Geral

Juventude alcoolizada

Estudo revela que número de estudantes lajeadenses que consomem álcool dobrou em seis anos

Créditos: Francelli Castro, Jean Peixoto
AUMENTO: diagnóstico aponta que consumo de álcool aumentou para ambos os sexos e em todas as faixas etárias nos últimos seis anos - Lidiane Mallmann

Lajeado - O incidente envolvendo estudantes do Centro Evangélico Alberto Torres (Ceat), em que um aluno ficou inconsciente após ingerir álcool e, suspeita-se, que tenha utilizado ecstasy e viagra, na última semana, chama a atenção para uma realidade alarmante. Mais de 40% dos estudantes de Lajeado com 12 anos - meninos e meninas - já experimentaram bebidas alcoólicas. Entre 2012 e 2018, o número de adolescentes, de 12 a 17 anos, que passaram a consumir álcool praticamente dobrou. Os dados foram obtidos através do diagnóstico realizado pelo coordenador do Núcleo de Pesquisa em Assistência Farmacêutica do Vale do Taquari, Luís César de Castro.

Castro, que também é coordenador Departamento Científico do projeto Vida+Viva Sem Álcool (-) 18 anos, explica que os dados mais recentes foram coletados entre 2017 e 2018. Para o estudo, foi analisado o "uso na vida", ou seja, a experimentação e a "manutenção de uso", nos últimos 12 meses. A pesquisa foi realizada com 1.539 estudantes, entre 12 e 17 anos de idade, das redes de ensino pública municipal e estadual e rede privada.


Mais consumidores


Em 2012, os dados de "experimentação" fecharam em 63,1% e os de "manutenção de uso" foram de 55,4%. Já em 2017-2018, 75,6% dos pesquisados já haviam "experimentado" alguma bebida alcoólica, e 70,2% "mantiveram o uso". Luís César de Castro comenta sobre a progressão dos números. "É notório o incremento de 12,5% no módulo numérico de experimentação e de 14,8% no de manutenção de uso, ainda que sua oferta e comercialização para crianças e adolescentes não seja permitida pela legislação vigente."


Consumo precoce


O diagnóstico relaciona a idade média do primeiro contato dos estudantes com diferentes substâncias psicoativas (SPA). O consumo de tabaco, anorexígenos, calmantes e cocaína começa, em média, aos 13 anos. Já o uso de álcool e maconha, inicia aos 12 anos. Para o ectasy, a idade média é 14 anos. O estudo aponta que houve aumento no número de adolescentes que experimentaram e que mantiveram o uso de álcool, entre todas as faixas etárias analisadas.

Aos 16 anos, os adolescentes já apresentam hábitos de consumo idênticos aos de adultos. Com 17 anos, 83% dos meninos e 79% das meninas já tiveram contato com alguma substância psicoativa. Luís César de Castro aponta que, para reverter esse quadro, é necessário dificultar o acesso a essas substâncias e intensificar as ações preventivas. "Os indicadores de iniciação precoce de consumo remetem à demanda por ações de prevenção deste comportamento já para o nível do Ensino Fundamental. Portanto, é prioritária a postergação da iniciação, por restrição ao acesso ao álcool, paralelo a outras substâncias psicoativas", frisa.


Cultura do álcool


Para o psicólogo e mestre em Educação, que atua junto ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Sérgio Pezzi, existe um fator cultural que influencia a iniciação dos jovens no consumo de álcool. "Temos um dado cultural aqui na região, que é de descendência de imigrantes alemães e italianos, que têm forte propensão ao consumo de bebidas alcoólicas. O que está sendo visto é algo bastante preocupante. Temos esse fator cultural que atravessa gerações. A despreocupação familiar em relação ao uso dessas substâncias é um agravante", acrescenta.


Válvula de escape


Sérgio Pezzi explica que a drogadição, sob uma perspectiva psicanalítica, pode ser interpretada como um mecanismo de defesa. "Freud, em 1930, no seu texto 'Nova Estatura', explica que o uso da drogadição é uma das defesas que a humanidade encontra para lidar com o desamparo primordial da vida do sujeito. Para nos tornarmos humanos, e vivermos em sociedade, foi necessário abrir mão dos atos impulsivos que poderiam implicar no assassinato, cometer incesto e outros atos, reconhecidos como proibidos. Esse desamparo, nos obriga a produzir defesas e uma delas é a drogadição. Ela te aliena ao mesmo tempo que traz algum tipo de prazer, mas com grande responsabilidade de alienar o sujeito frente a esse desamparo. O jovem hoje está jogado para as defesas de suportar essa alienação, e partem para o uso das drogas", reitera. O psicólogo recomenda que os pais prestem mais atenção aos filhos.


Exposição


O diretor do Foro da Comarca de Lajeado e juiz da infância e juventude, Luís Antônio de Abreu Johnson, ressalta que o álcool é o caminho para o consumo de outras drogas. "O episódio do Ceat desnuda uma realidade muito perigosa da precocidade do contato com o álcool, que pode levar ao consumo de outras drogas. A sociedade tem que acordar para essas questões. Há uma permissividade muito grande por parte dos pais."


A bancada da Ambev


Johnson destaca que a responsabilidade pelo consumo exacerbado e precoce de álcool é da publicidade. "O álcool carrega uma hipocrisia social muito grande. Se tu entrar em qualquer supermercado, a primeira gôndola com a qual tu te depara é a das bebidas alcoólicas". Ele comenta que a utilização de celebridades e jogadores de futebol estimula o consumo de uma forma que não ocorre em nenhum outro lugar do mundo. O juiz ressalta que há, também, um fator político por trás disso. "O Congresso Nacional não consegue aprovar uma lei proibindo a publicidade das bebidas alcoólicas. A chamada bancada da Ambev tem um domínio de 70% em Brasília", salienta. Para o jurista, a proibição da publicidade do álcool produziria uma redução tão significativa quanto a que ocorreu no consumo de cigarros.

 

Comments

SEE ALSO ...