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No aniversário de Lajeado, pinceladas de história

Conheça um pouco da Lajeado do passado nas telas do artista Silvio Farias

Créditos: Rita de Cássia
Talento de Silvio Farias retrata em telas aspectos históricos da cidade de Lajeado - Silvio Farias

Lajeado - Aos 128 anos, Lajeado coleciona muitas histórias. Algumas conhecidas, como o incêndio da Igreja Matriz Santo Inácio, outras nem tanto, como a mulher que salvou a cidade em uma revolução. Para eternizar estes fatos, o artista plástico lajeadense Silvio Farias lançou-se às tintas. O desafio começou por uma longa pesquisa - leu livros, conversou com moradores e olhou mais de mil fotos. Teve liberdade de escolha e preferiu não ater-se às questões políticas, mas aos detalhes pouco ou nada conhecidos. "Dizem que as cidades são como pessoas, têm cara e personalidade. Se for assim, a nossa seria daquelas que se aprimoram e vencem, sem jamais perder suas raízes e valores. É muito bom sentir que pertencemos a este lugar, que somos parte de algo maior que nós mesmos. Que somos filhos desta terra chamada Lajeado", afirma Silvio Farias.

Um dos fatos mais marcantes, não apenas para a cidade, mas para o próprio artista, foi o tufão de 1967. Farias tinha 7 anos na época e morava na beira do Rio Taquari, no Bairro Conservas. Era uma casa grande de madeira. "Ela quase saiu voando com a gente dentro. Ela levantava e descia; e nós, gritávamos e rezávamos, abraçados e apavorados". Estavam na residência o pai, a mãe e nove filhos. Todos teriam morrido. Farias também recorda que a família tinha algumas vacas e porcos. Alguns morreram por causa do temporal. A força do vento arrancou uma grande árvore. "Lembro como se fosse hoje minha mãe me chamando e a água entrando pelas fendas na parede de madeira. Naquele dia, o céu estava com uma cor diferente, meio roxo e alaranjado."


Porto de Lajeado com maxambomba
Em função do engenho e do porto, começou a se formar o núcleo urbano de Lajeado. Barcos de todas as colônias atracavam no porto novo de Santo Inácio dos Conventos. No decorrer dos anos, empresários estabeleceram armazéns, hotel, trapiches, maxambombas - uma trole usada nos portos do Rio Taquari para carga e descarga de vapores. As de Lajeado eram movidas a tração animal, num cilindro de madeira semelhantes aos de moer cana. Uma espia de aço era ligada a maxambomba e um vagãozinho a correr sobre trilhos. Enquanto um descia, outro subia, como contrapeso. Entre os trilhos havia uma escada para passageiros. Segundo um senhor que trabalhou em um destes portos, às vezes era colocado muito e isso fazia com que tudo descarrilasse, indo parar dentro do rio.

No princípio, o engenho
Em 1862, o fundador de Lajeado, Antônio Fialho de Vargas, decidiu construir um engenho no Arroio Lajeado (Arroio Engenho). Sob a orientação do engenheiro Henrique Luiz Jaeger, em torno de 20 escravos cavaram para fazer os alicerces, cortaram e carregam pedras, aterraram para formação da represa e montaram o canal. Junto do engenho de serra, foi construído o moinho, com outra roda d'água. Onze anos depois, Fialho vendeu a propriedade. O engenho serrava madeira, moía milho e fazia azeite. Quando Felipe Jacó Hexsel comprou, aperfeiçoou e colocou uma terceira roda d'água, um descascador, um triturador de cevada e extraia óleo de amendoim usado na iluminação doméstica. A enchente de 5 de maio de 1941 arrasou com tudo, cobrindo até o telhado. Em 1950, o moinho foi desmanchado. Sobrou apenas o descascador de arroz. Durou quase um século. O último dono foi Augusto Schlabitz, que comprou de seu pai em 1921. E, em 1958, vendeu o maquinário restante.

Entorno da Praça da Matriz
A Rua Silva Jardim na época tinha um traçado diferente - terminava no que é hoje a esquina da Borges de Medeiros com a Júlio de Castilhos. No lado esquerdo, ao fundo, o sobrado de Fialho de Vargas, construído lá por 1870. Foi hotel e local de comércio, aulas, culto religioso, cartório distrital, cinema, teatro e salão de festas. O último baile realizado foi no Centenário da Independência, e logo depois o prédio foi demolido. Ao fundo, à direita, o primeiro prédio de três andares na cidade, o Colégio Madre Bárbara - antigo Colégio Santa Ana, construído em 1911. Na esquina, o banco da província e, do outro lado da rua, a Intendência - hoje Casa de Cultura, construída em 1900 por Júlio May. O local onde hoje está a Praça da Matriz era apenas um potreiro cercado por arames. Em 1905, pragas de gafanhotos atacaram as lavouras e destruíram tudo. Os colonos tinham medo de combatê-los. Como medida para tentar controlar a praga, o governo municipal compra dos colonos os ovos dos insetos para destruição. A última praga ocorreu em 1947.

A mulher que salvou Lajeado
Certa vez, o escritor José Alfredo Schierholt pediu ao artista plástico Silvio Farias que desse um rosto para a andarilha Maria José Rodrigues, a "Canjiquinha" - mulher que salvou Lajeado. Em 1894, durante a Revolução Federalista, acampados às margens do Rio Forqueta, os maragatos aguardavam a chegada de reforços preparando-se para invadir Lajeado num domingo a tarde - durante uma carreirada em cancha reta. A andarilha, conhecida como Canjiquinha, falou com as sentinelas que lhe contaram o plano. Canjiquinha então veio até a cidade para alertar a todos. O combate aconteceu no dia seguinte - 17 de dezembro de 1894. Ao fundo, o casebre com escravos, que após a Lei Áurea, foram abandonados a própria sorte.

Incêndio na Igreja Matriz
Na noite de 13 de janeiro de 1953, Lajeado foi acordada por foguetes, tiros e buzinas - o que era comum na época para chamar por socorro quando algo acontecia. Ninguém sabe ao certo como o incêndio na Igreja Matriz aconteceu, se foi provocado ou mesmo acidente. Intrigas paroquiais ou não, o que se estranha é que algumas peças sagradas desapareceram e, mesmo peneirando as cinzas, o ouro destes objetos jamais foi encontrado. O que sobrou foram escombros, o concreto cru e queimado das torres. Ficaram as lembranças do último soar dos sinos ao caírem depois que o fogo consumiu todo o madeirame.

Tufão de 1967
Eram 5h30min da manhã da sexta-feira, 1º de setembro de 1967. Um tufão com três minutos de duração, granizo e ventos de até 200 quilômetros por hora alcançou proporções gigantescas. Oito pessoas morreram, 60 ficaram feridas e 40 foram hospitalizadas, várias em estado grave. Em torno de 200 casas foram destruídas. O Pavilhão da Festa Nacional de Laticínios (Fenal) - hoje Parque do Imigrante - e o salão paroquial foram totalmente destruídos. Uma figura tradicional da cidade conhecida por ''Mudinha'' também morreu devido à forte tempestade. Em Carneiros, em uma família de dez filhos, sete foram hospitalizados. Um foi arremessado para um riacho e morreu prensado pelo vento contra a água. As folhas de zinco tornavam-se lâminas ao vento e uma mulher foi atingida na Avenida Senador Alberto Pasqualini. Em Santa Clara do Sul, os prejuízos também foram incalculáveis. O número de feridos só não foi maior porque a maioria ainda não havia saído para o trabalho.

Cidade Joia
Entre os anos 1980 e 1990, era grande o número de profissionais e empresas ligados ao comércio e exportação de pedras preciosas e semipreciosas. Visitantes de diversos estados e países chegavam na cidade para fazer negócios. Lajeado era então conhecida pelo slogan "Lajeado Cidade Joia". Neste mesmo período, o carnaval chamava a atenção de todo o estado devido ao luxo das fantasias e alegorias, inclusive, com alguns destaques vindos de fora para desfilar - de Porto Alegre e até do Rio de Janeiro. Escolas de samba como Deixa Sambar, Cascata, Soreba, Explode Coração e Maracangalha agitavam e dividiam a cidade em torcidas apaixonadas. Entre os blocos destacava-se o Bloco dos Palhaços, com seu bom humor e irreverência. Ainda hoje brinda ao público com alegria e garra. Os desfiles de 7 de Setembro eram também muito aplaudidos e esperados por todos. Os colégios com suas bandas, entidades sociais e até mesmo empresas desfilavam o orgulho de ser brasileiro.

Belezas e turismo
O Parque Histórico - Aldeia Museu - foi fundado em 8 de novembro de 2002, com casas em estilo enxaimel típicas da colonização alemã. Eram desmontadas em seu local de origem e reconstruídas próximo ao Parque do Imigrante. O Jardim Botânico, inaugurado em 18 de setembro de 1995, tem 25 hectares de mata nativa, trilhas e cascatas destinadas à preservação, educação ambiental e lazer. Proporciona contato direto com a natureza, desenvolvendo a capacidade de percepção da biodiversidade e das interações entre os seres vegetais e animais. O nascer do sol no Rio Taquari, ou "Tebiquary" - que na língua indígena significa rio de buracos fundos - e a ponte da BR-386, inaugurada em 20 de setembro de 1962, durante o governo de Leonel Brizola.

Exposição
As nove obras do artista Silvio Farias integram o acervo do projeto Lajeado em Telas - realizado pela Secretaria de Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, com financiamento Pró-Cultura RS - Fundo de apoio à cultura, e apoio da Secretaria da Cultura, Esporte e Lajeado de Lajeado (Secel). No ano passado, várias escolas de Lajeado e região receberam a exposição itinerante e puderam ouvir do próprio artista, as peculiaridades que rondam a história.

Curiosidades

Imposto para cachorro
Em 1897, ou seja, seis anos depois da emancipação de Lajeado, havia um imposto sobre cachorros. Segundo documento denominado Matrículas dos Cães da Vila Lajeado, o proprietário deveria pagar anualmente a quantia de 3$000.

Comércio aos domingos
Em 21 de outubro de 1897, o conselho municipal apreciava uma proposta autorizando o Intendente (prefeito) a tornar facultativa abertura das casas de comércio aos domingos até as 14h. Os colonos vinham de longe para ir à missa ou ao culto e podiam aproveitar para fazer compras. Alguns comerciantes mesmo quando não autorizados atendiam seus clientes pela porta dos fundos.

Emancipação
O jornal O Taquaryense, de 8 de fevereiro de 1891, assim registrou a notícia: "Foi elevado à categoria de vila (por isso pessoas mais simples ou idosas ainda referem-se a ir a cidade como ir para a vila) o lugar denominado Lajeado. Não havia necessidade alguma de fazer-se de um grande e próspero município dois municípios insignificantes, mas os lajeadenses quiseram e fez-se-lhes a vontade. "Que lhes preste" .

Do belo ao feio
Em 1934, o então prefeito nomeado Oscar da Costa Karnal, seguidamente ausente, seja em missão política ou militar, era substituído pelo subprefeito Osório Belíssimo - que ao final do mandato fora substituído por Ramiro Barcelos Feio, prefeito nomeado.

Voto secreto
Na década de 1930, instalou-se o voto secreto, terminando com o voto de coberto - na zona de Forquetinha com divisa de Vila Sério - com urnas pesadas de madeira carregadas morro acima pelo presidente de uma mesa eleitoral. Com explicações sobre o novo sistema aconteceu que uma senhora após muita tremedeira recebeu o envelope e dirigiu-se a cabine, no caso um quarto anexo. Aconteceu então que a referida eleitora não retornava à mesa, deixando nervosos a todos os mesários. Por fim, coube ao presidente da mesa bater na porta e entrar. Foi quando deparou-se com a eleitora agachada num canto como se procurasse algo. Interrogada, disse que buscava um lugar para esconder o voto secreto.
Oito horas de viagem para Santa Cruz - Em 1928, para ir de Lajeado a Santa Cruz do Sul após uma chuva, a estrada ficava pesada. Como prevenção para atravessar a famosa várzea do Castelhano com um Ford "Bigode" 1926, era preciso munir-se de pá, machadinha e cordas. A viagem levava oito horas.

Filme Crucificação
Na época do cinema, mudo, o mecanismo de projeção era movido ao toque de manivela. Era preciso que o operador se acostumasse ao passo certo para que mocinho e a mocinha não andassem ligeiro demais ou a passo de tartaruga. Alguns filmes vinham acompanhados de uma partitura para acompanhamento musical. Quando a cidade não tinha orquestra, tornava mais difícil a coordenação do repertório de um conjunto local ao enredo do filme. Conta-se que aparecia de tempos em tempos um cinematógrafo ambulante que tinha à disposição um gaiteiro para fazer o fundo musical que projetava. Na véspera de uma semana santa, o dito cujo apareceu e trouxe um filme que versava sobre a Paixão de Cristo. Ao gaiteiro de resumido repertório foi pedido que encaixasse músicas mais sérias e tristes, quando aparecesse o ato da crucificação. Mas no momento em que apareceu na tela a cena da crucificação o gaiteiro mudou para a melodia de uma música que dizia: Tatu subiu no pau.... Foi o fim.

Fonte: Exposição Lajeado em Telas
Obras: Silvio Farias
Acervo: Casa de Cultura de Lajeado
Colaboração: Marcelo Kaufmann

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