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Localização do Abrigo São Chico divide opiniões da comunidade

Moradores questionam adequação em endereço visado no Bairro Praia

Créditos: Kassieli dos Santos
- Lidiane Mallmann

Lajeado | Pela quinta vez, em 18 anos, o Abrigo São Chico ocupará um endereço diferente. A instituição já passou pelos bairros São Cristóvão, Centro, Hidráulica e, atualmente, está na Rua 15 de Novembro, no Centro. Após repercussão nas redes sociais e o questionamento da comunidade sobre a possível mudança, a Secretaria de Trabalho Habitação e Assistência Social (Sthas) e o Abrigo São Chico confirmaram sem divulgar o novo endereço.

Vilson Rodrigues conheceu o abrigo há mais de um ano e, hoje, mantém uma rotina diária com as regras do local. Ele foi para as ruas há dois anos e conta com orgulho sobre a solidariedade que existe. "Para nós é importante o São Chico, ainda mais depois dessa onda de frio. A gente se ajuda também, faz algo para esquentar aqui na praça. Depois que gente pobre ajudou até gente rica resolveu trazer um cobertor", comenta. Rodrigues conta que apesar de existir a possibilidade de retornar à uma moradia não consegue voltar para casa. "Não vou para casa, pois me acostumei com essa vida. Saio de manhã, mas posso fazer as quatro refeições no São Chico, meu horário de voltar é antes das 19h. Tem regras, todo lugar tem regras porque, se não, vira bagunça", comenta.

Conforme a assistente social e titular da Sthas, Céci Gerlach, o abrigo mudará para um local maior. Ela ressalta que a ideia existe desde 2015 e não ocorre devido às exigências pontuais. Sem divulgar o endereço, Céci confirma que existe uma casa que preenche os requisitos para o atendimento no Bairro Praia, contudo, outros locais também estão sendo avaliados. "Não sabemos se vamos para essa casa que está em vista. A gente vai mudar para estar um lugar melhor para oferecer melhores condições. Ainda estamos avaliando", afirma. A secretária lembra da colaboração da comunidade na ação emergencial contra o frio. "A sociedade mobilizou-se de forma significativa. Não posso entender como essa mesma sociedade pode se tomar de revolta", destaca.

Um ex-morador do abrigo São Chico que não quer ser identificado revela o desejo de retornar ao local. "Me arrependi que sai de lá, o tempo que estava no abrigo sempre gostei, somos bem tratados, não tem queixa de lá" afirma.

O abrigo
Convidando a comunidade a conhecer os serviços do abrigo, o coordenador Luiz Carvalho conta que são atendidas 44 pessoas com a demanda para um espaço maior para ampliar as oficinas disponibilizadas no local. Segundo Carvalho as tratativas estão em andamento há um mês. Ele conta que o endereço no Praia seria adequado devido o amplo espaço oferecido. "Temos que lembrar que não se trata de uma mudança do pai, mãe e filho, mas sim de muitas pessoas. Existe uma dificuldade de encontrar um local com este porte. Depende de adequações", explica.

O presidente do abrigo, Luiz Esteffens, afirma que existe a necessidade de mudança, porém pede a paciência da comunidade, ao referir-se às especulações sobre o assunto. "As opiniões são variadas na comunidade, o que muitas vezes só prejudica essa mudança, que as pessoas tenham mais paciência. Vemos muitos comentários em redes sociais. O que vemos é que se marginaliza aqueles que não estão enquadrados dentro do que a sociedade vive. É isso que se está fazendo com o Abrigo São Chico, marginalizando uma vez que é uma associação que faz o oposto, pois acolhe as pessoas que a sociedade marginaliza", explica.
Nair Ulrich (68) passa diariamente pelo Bairro Praia e afirma que não acredita em grandes mudanças no cenário local com a instalação do abrigo. "Piorar não pode, a gente não se sente seguro em nenhum lugar", comenta.

Novo endereço pode ser próximo da Escola Risque e Rabisque (Foto: Lidiane Mallmann)

Moradores questionam

O presidente da Associação de Moradores do Bairro Praia, Jean Amorim, evidencia a mobilização da comunidade em um abaixo-assinado para manifestar a contrariedade à instalação do abrigo no local. Em fase de coletas das assinaturas ele explica que o documento será protocolado na Prefeitura e Câmara de Vereadores. "Não temos nada contra as pessoas do abrigo. Porém não houve um diálogo para avaliação dos prós e contras da vinda para o Bairro Praia", explica.

A associação prevê, ainda, o apelo na tribuna livre, na próxima terça-feira, para apresentar aos vereadores a posição da comunidade e a organização de uma manifestação na próxima semana. Segundo Amorim, a informação de instalação do abrigo nas proximidades da Escola Municipal de Educação Infantil Risque e Rabisque gera preocupação de pais e moradores do entorno. "Nosso principal medo é a questão da drogadição, de que isto se intensifique na região, com aumento de violência. A última experiência da unidade próxima a uma escola não deu certo. Não é sem motivo que a comunidade do Irmão Branca tenha se manifestado para a saída do abrigo do local", comenta.

A moradora Marcia Rosa tem netos e sobrinhos que frequentam a escola e teme o aumento da violência no local. "Todos estão revoltados aqui. O trânsito dos atendidos no local vai resultar em complicação, temos as crianças na escola. Nossa sugestão é de que o novo endereço seja em um uma chácara, um lugar distante de escolas", destaca. Cláudio Cecconello (77) mora no bairro há 58 anos e lembra que o local é um dos pontos de alagamento em determinado período do ano. "É uma fria trazer para um local de enchente", comenta.
O Informativo do Vale contatou a Escola Municipal de Educação Infantil Risque e Rabisque, porém foi informado de que o pronunciamento seria feito somente pela prefeitura.

A sociedade no processo

A assistente social, Manuela Ferreira da Costa, explica a necessidade do trabalho de acolhimento para pessoas em situação de vulnerabilidade social, por meio de um processo do qual toda a sociedade participe. "O fenômeno de rualização e exclusão social não acontece, somente, a partir de uma decisão do indivíduo. É um fenômeno social e todos nós participamos desse processo. A rua acaba se tornando o espaço social ocupado pelos indivíduos, são perfis diferentes. Em várias situações com saúde fragilizada, vivenciaram situações de violência, desemprego, vínculos familiares rompidos."

Manuela ressalta que muitas pessoas que vivem esta situação não são aceitas no convívio familiar, devido a doenças ou uso de drogas e álcool, e refere-se ao trabalho realizado pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Cras) em um trabalho contínuo com estas pessoas. "Vemos esse olhar acolhedor em Lajeado. Há uma estrutura organizada dentro das políticas públicas; o abrigo, conta com uma equipe técnica", comenta.

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