promotor de Justiça de Lajeado, Neidemar José Fachinetto. "Eles foram nossos grandes parceiros em 2018 e tenho certeza que vão continuar sendo neste novo ano."

Período de paz

A Escola Estadual de Ensino Fundamental São João Bosco vive um momento de paz desde a implementação do Cipave. A situação não era assim há três anos. A escola enfrentava vários problemas de violência nas salas de aula e no entorno da instituição. Professores e alunos sofriam agressões físicas e verbais - causando medo e desmotivação.

Com a adesão ao programa Cipave, a escola criou a comissão interna para identificar as situações de violência para entender as causas e planejar ações de prevenção. Foram adotadas práticas de justiça restaurativa e a criação de círculos de construção de paz. Nasceu, então, o espaço de escuta, uma sala criada para resolver os casos de violência. "O diálogo foi nosso instrumento principal. Vamos direto às famílias. Quando ocorria uma briga, chamávamos alunos, professores e os pais para conversar", afirma a diretora da escola, Loiva Crestani.

Para ela, o apoio da comunidade foi fundamental na redução dos casos de violência. "Os moradores têm a ideia do pertencimento. Sabem que a escola pertence ao bairro e ajudam a cuidar, participam das atividades, pois entenderam que era necessária uma mudança drástica no ambiente escolar."

Reconhecimento

A coordenadora estadual Cipave, Luciane Manfro, fala com orgulho dos resultados alcançados pela 3ª Coordenadoria Regional de Educação. Destaca que foi a primeira CRE do Estado onde todas as escolas aderiram ao programa.

Para a coordenadora estadual, a participação da comunidade é uma característica que diferencia a 3ª CRE das demais. "Os pais, professores e alunos se envolvem de forma intensa nos projetos. Isso ficou muito claro durante a campanha Tamo junto com a Cipave, onde as duas escolas ganhadoras são da região, Estrela da Manhã, de Estrela, e a São João Bosco, de Lajeado", afirma. Ela também parabeniza a parceria com a Brigada Militar, Polícia Civil, Ministério Público e as Comarcas. "O trabalho da 3ª CRE serve como exemplo. A redução dos índices motiva eles a implementar mais e mais ações."

Comments

SEE ALSO ...