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Eles trilharam pela distância

Conheça a história de quem escolheu viver perto dos trilhos dos viadutos da ferrovia do trigo em Dois Lajeados e Vespasiano Corrêa


Clair Scarton (48) foi criado em meio a obra do viaduto do Pesseguinho em Dois Lajeados. Filho de militar que ajudou na construção da ferrovia, ele voltou ao seu local de origem depois de tentar a vida num centro urbano - Cristiano Duarte

Por entre os montes que erguem as estruturas por onde passam os trilhos do trem nos viadutos V13 e Pesseguinho, a trilha sonora fica por conta das águas que chegam ao Rio Guaporé, o vento que toca as folhas da paisagem e os pássaros que ali habitam. A sinfonia só é interrompida com o passar diário da locomotiva sobre a ferrovia. Três pessoas da região contam o porquê optaram pelo sossego deste cenário à viver em sociedade.

 

Bom dia, alegria

Às 4h, o mate já foi cevado. Abancado em sua cadeira favorita na sacada da cabana, Clair Scarton (48) aguarda defronte aos trilhos do viaduto do Pesseguinho por um ritual que ocorre três vezes por semana. 

Passados 20 minutos, ele ouve de longe o barulho do trem ecoando pelo Vale. A buzina da locomotiva é acionada pelo maquinista. Clair levanta a cuia para o alto e brinda o chimarrão com o motorista, que repete o mesmo movimento.

"Ele já sabe que eu estarei aguardando para celebrar a alegria de mais um dia. Tem vezes que o maquinista chega a parar, batemos um papo, tomamos uns mates e depois ele segue o destino do trem", conta o morador que reside abaixo dos trilhos que passam pelo viaduto de quase 150 metros de altura, construído pelos militares na década de 1960.

À distância e com o mate cevado, Clair Scarton (48) aguarda o trem passar para fazer um brinde ao maquinista repete o movimento com seu chimarrão (Foto: Cristiano Duarte)

 

De volta

Faz 12 anos que Clair decidiu abandonar a vida no Centro de Bento Gonçalves para retornar ao seu local de origem: a beira do viaduto do Pesseguinho. 
Até seus 8 anos, corria pelo mato e pelos túneis recém detonados pelos militares durante a obra. Filho do marteleteiro Antônio Scarton, Clair viu boa parte da construção ser erguida em frente aos seus olhos. 

Nas noites geladas de inverno de 1976, o pai colocava o ainda pequeno Clair enrolado num cobertor surrado verde-oliva dentro de uma casinha de ferramentas onde se guardavam explosivos utilizados para abrir caminhos nos túneis para as futuras passagens do trem sobre os trilhos.  "Às vezes eu era acordado antes de o sol nascer com os militares gritando 'Olha, o fogo' e depois disso eu ouvia um estrondo de explosão. Eram eles abrindo túneis e quebrando pedras", relembra.

Com a separação de seus pais, Clair foi passar um tempo morando no Centro de Dois Lajeados. Aos 14 anos, decidiu tentar a vida em Bento Gonçalves.
"Fiquei sabendo de uma empresa do setor calçadista que empregava pessoas a partir dos 14 anos. Foi o jeito que eu dei de começar a me virar. Sou de origem pobre. Desde pequeno trabalhava na casa dos vizinhos fazendo serviço de casa", relembra.

Aos 19 anos, perdera o pai, Antônio. Para honrar a memória dele, Clair se alistou no serviço militar do Exército Brasileiro. Ainda hoje, costumeiramente veste a farda e a boina que guarda com carinho na sala da cabana. "Aprendi muito com os militares. Desde minha infância soube dos valores do respeito, disciplina e patriotismo", conta.
Depois de 20 anos trabalhando no setor calçadista em Bento Gonçalves, Clair foi assolado por um grave problema na coluna - o qual fez com que se encostasse da labuta. O trânsito da cidade, as vitrines, as filas no banco e na padaria faziam com que Clair não conseguisse o devido descanso. 

"Às vezes passava as noites em claro. Não dormia e sentia que não tinha muito o que fazer ao longo do dia. A cidade me sufocava. Quem se cria no mato não se adapta da mesma forma", explica. No inverno de 2007, ele fez as malas e deixou a casa em Bento Gonçalves. Em sua caminhonete Pampa, levou um cachorro pitbull consigo e voltou para o local onde foi criado à margem do viaduto do Pesseguinho.

 

Sem luz, com paz

Estacionou o carro, estendeu uma lona e improvisou um fogão de lata e por ali ficou. Para o cachorro, colocou um pequeno tapete em frente ao barraco improvisado. Chegou na luz do dia, com a chegada da noite, só restou tentar dormir. "Não tinha muito o que eu pudesse fazer. Estava um frio danado. Acordei no amanhecer, bati o cobertor e dele saiu uma camada fina de gelo. Em seguida, passou o trem e eu me senti em casa novamente." 

A tradição é mantida até hoje. Por volta das 20h, Clair costuma dormir para acordar no despertar do dia. Da casinha de taquara que erguera em sua chegada em 2007, atualmente a propriedade conta com pousada feita de material reciclado e passou a se chamar Casa Recanto da Ferrovia. "Minha maior alegria é receber turistas e vê-los saírem felizes. Isso sim é alegria. Às vezes a solidão judia da gente que mora longe de tudo. Gosto muito de conversar, mas entre o barulho da cidade e o sossego da ferrovia, prefiro a segunda opção." 

Sem assistir TV há quase um ano, Clair prefere celebrar a paisagem do viaduto do Pesseguinho e a natureza que o cerca. "Você liga a televisão e só passa assalto, roubo de política e bobagem. Quero distância destas coisas. Tenho mais o que fazer por mim e pela pousada", resume.

 

Ói, ói o trem 

A porta da casa de Marilene da Silva (38) fica aberta na maior parte do dia. Os sobrinhos correm livres e despreocupados pelo pátio da residência que fica embaixo do Viaduto 13, em Vespasiano Corrêa. A família costuma se reunir em dias de lua cheia no aguardo de o trem passar sobre os trilhos do viaduto, a 143 metros de altura. "É coisa bonita de se ver. A gente se sente pequenininho aqui de baixo vendo toda a locomotiva passar lá em cima", conta Marilene.

Ela até já tentou morar na cidade. Foram dois anos administrando um bar no Centro de Vespasiano Corrêa em que Marilene só pensava em voltar para sua casa na beira do V13.
"Aqui, distante 18 quilômetros do mercado mais próximo, a gente se sente seguro. Longe do perigo da cidade. Temos nossa horta, a roça e os afazeres de casa. Estamos sempre ocupados com nossas coisas", diz.

Para evitar gastos, Marilene vai ao mercado apenas uma vez ao mês. Boa parte do que consome vem da horta que cultiva nos fundos de casa. E sempre que sai da residência, fica contando os minutos para voltar. "Poderiam me oferecer a casa que fosse no Centro de uma cidade. Não troco meu cantinho por nada no mundo. O sossego que tenho aqui não tem preço", esclarece.

Cartão postal para alguns, a vista da casa de Marilene (38) é o viaduto V13. Paisagem exuberante em meio a mata nativa faz parte de seu cotidiano (Foto: Cristiano Duarte)

 

Som das águas

A trilha sonora do cotidiano de Marilene é tocada pelo som de uma cachoeira que cai do Arroio Barraca para o Rio Guaporé. Além disso, pássaros e o vento que bate nas folhas das árvores no pátio de casa completam a orquestra diária. "Nosso acordar tarde não passa das 8h. Abrimos a janela e nos deparamos com esta rara beleza. Já estamos tão acostumados a ver o trem passar que quando alguém para por aqui e pergunta se ele já passou, nem sabemos dizer, porque isso já faz parte do nosso porta-retrato de todos os dias".

Em noites de lua cheia, família de Marilene acompanha o trem passar no V13 a exatos 143 metros de altura (Foto: Cristiano Duarte)

 

Mais velha que a ferrovia

Na modesta casa da centenária Joaquina da Silva (100), não tem chuveiro. Os banhos são tomados no Rio Guaporé, local onde as roupas também costumam ser lavadas. As paredes de madeira do imóvel não têm tinta ou enfeites. Não há porta-retratos no quarto e a tecnologia mais futurista da casa fica por conta do rádio e da pequena televisão em que, raramente, ela assiste o programa do Luciano Huck ou do Geraldo.

Embora a idade de vida tenha chegado a uma centena, Joaquina guarda fresco na memória o dia em que decidiu morar com seu marido Emiliano da Silva naquele local, em Dois Lajeados, de acesso apenas por cima dos trilhos do viaduto do Pesseguinho ou por uma rota de difícil acesso pela Linha Fernando Abott.

"Sou mais velha que este viaduto. Faz 80 anos que vim morar aqui. Era tudo chão", rememora. A escolha pela moradia foi justamente por ficar longe do convívio social e próximo do rio. Amante das águas, Joaquina ama nadar a esmo pelo Guaporé. "Gosto de morar longe de todo mundo. Não incomodo ninguém. Estou sempre tomando chimarrão e com a chaleira quente no meu fogão a lenha", resume ela.

Moradora da margem do viaduto do Pesseguinho, em Dois Lajeados, a centenária Joaquina diz só precisar de seu fogão à lenha do do rio Guaporé (Foto: Cristiano Duarte) 

 

Peixe que já não há

Banhava-se no Guaporé, em 1952, quando pareceu sentir uma fisgada de peixe no corpo. Assustada, saiu às pressas do rio. Foi quando percebeu que estava dando à luz ao filho João da Silva (67). "Tenho centenas de histórias sobre o rio. Pertenço a este lugar. O sol nem nasce e eu já estou no rio. Não gosto de sair daqui por nada no mundo. Tenho medo de ir no mercado. Teve um vizinho que levou um tiro uma vez fazendo compras. O mundo é muito perigoso. Enxergo gente e já fico acoada", conta.

Além do chimarrão sempre quentinho, dona Joaquina também gosta de fazer polenta, feijoada com orelhas e pés de porco e pão no fogão à lenha. Por vezes também se alimenta de um dos frangos que cultiva no pátio. "Sou feliz da vida onde moro. Gosto de tudo daqui. Nasci na terra e vivo nela. Nunca quis morar na cidade. Quando não tenho muito o que comer, até farinha de milho torrada me alimenta. Não preciso de muito pra ser feliz. O rio, minha casa e o fogão a lenha me bastam".

Joaquina reside isolada numa casa de madeira, sem pintura e sem chuveiro há mais de 80 anos (Foto: Cristiano Duarte)

 

"O ritmo da sociedade contemporânea atropela a organização destas pessoas"

Para psicóloga especialista em Terapia Sistêmica, Carine Duarte, pessoas que optam por viver distante da sociedade encontram no isolamento sua forma de organizar a rotina e a mente no ritmo do tempo em que consideram ideal.

O Informativo do Vale - Por que essas pessoas que nasceram em localidades mais interioranas tendem a voltar às suas origens com o decorrer do tempo?
Carine Duarte - Há uma questão de cultura familiar e social. Normalmente, são pessoas que tem mais idade. Elas nasceram em ambientes mais tranquilos, onde havia pouco contato com outras pessoas. As casas eram muito distantes e se visitavam pouco. Estão acostumados com o sossego, como costumam chamar. Nossa contemporaneidade é barulhenta. Estas pessoas nasceram num local com tranquilidade, contato de pássaros e cachoeiras. Quando tentam viver nos centros urbanos, o ritmo da sociedade contemporânea atropela a organização destas pessoas.


O Informativo do Vale - Qual a maior dificuldade de adaptação para estas pessoas?
Carine Duarte - A cidade tem informação de mais para eles. É a propaganda, a vitrine, o barulho dos carros e das pessoas. Este excesso de barulho causa cansaço mental e comportamental. A cidade acaba exigindo um ritmo que não é delas e neste isolamento, longe de todos, estas pessoas acabam se sentindo mais acolhidas, pois elas sabem como o interior ou os locais mais distantes funcionam. Estas pessoas conseguem controlar melhor suas rotinas. Não raro, eles acabam voltando para os locais onde nasceram, onde se sentem protegidos e preservados.

Psicóloga

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