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Heranças, desafios e protagonismo negro são tema de roda de conversa

Ação promovida pelo Quilombo Unidos de Lajeado celebrou Dia da Abolição da Escravatura

Créditos: Cristiano Duarte
CAMILA DA SILVA: data serve mais para reflexão do que celebração - Lidiane Mallmann

Lajeado - Descendente de escravo, aos 70 anos e 9 meses Olávio José da Silva carrega em sua pele negra uma história de lutas e conquistas. De sua origem, ficam na memória as lembranças com o avô Alcides Geraldo da Silva no quilombo Vovô Theobaldo em Arroio do Meio.

"Foi um homem que nasceu e morreu como escravo com mais de 110 anos de vida. Depois de tantos anos de vida, começo a perceber que a sociedade está reconhecendo que nós também podemos ser criativos em qualquer área de atuação", diz Olávio, que trabalha na construção civil.

Bisneta do escravo Alcides, Camila da Silva integra a direção da Associação Quilombola Unidos de Lajeado, fundada no ano passado. O grupo promoveu, na tarde de ontem, uma roda de conversa na Casa de Cultura.

Da data que celebra o marco da abolição da escravatura, o dia 13 de maio, segundo Camila, serve mais para reflexão do que celebração.

"Ainda temos muitos desafios na sociedade. A autoestima do negro ainda é muito baixa em função do racismo histórico. Lugar de negro é onde ele quiser. Na região que tem predominância alemã vemos pouco protagonismo negro no comércio por exemplo. Tudo que fazemos necessita do dobro de esforço para ter o devido reconhecimento na sociedade. Nesse dia queremos reforçar a necessidade de nos colocarmos na linha de frente da sociedade", conta.


Abolição por pressão

Aprovada em 13 de maio de 1888 pela princesa regente do Brasil, Dona Isabel, a Lei Aurea extinguiu a escravidão no país. Porém, diferente do que estampa alguns livros de história, o presidente do Centro de Cultura Afro, Recioli dos Santos (75), afirma que o gesto só aconteceu em função de pressões políticas externas.

"Princesa Isabel não fez isso de forma solidária ou afetuosa. Fez porque teve pressões políticas internacionais. O país dizia-se em desenvolvimento, mas ainda mantinha escravos em sua produção. O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão", explica.

Para Paulo Narciso, o mestre Karkará de capoeira, o negro ainda enfrenta o racismo institucional impregnado no cotidiano.

"Dizem que nosso cabelo é ruim. Não é ruim, ruim é o preconceito. Nossos cabelos são diferentes. Assim como em outras situações como 'nega-maluca', 'negrinho'. Isso nos reduz. O correto é bolo de chocolate e brigadeiro. Não podemos ficar presos nestas amarras do passado em pleno século 21", sustenta.


Legado

Histórias da cultura negra foram celebradas no encontro. Como a curandeira Ivani da Silva (52) que herdou a profissão do avô Alcides. Naquela época, ainda antes da abolição, os escravos não tinham acesso à rede de saúde ou médicos. Com uma doença que assolava o irmão de seu avô, Alcides sonhou que recorria à natureza em busca de ervas para fazer uma bebida que curasse o seu familiar.

"Assim que acordou, meu avô foi correndo para a mata em busca de ervas para o chá. Acabou acertando e meu tio conseguiu melhorar de sua doença. A natureza sempre foi muito generosa com nós, negros, por isso somos muito gratos e fazemos reverência a ela", conta Ivani.

 

 

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