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Ex-jogador compra casarão para investir em turismo rural

Altemir Pessali adquiriu casa em Linha Alegre, no interior de Muçum. A ideia é tornar o local um negócio que beneficiará agricultura familiar

Créditos: Karolaine Pereira
Altemir Pessali escolheu o casarão pelo seu charme e pela sua localização em meio à natureza - Karolaine Pereira

MUÇUM | A costa do Rio Taquari tem muito a mostrar. Os morros verdes, as casas de pedra com a chaminé do fogão a lenha aceso, as ovelhas no pasto, as pontes de madeira e as capelas à beira da estrada. Esses são alguns dos elementos que compõem a rota do rio entre o Centro de Muçum até Linha Alegre, comunidade de origem italiana no interior do município. Costeado pelo Taquari, o trajeto remete lembranças da Serra Gaúcha. Não é à toa que a região é conhecida como o Pé da Serra.

Depois de um percurso de cerca de 24 quilômetros na estrada de paisagens que enchem os olhos, o destino do lado direito da via é a nova morada de um nome conhecido do Vale do Taquari. Ex-jogador do Lajeadense, chef de cozinha e empresário, Altemir Pessali (50), sumariza a essência do homem do interior, que acolhe os visitantes como amigos de longa data e é apaixonado pela terra. Paixão essa que aproxima o empresário da região e lança possibilidades para a economia local. Uma das ideias dele é investir em turismo rural na propriedade adquirida. Pessali foi zagueiro no passado e hoje tem três restaurantes na Serra Gaúcha.

Natural de São Valentim do Sul e conhecedor nato do interior, o ex-jogador sonhou em comprar o mesmo casarão em Linha Alegre durante 15 anos. Foi mais de uma década idealizando a espaço onde construiria um recanto. Feita em 1890 pela família Nardini, a construção de tijolos à vista guarda muitas histórias da região. O último dono foi Antônio Villa que vendeu o empreendimento para Pessali. "De tanto gostar deste lugar, quando surgiu a oportunidade, comprei", diz. A aquisição da residência de três andares com 270 metros quadrados em uma área de 14 hectares de terra ocorreu seis anos atrás. Há dois, ele iniciou a restauração do espaço. A obra deve ser finalizada ainda neste ano.

Quem segue pela estrada em Linha Alegre encontra o casarão do lado direito da via após o percurso de 24 quilômetros. Não é difícil enxergar o espaço em meio a um campo verde com fundo desenhado por morros. Os tijolos à vista lembram as construções da arquitetura italiana. Apenas um anexo foi construído agora e as aberturas são novas. O restante dos materiais são originais da época em que a casa foi erguida há cerca de 130 anos. O casarão de Linha Alegre mantém os mesmos traços arquitetônicos da inauguração. Os tijolos, pedras e madeiras são da construção original.

No primeiro andar, há um salão onde fica o fogolar - como os italianos chamam a cozinha. Já no segundo, o espaço conta com três quartos, sala principal, e um deck de madeira, que deve ser usado como sacada. A vista de qualquer uma das janelas ou do deck é privilegiada. Um campo verde de encher os olhos com um cerro ao horizonte.

Propriedade rural é possibilidade de negócio

O charme do casarão e a localização em meio à natureza fazem florescer em Altemir Pessali uma nova oportunidade de negócio. Que mais do que arrecadar dinheiro, buscaria proporcionar experiências de vida. Uma das possibilidades é investir no turismo rural, segmento cada vez mais forte no Estado. "Tudo pode acontecer aqui. Ainda são ideias. Mas tem muita coisa para explorarmos com o agroturismo", salienta. Os esportes também são uma opção para a região, como o ciclismo e o turismo. O próprio empresário costuma pedalar cerca de 63 quilômetros de Garibaldi até o casarão em Muçum.

Bem para todos

Segundo ele, a restauração da casa vai além de um sonho próprio, mas busca beneficiar outras pessoas. "Aquilo que eu estou fazendo aqui faz um bem pra mim. Fazendo um bem pra mim, estou fazendo uma bem para a minha família. Também para meus sócios, funcionários e amigos, que vão vir aqui e gostar", comenta. As palavras do ex-jogador resumem o espírito solidário que ele tem. Devido a isso, acredita que o turismo rural vai apoiar a agricultura familiar de Linha Alegre, que é composta pela produção de queijo, açúcar mascavo, ovos, melado, hortifrúti, vinho de mesa, entre outros produtos. "Sempre pensei esse lugar aqui como uma grande possibilidade de negócio para as famílias locais", diz.

Ao pensar em Pessali abrindo um novo empreendimento, logo vem à cabeça a instalação de um restaurante. Segundo ele, essa é uma possibilidade. Os projetos ainda não foram definidos e não tem data de inauguração. Mas ele adianta que pretende começar a fazer almoços no local. Com as experiências, vai avaliar se essa será uma das formas de negócio do casarão. Ele garante que o objetivo principal da compra é somar e dar oportunidades para as famílias da região. "Eu sou empreendedor. Quando penso em um negócio, não penso só em mim, penso em todos". Enquanto as ideias não saem do papel, o local será usado como casa de campo da família.

Amturvales e prefeitura apoiam a ideia

O interior de Muçum já possui algumas alternativas de turismo rural, como o Caminho Autoguiado. O projeto é desenvolvido pela Associação dos Municípios de Turismo da Região dos Vales (Amturvales) com coordenação de Alício de Assunção. Na iniciativa, os turistas caminham pelo interior do município em grupo e visitam locais da região. Entre agosto e setembro, também serão feitos oito passeios de trem entre Muçum e Guaporé. Essa é mais uma forma de fomentação de turismo com a famosa Maria Fumaça Malet. Os quatro mil bilhetes para as viagens foram vendidos em menos de 24 horas pela internet.

O investimento de Altemir Pessali possibilita ainda mais crescimento para o turismo do município. O presidente da Amturvales, Leandro Arenhart, vê com entusiasmo a restauração do casarão que está sendo feita pelo ex-jogador em Linha Alegre. Segundo ele, a entidade instiga obras como essa para preservar a história e fomentar o turismo. "Queremos apoiar essa ideia e que ele (Pessali) fique próximo da entidade. Sempre incentivamos que as pessoas façam essas restaurações", comenta.

O prefeito de Muçum, Lourival Seixas, também acredita que o projeto vai ser positivo para o município. Para ele, a ideia do uso do espaço para turismo rural vai complementar as ações que já estão sendo desenvolvidas na região. Além disso, o prefeito acredita que a ideia beneficiará a agricultura familiar. "O conhecimento que ele (Altemir) tem vai ser positivo para as agroindústrias. É um investimento excelente que vai fortalecer Linha Alegre", acrescenta.

Do futebol à gastronomia: uma vida de mudanças

A trajetória de Altemir Pessali até o casarão de tijolo á vista em Linha Alegre é extensa. Embora tenha nascido no interior e passado a infância correndo pelos campos e na costa do Taquari, ele foi ainda mais longe. Quando criança, aos seis anos, deixou a região de São Jorge, no interior de São Valentim do Sul, e se mudou com a família para Bento Gonçalves. Mesmo assim, os passeios e o apego à região sempre estiveram vivos.

Na juventude, assim como a maioria dos adolescentes, cultivou o sonho de ser jogador de futebol. O sonho floresceu e ele atuou como zagueiro em diversos times do interior do Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e até no Japão. Entre os principais clubes, o Lajeadense, onde jogou no ano de 1994 pela série A do Gauchão. O convite para compor a equipe veio do presidente na época, Antônio Ruaro. Durante aquele ano, ele passava alguns dias da semana em Lajeado e retornava para Garibaldi, cidade em que mora até hoje. A residência não foi fixada no município, mas a temporada por aqui rendeu inúmeros amigos e lembranças.

No Japão

Depois de Lajeado, uma viagem ao outro lado do mundo. Pessali foi jogar no Japão. A esposa Clege Dalmaz e os filhos Giulia e Henrique, com cinco e dois anos na época, ficaram aguardando na Serra Gaúcha. Em 2000, uma lesão no joelho encerrou a carreira do jogador. O que para muitos significaria um fim, para Pessali foi um recomeço. Mais duas carreiras o esperavam pela frente. Agora, era a vez de reviver outros sonhos e se tornar empresário e chef de cozinha.

Como bom descendente de italiano, sempre guardou os salários que ganhava como jogador. As economias e um planejamento de dois anos junto com a esposa Clege, que era dentista e deixou a profissão, deram origem ao primeiro restaurante do ex-jogador. Localizado em Garibaldi, o Trattoria Primo Camilo foi aberto em 30 de outubro de 2002. Exatamente oito anos depois, o ex-jogador abriu o Restaurante Mamma Gema no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Esse não foi o último negócio da família. Em 2014, foi a vez do Pizza Entre Vinhos, também no Vale dos Vinhedos.

Nas contas, ela

A esposa sempre foi a responsável pela parte financeira e administrativa dos restaurantes. Pessali fazia a social com os clientes. Porém, um acaso o colocou atrás do fogão e no manuseio das panelas. Um cozinheiro precisou deixar a função de repente e o ex-zagueiro assumiu a cozinha. As receitas das nonas e a observação que fazia dos cozinheiros foram os elementos que levaram o empresário ao sucesso como chef. Mais uma vez, por ocasião do destino, um pizzaiolo se afastou e ele assumiu a cozinha de novo. Desde o dia que começou a cozinhar nos restaurantes, não parou mais. Hoje, atua em eventos particulares.
Atualmente, Pessali está no comando dos dois restaurantes em Bento Gonçalves e um em Garibaldi. A administração é feita com Vagner Poleti, Lucimar Roncaglio, Maria Sartóri, Clege Dalmaz e Henrique Dalmaz Pessali.

 

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