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Exemplo de superação e acolhida

Hoje é celebrado o Dia Internacional da Síndrome de Down. Conheça a história do jovem, auxiliar de produção em uma empresa calçadista, Douglas Caumo

Créditos: Kassieli dos Santos
SUPERAÇÃO: Douglas conquistou seu próprio salário ao ingressar no seu primeiro emprego - Kassieli dos Santos

Vale do Taquari - A palavra limitação não amedronta mais a mãe Marli Lurdes Caumo. O filho, portador da Síndrome de Down, está inserido no mercado de trabalho há 7 meses, superando as expectativas da família. O auxiliar de produção Douglas Caumo (20) inicia todas as manhãs às 7h sua jornada de trabalho. Nos primeiros dias, teve auxílio da vizinha para pegar o ônibus, agora se desloca com facilidade sem ajuda. "Tive medo no começo, de como seria a adaptação no trabalho, pensei que as pessoas poderiam fazer mal a ele, mas foi muito bem recebido, adora os colegas", afirma Marli.


Apesar das dificuldades inerentes à condição de Douglas, ele desenvolveu habilidades na comunicação com os colegas, faz gestos para se expressar e conquista amigos no ambiente de trabalho. A auxiliar técnica, Claidir Eli, foi escolhida para desempenhar a função de madrinha de Douglas, auxiliando-o nas atividades do dia a dia na empresa, como acompanhamento para o almoço, desempenho do trabalho, registro do ponto e cumprimento das regras. "No início não sabia como ia ser, mas estou mais aprendendo do que ensinando. Quando ele não vem fica um vazio aqui, quando ele está feliz todos sorrimos com ele", afirma. A experiência mudou sua percepção sobre as pessoas com Síndrome de Down. "Não tinha convívio com alguém com Down, ficar perto me ensinou a me colocar no lugar dele", comenta.


Ele tem na mãe o pilar para enfrentar os desafios nas novas experiências."Sempre lutei e hoje deu certo. Levantamos a cabeça, seguimos e as coisas melhoram", afirma Marli. O diagnóstico da síndrome veio somente quando já tinha dois meses de idade. "Achava ele diferente, não sabia o que meu bebê tinha. Naquele tempo não tinha recursos, a pediatra me disse que não iria caminhar, foi um choque", explica.


Marli conta que o filho se tornou mais prestativo nas tarefas da casa depois que começou a trabalhar. "Ele tem muito cuidado com o crachá e a mochila, gosta muito do serviço. Passou a ajudar nas tarefas em casa, lavar a louça, varrer e dobrar a roupa", conta com alegria.


Inserção no mercado de trabalho

O encaminhamento de Douglas para o mercado de trabalho foi realizado por meio da parceria entre a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Lajeado, Senai e a fábrica de calçados Beira Rio, de Santa Clara do Sul. Douglas integra a primeira turma de aprendizagem da filial. Antes de ingressar no dia a dia da empresa, Douglas e os nove colegas frequentaram um curso preparatório durante quatro meses, no Senai de Lajeado, desenvolvendo aprendizagens de como comportar-se no ambiente de trabalho e questões de higiene.


Conforme a encarregada de recursos humanos da empresa, Mariana Scherer, além do curso preparatório foram realizados encontros com as famílias e funcionários encarregados de auxiliar os novos funcionários. " Foi oferecido suporte com a psicopedagoga Sandra Bueno, a própria família precisa", comenta.


Segundo o supervisor Gerson Dick, o período de adaptação é fundamental para a inserção. "O aumento das horas de jornada de trabalho foi aos poucos. Ele já teve uma evolução, e sabemos que isso acontecerá gradativamente. Com o tempo, pode passar por uma avaliação para troca de função", explica.


Douglas frequentou a Apae de Lajeado durante 17 anos, recebendo o atendimento necessário por meio da equipe multidisciplinar, formada por fonoaudiólogas, fisioterapeutas, médica clínica geral, médico neuropediatra, psicólogas, terapeutas ocupacionais, estimuladoras precoce, psicopedagogas, assistente social e professores graduados e especializados com curso de capacitação em deficiência intelectual e monitores. Como já havia completado a idade obrigatória de escolarização, aceitou a ideia e superou os desafios.


Conforme a coordenadora pedagógica da Apae de Lajeado, Tamara Dresch, a instituição proporciona condições para a família e para o usuário de ingressar no mercado de trabalho. "Além das atividades pedagógicas, participam de oficinas, trabalhamos a postura, o comportamento deles nesse novo ambiente, fazemos visitas a empresas, as famílias participam de palestras", explica. Segundo ela. o suporte da família é muito importante. "Eles devem estar preparados para ter a responsabilidade de auxiliá-los e estimulá-los", comenta. A instituição conta com o apoio de empresas que se dispõem como parceiras para a realização dos cursos de preparação para o ingresso no mercado de trabalho.


Acompanhar para o desenvolvimento

O Dia Internacional da Síndrome de Down, celebrado hoje, foi criado para dar voz e visibilidade às pessoas que nasceram com a trissomia e para defender o direito à inclusão em todas as esferas da sociedade, em igualdade de condições com os demais. A escolha da data leva em consideração o sinal genético da síndrome de Down, o cromossomo 21 triplicado. As pessoas com síndrome de Down, têm 47 cromossomos em suas células em vez de 46.


Segundo a Neurologista Infantil da Apae de Estrela e Encantado, Manuela Graef, a criança deve ser encaminhada o mais cedo possível para o atendimento especializado."Nos primeiros anos, a criança tem maior capacidade de aprendizagem, o que chamamos de neuroplasticidade cerebral. O bebê com Síndrome de Down geralmente é hipotônico, tem o tônus muscular diminuído, por isso os atendimentos de estimulação precoce devem iniciar o quanto antes, para estimular o bebê a segurar a cabeça, sentar, engatinhar, ficar de pé, andar", explica.


Conforme Manuela, o suporte de uma equipe de profissionais especializados é importante para o desenvolvimento da criança. "Há alunos que frequentam uma escola regular, mas assim como nossos alunos da Apae, recebem o suporte com a equipe multidisciplinar. A instituição pensa a longo prazo, com preocupação em incluir no mercado de trabalho, por meio de oficinas. Dependendo do grau de comprometimento cognitivo, o aluno consegue, com treinamento, se inserir no mercado de trabalho e conquistar uma certa autonomia", explica.


Ação em Lajeado hoje

Para lembrar o Dia Internacional da Síndrome de Down, a Apae de Lajeado realiza, hoje, a Blitz do Bem, a partir das 8h30min, Rua Julio de Castilhos, esquina Alberto Torres. Acompanhados das professoras, os alunos estarão entregando os jornais da instituição.


A diretora da Apae, Ana Paula Rech Müller, destaca que o dia 21 de março é lembrado e comemorado com muito carinho pela Apae de Lajeado. "Muitas vezes é a Síndrome de Down que representa a deficiência de um modo geral. Suas características físicas e anatômicas são muito peculiares". Conforme Ana, a ação tem o objetivo de comemorar e divulgar o potencial destas pessoas e todas as possibilidades de acesso e conquistas ao longo da vida.

MADRINHA: "Não tinha convívio com alguém com Down, ficar perto me ensinou a me colocar no lugar dele" 

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