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Microvespas salvam o milho dos agrotóxicos

Com liberação de registros recorde no ano passado, governo autorizou, em média, mais de um pesticida por dia nos primeiros meses de 2019

Créditos: Jean Peixoto
SEM VENENO: João Delmar Schmitz utiliza microvespas ao invés de agrotóxicos no cultivo da lavoura de milho, no interior de Arroio do Meio - Jean Peixoto

Vale do Taquari - Imperceptíveis aos olhos e imprescindíveis à lavoura, as microvespas que o agricultor João Delmar Schmitz (61) utiliza na sua propriedade devem garantir o sucesso da safrinha de milho que ele programou para o fim de maio. Os insetos, produzidos em laboratório, se alimentam dos ovos das larvas que destroem a lavoura, garantindo a colheita de milho e evitando o uso de pesticidas. Natural da localidade de Passo do Corvo, interior de Arroio do Meio, há cerca de quatro anos Schmitz optou por banir os agrotóxicos de sua plantação. No entanto, Schmitz faz parte de uma minoria, visto que, conforme a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, o Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo.

Com a ajuda da esposa Anete Schmitz (56) e do filho Tiago Luiz Schmitz (27), duas vezes ao ano, o João separa 15 minutos do dia para distribuir as vespinhas pelo milharal. "Cada cartela rende meio hectare. Vale muito a pena", destaca. As cartelas contêm cerca de 50 mil ovos de vespas, que levam de 14 dias a três semanas para eclodirem. Elas são entregues nas propriedades rurais via Correios e custam cerca de R$ 20, outro motivo pelo qual o produtor substituiu a solução química pela biológica. "Quem me apresentou as vespinhas foi a Emater. É melhor porque não precisa de veneno e para colocar é muito fácil. Além de não prejudicar a saúde, sai bem mais barato".

Antes de conhecer a técnica biológica, João era adepto do inseticida Exalt. Ele comenta que nunca teve nenhum tipo de problema de saúde e que, em algumas culturas, como a soja, por exemplo, é muito difícil não utilizar o produto. "Hoje em dia, tem pouca mão de obra no campo e tem muitas pragas que se tornaram resistentes aos pesticidas. Eu o usei durante muitos anos e nunca tive nada", frisa. Contudo, o Exalt é segmentado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), como um produto Classe II (muito perigoso ao meio ambiente), em uma de escala progressiva de um a quatro. Além disso, na bula do pesticida contém especificações apontando que ele é altamente tóxico para organismos aquáticos, como algas, e, também, para as abelhas.

 
Milho transgênico

Lauderson Holz, engenheiro agrônomo do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (Capa), ressalta que o uso da vespinha é mais ecológico, também, que a transgenia, pois garante a longevidade do solo. "O milho transgênico pode contaminar todas as lavouras de uma determinada região, um processo que é irreversível", destaca. Holz comenta que a grande justificativa para a adoção dos transgênicos seria a possibilidade de substituir o uso de agrotóxicos pelo seu cultivo. Ele explica que, para o agricultor, a grande vantagem de cultivar o milho transgênico - que não é afetado por pragas - seria o aumento da produtividade. Mas ressalta que, na prática, não ocorre exatamente dessa forma. "Há três safras atrás, as lagartas atacaram, também, o milho transgênico", lembra.

Segundo o engenheiro agrônomo, muitas das pragas também estão desenvolvendo resistência aos agrotóxicos. "O azevinho, por exemplo, já está resistindo ao glifosato", alerta. Ele comenta que a utilização de agrotóxicos na produção de alimentos e a mobilização em torno de transgênicos ocorre devido ao descompasso nas demandas de consumo da atualidade. "Antes, era o campo que determinava o que a cidade consumia. Hoje, é a cidade quem determina o que o campo produz. Ou seja, é preciso produzir mais em menos tempo."


Liberação recorde

Se a liberação para venda de agrotóxicos até o final do governo do ex-presidente Michel Temer (MDB) já bateu recorde, fechando 2018 com 450 registros segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o governo de Jair Bolsonaro (PSL) segue o mesmo ritmo de seu antecessor. Entre janeiro e fevereiro, 74 produtos contendo agrotóxicos já haviam sido liberados pelo governo. Não obstante, no último dia 10 de abril, quando o governo completou 100 dias, o volume de agrotóxicos autorizados pelo Mapa já chegava a 152. Uma quantidade que representa mais de um produto aprovado por dia, em média. Pelo menos 16 das últimas 31 substâncias liberadas e divulgadas no Diário Oficial da União são classificadas como "extremamente tóxicas" - grau toxicológico mais elevado, conforme a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Do total, 18 foram classificados pela Anvisa como "pouco tóxicos". Mais de 300 outros produtos seguem aguardando análise para liberação.

Na ocasião, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou, em audiência na Câmara dos Deputados, que não existe uma liberação massiva de agrotóxicos, mas sim, desinformação. Ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Tereza Cristina liderou o movimento em defesa do PL 6299/2002, conhecido como "Pacote do Veneno", votado em comissão especial, que passou por 18 votos favoráveis a 9 contra, em junho passado.

 

 

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