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Médicos cubanos anunciam saída de Lajeado

Secretaria da Saúde pede que população não procure UPA para atendimento de postos

Créditos: Julian Kober
Médicos cubanos despedem-se do secretário da Saúde, Tovar Grandi Musskopf - divulgação

 Lajeado - Os profissionais estrangeiros do Mais Médicos que atuam em Lajeado devem deixar a cidade até amanhã, seguindo orientação do governo cubano anunciada na madrugada de ontem. Eles seguem para Brasília e, no sábado, ao país de origem. Com isso, nove postos estão sem médicos - Campestre, Jardim do Cedro, Moinhos, Montanha I, Morro 25, Santo André, Santo Antônio, São Bento e São José.

A notícia pegou de surpresa o secretário da Saúde, Tovar Musskopf, pois os nove profissionais cubanos tinham agendamento de consultas até meados de dezembro. "Pensávamos que iriam embora no início do próximo mês. Nos preparamos para uma data mais adiante, e não em cima da hora", afirma. Ele reuniu-se com o grupo na manhã de ontem, para organizar a saída. Terão até amanhã para entregar apartamentos, desfazer-se de bens e encerrar contas bancárias. O encontro gerou comoção nos profissionais e no grupo da secretaria. "Foi difícil conter as lágrimas. Foi uma equipe muito boa de se trabalhar. Os pacientes gostavam muito. Vão fazer falta", lamenta.

Apesar da falta de médicos, as unidades permanecem abertas. "Por ora, o acolhimento está sendo feito pela equipe de enfermagem. E os problemas serão resolvidos por outros profissionais dos postos de saúde. A maior preocupação é a assistência nos postos. "Não sabemos quando vamos conseguir repor estes profissionais, pois não há como contratar nove médicos de uma hora para a outra", destaca.

A contratação de terceirizados e o remanejamento de médicos de outras unidades são alternativas em análise. "Mas, mesmo que ele seja temporário, vai gerar problemas em outros postos. Vamos ter que fechar agendas para abrir nos que estão sem médicos." Musskpof também conversa com a Univates quanto à parceiria na operação das unidades de saúde. Reforça que a secretaria está fazendo uma força-tarefa para garantir que não faltem receitas aos pacientes que utilizam remédios de uso contínuo ou controlado. E, diante deste momento difícil, ele pede que a população aguarde e não procure a Unidade de Pronto Atendimento para atendimentos de postos de saúde, para não sobrecarregar a UPA. "Pedir encaminhamento, solicitar check up, mostrar exames e outros procedimentos exclusivos das unidades básicas não são realizados na UPA. O melhor é aguardar a vinda dos novos profissionais."

 

No Vale, 35 vagas

O Diário Oficial da União publicou ontem edital que prevê a contratação de novos profissionais para o programa Mais Médicos. São 8.517 vagas para atuar em 2.824 municípios e 34 áreas indígenas. Inicialmente, a contratação prioriza médicos brasileiros com inscrição no Conselho Regional de Medicina (CRM) ou com diploma revalidado no país. O salário de é R$ 11.865,60 por 36 meses, com possibilidade de prorrogação, e as atividades incluem oito horas acadêmicas teóricas e 32 em unidades básicas de saúde.

O Ministério da Saúde prevê que parte dos aprovados já comece a trabalhar em 3 de dezembro. Para o secretário da Saúde, Tovar Grandi Musskopf, trata-se de uma medida importante que poderá ajudar o município. "Sabemos que aqui na região há quatro médicos que querem se inscrever no edital e trabalhar em Lajeado. Torcemos para que eles tenham a opção de vir atuar conosco."

No Vale do Taquari, estão abertas 35 vagas - nove para Lajea­do; três para Teutônia; duas para Estrela, Encantado e Ilópolis, cada; e uma para Bom Retiro do Sul, Boqueirão do Leão, Canudos do Vale, Colinas, Doutor Ricardo, Fazenda Vilanova, Imigrante, Mato Leitão, Poço das Antas, Pouso Novo, Progresso, Putinga, Relvado, Roca Sales, Sério, Taquari e Tabaí cada.

 

"Sempre fui bem atendido"

No saguão da Secretaria da Saúde, o morador do Jardim do Cedro, Décio Berstein (63), comenta a saída dos médicos cubanos e elogia o trabalho dos profissionais nos postos. "Sempre fui bem atendido. A médica do meu bairro era muito educada, simpática e eficiente. Não tenho o que reclamar", confessa.
Entretanto, concorda com a decisão do presidente eleito Jair Bolsonaro em aplicar o Revalida. "Acho que eles precisam provar que realmente são médicos. Para mim, essa decisão do governo cubano foi precipitada", comenta. Berstein acredita que os profissionais brasileiros devem ocupar os postos deixados pelos cubanos. "Não importa a nacionalidade do médico. O importante é ser bem atendido."

 

"Ficamos muito abalados"

Richard Daudinot Marquez (38) trabalha no ESF São José Praia, no Centro, desde abril de 2014. Ele deixou a esposa e uma filha. Os primeiros dias não foram fáceis, especialmente por causa das diferenças culturais e idioma. Mas graças à recepção da equipe do posto e dos pacientes, ele superou as dificuldades. "Conseguimos desempenhar o nosso trabalho juntos."
Marquez foi acordado com uma mensagem via WhatsApp do governo cubano, anunciando que deveriam ir embora ainda esta semana. "Sabíamos que um dia a gente iria. Mas esta mensagem, no meio da madrugada, foi impactante."
Neste momento, a maior preocupação de Marquez é quanto aos pacientes do posto que atendia no Centro. "É ruim para nós, para a Secretaria da Saúde e, especialmente, para os pacientes. Ficamos muito abalados."
O cubano ficou espantado com os comentários negativos da população nas redes sociais. "Quem critica não conhece o programa Mais Médicos. Muitas pessoas, e alguns políticos, só falam dos cubanos, mas esquecem que também há argentinos, mexicanos, bolivianos e até brasileiros formados no exterior que também não fizeram o Revalida."
Richard também responde ao comentário do presidente eleito Jair Bolsonaro, que, em entrevista recente, afirmou que os médicos cubanos estão em situação de "trabalho análogo à escravidão". "Isso é um absurdo. Assinamos um contrato, em que uma parte do salário vai para nós e o resto para os programas sociais cubanos, e estamos de acordo com isso. Ninguém foi obrigado. Eu trabalho porque eu gosto. Me formei para ajudar pessoas e fazer com que elas sintam-se felizes. Amo ser médico. Na próxima vida, volto e viro médico."
Emocionado, Marquez despede-se da equipe da Secretaria da Saúde e dos pacientes. "Deixamos bons amigos, bons colegas de trabalho e pacientes. As lembranças vão ficar marcadas para sempre no nosso coração."

 

"Quem vai sofrer é o povo"

Yeniffer Morales Gonzales (33) e Luís Mariano Rodrigues Santana (51) trabalharam por pouco mais de um ano nos postos do Santo André e Morro 25. Casados, se conheceram na Venezuela durante uma missão médica. Moradores do Centro, eles estão correndo contra o tempo para vender todos os móveis e devolver o apartamento hoje. Yennifer fica triste por abandonar seu trabalho. "Gostaria que os governos resolvessem esta situação. Mas não deu certo e teremos que voltar."
A médica considera uma falta de respeito a desconfiança do futuro presidente eleito quanto à atuação deles. "Trabalhamos em áreas carentes, onde a população é pobre e não tem condições de pagar por atendimento. Mas o presidente eleito coloca em dúvida nosso conhecimento e nosso governo não pode permitir isso. E quem vai sofrer com isso é o povo."

Para Santana, a saída vai afetar bastante o atendimento médico à população carente. "O programa Mais Médicos foi criado justamente para os profissionais trabalharem em áreas onde os brasileiros não queriam assumir. Vamos ter que aguardar para saber as consequências."
O casal tem a esperança de que, em um futuro próximo, possa retornar ao Brasil e matar a saudades dos lajeadenses. "Não sabemos o que pode acontecer amanhã. Fizemos um monte de amizades. Deixamos um beijo e um abraço carinhoso", afirma Yeniffer.

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