Mulheres que transformam 2019

Marianne Schulze Sutthoff

Coragem e fé em tempos de paz ou guerra

Créditos: Kassieli dos Santos
"Queria ser missionária para viver e compartilhar a alegria da fé, transmitindo isso a muitas crianças e adultos que não tem" - Lidiane Mallmann

Ela tem a ternura e a fé de uma mulher que decidiu dedicar-se à vida religiosa. Veio da Alemanha para o Brasil para trazer a esperança na qual baseou a sua vida como missionária. Carrega consigo as memórias de um dos piores momentos da história mundial. Marianne Schulze Sutthoff (95) é uma sobrevivente da Segunda Guerra Mundial. Ela dedica-se a compartilhar em escolas na região do Vale do Taquari a história do período vivenciado entre os anos de 1939 e 1945.

Dedicada a servir
Há cerca de sete anos, ela vive no Lar Divina Providência, em Santa Clara do Sul, residência com 28 irmãs que dedicaram sua vida à Congregação e, após sua jornada, estão em recuperação de saúde e recebendo cuidados. Na capela, ela faz diariamente suas orações e auxilia na organização do altar. Se prepara para um retiro espiritual das irmãs que acontecerá nos próximos dias. Funcionários do lar contam que nunca a viram sem o hábito, e ela confirma como considera importante a identificação. "Gosto de usar e ser reconhecida como irmã. A roupa dá testemunho e fala mais do que a palavra ou ação, brada bênção ou maldição". Na comunidade é conhecida como Irmã Praxedes, como gosta de ser chamada. Foi uma das primeiras enviadas pela congregação internacional ao Brasil, em 1950. Enfrentou uma viagem de três semanas e chegou ao país sem saber falar uma palavra em português. Estabeleceu-se na casa provincial em Florianópolis, Santa Catarina, onde começou sua jornada ajudando nas casas em que faltavam irmãs. "Para mim foi muito bom para conhecer a alma do povo". Em Blumenau começou os estudos do novo idioma. Destaca seu projeto pessoal como objetivo da vinda para o Brasil. "Anunciar a boa nova do Evangelho e proporcionar um rosto à esperança e ao amor. Deus nos deu duas mãos, uma para o louvar e outra para servir ao próximo".

Tocando vidas 
Nasceu em 17 de abril de 1924, na região de Westfália, na Alemanha. Vinda de uma família cristã, que vivia da agricultura, alimentava o desejo de tornar-se missionária desde a infância. "Queria ser missionária para viver e compartilhar a alegria da fé, transmitindo isso a muitas crianças e adultos que não tem". Passou pelo ensino público, frequentou o internato e escolas profissionais das irmãs, desenvolvendo habilidades e conhecimentos como alta costura, contabilidade, culinária, tecelagem, música, desenho, liturgia e catolicismo. Conhecimentos que compartilhou como professora de artes e religião em escolas nas cidades por onde passou. Atuou em colégios com base católica nas cidades de Porto Alegre, Lajes, Venâncio Aires e Arroio do Meio. Conta com alegria sobre o curso intensivo de educação familiar voltado às mães de alunos em que ensinava sobre puericultura, contabilidade doméstica e outros saberes. "Ensinava tudo que uma mulher deveria saber. Devemos ser ponte. Construtores de pontes entre os homens e dos homens para Deus". Durante 28 anos viveu em Arroio do Meio, atuando de maneira significativa no Colégio Bom Jesus São Miguel e Hospital São José. Teve contato com as crianças, realizando a contação de histórias. Foi integrante da diretoria do apostolado de oração, vigilante no pátio e portaria da escola, ministra de Eucaristia e levou comunhão e bênção às casas para alcançar os doentes.

Compartilhando memórias 
Ela transforma as experiências de vida em conhecimento ao ministrar palestras para estudantes do Ensino Médio em escolas na região do Vale do Taquari, contando sobre a história da Segunda Guerra Mundial, que provocou a morte de cerca de 47 milhões de pessoas. "As professoras me pedem para compartilhar com os alunos. Eu tinha 15 anos quando começou. Foi um período muito difícil". Ela vivenciou de perto os ataques de bomba e aviões que sobrevoavam sua região. Também enfrentou as dificuldades da escassez de recursos, em que a compra de alimentos, roupas e calçados eram restritas. Ela e as duas irmãs teciam meias para o pai e empregados. Lembra-se das vezes em que soldados invadiam a propriedade da família em busca de alimentos e o pai sinalizava a rendição com um lençol branco. Ela também atuou como enfermeira da cruz vermelha durante o período. Aos 17 anos, precisou tornar-se enfermeira, enfrentando o cenário de guerra sangrento e medo estabelecido. "Tínhamos a obrigação de recolher na comunidade dinheiro para o governo. Não havia mais direitos humanos e liberdade de expressão". Para desempenhar a função, passou por curso de preparação. "Quando o alarme soava, e eram muitas vezes por dia, avisando sobre o perigo, deveríamos ter a mala pronta e usar o uniforme. Estávamos sempre prontas para prestar os primeiros socorros". Irmã Praxedes organiza-se de maneira impecável, mantém consigo anotações e registros de seu trajeto de vida, mostrando com alegria a fotografia do dia em que soube sobre a missão no Brasil.

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