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Número de lajeadenses no exterior quadriplica em cinco anos

Em 2019, município registrou maior volume de declarações de saída para o exterior

Créditos: Jean Peixoto
- Jean Peixoto

LAJEADO | Com os pés em Lajeado e o olhar voltado para a Itália, o administrador Maurício Pozzebom (28) aguarda a aprovação do seu pedido de cidadania estrangeira. Natural de Boqueirão do Leão, a pouco menos de um ano, o jovem morava na cidade de Coon Rapids, no Estado de Iowa, nos Estados Unidos. Segundo ele, o retorno ao Vale do Taquari só ocorreu porque a sua permissão de trabalho expirou. Maurício integra o crescente grupo de brasileiros que tem buscado oportunidades de emprego e melhores condições de vida no exterior.

Conforme dados da Receita Federal, o volume de entrega de declarações definitivas de saída do país no município de Lajeado durante o primeiro semestre de 2019 alcançou o maior índice registrado no mesmo período dos últimos cinco anos. De janeiro a maio, 451 gaúchos oficializaram sua saída do país à Receita. O número é 29% superior ao mesmo período de 2018. A oscilação acompanha o movimento que vem ocorrendo em todo o Brasil. Entre 2013 e 2018, a quantidade de brasileiros que abandonaram o país aumentou 57%. A expectativa é que esse número possa dobrar até o final do ano. Só no primeiro semestre de 2019, mais de 21 mil brasileiros se mudaram para o exterior, sendo que, durante todo o ano passado, o volume registrado foi de 22 mil. Vale lembrar que o volume de brasileiros no exterior pode ser muito superior, pois os dados da Receita não contabilizam os imigrantes ilegais.

Maurício Pozzebom destaca que os principais motivos que o levaram a trocar o Brasil pelos Estados Unidos foram as melhores condições econômicas e a segurança pública. "Lá, eu cheguei ganhando mais que o dobro do que eu recebia aqui com sete anos de empresa. Além disso, era extremamente mais seguro." Ele recorda que no condado de Carrol, onde morava, era possível deixar o carro estacionado na rua, com portas e janelas abertas, sem que ninguém tentasse roubá-lo. Em 2010, o brasileiro morou seis meses na Dinamarca e afirma que o modelo de vida europeu é muito promissor para quem busca estudar e trabalhar.

Desde a adolescência, a jornalista lajeadense Taís Grün (38) sonhava em morar na França ou no Canadá. Em Québec, região do Canadá onde também se fala francês, ela realizou os dois sonhos. Em sua terceira viagem à região, em 2007, conheceu o namorado, com quem casou. Em 2011, se separaram e ela decidiu seguir com os estudos em tradução na Universidade de Montreal. No dia 10 de junho, Taís comemorou 12 anos vivendo no exterior. Hoje, casada e com uma filha, a brasileira afirma que só volta ao país natal para visitar a família. "O que mais me inquieta no Brasil atualmente é o alto índice de desemprego e a escalada da violência. Eu não conseguiria mais viver atrás das grades para me proteger", destaca.


Trabalho

O professor de Economia da Unisc, Silvio Cezar Arend, avalia o aumento da emigração como uma perda de capital intelectual para o Brasil. "Em geral, as pessoas que estão saindo do país, são aquelas com maior qualificação profissional. Não é aquele que faz trabalho braçal. Os Estados Unidos vêm atraindo muitos imigrantes devido à possibilidade de permanência no país após a conclusão do curso superior", comenta.

Heron Begnis, professor de Economia, comenta que nem sempre o profissional que sai do país tem um grau de escolaridade elevado, mas geralmente procura melhores condições financeiras. "A própria economia mundial não cresce mais em um ritmo acelerado. A busca por uma oportunidade em outro país, nem sempre exige elevado nível de formação. Muitas vezes se deve a uma busca por uma qualidade de vida melhor para os filhos, segurança pública e assistência social", afirma. Segundo o especialista, a situação que o Brasil atravessa é de excesso de trabalhadores e deficiência de postos de trabalho devido à crise econômica que o país enfrenta. "Enquanto o PIB brasileiro está encolhendo, o nível de desemprego nos Estados Unidos, por exemplo, nunca esteve tão baixo. À medida que a nossa economia retome o crescimento, acredito que o atual quadro de migração de brasileiros seja revertido."


Economia e segurança pública

A coordenadora do curso de Relações Internacionais da Univates, Fernanda Cristina Wiebusch Sindelar, credita a saída massiva de brasileiros do país, principalmente ao quadro econômico do país e à crise na segurança pública. "Nos últimos anos, a economia brasileira vem passando por uma grave crise econômica. Como consequência, temos observado a existência de elevadas taxas de desemprego e as perspectivas do mercado para os próximos anos ainda não são animadoras. Além disso, o aumento da criminalidade tem influenciado diretamente na qualidade de vida das pessoas, assim como, a prestação de serviços públicos ruim."

 

Sem perspectivas

Fernanda destaca que a alta carga tributária sem a contrapartida dos serviços públicos de qualidade potencializa a insatisfação popular. "Observamos inúmeros problemas associados à corrupção, o que acaba causando um sentimento de descontentamento geral da população, que vê reduzidas as perspectivas de melhora. Assim, entendo que as pessoas que migram vão em busca de novas oportunidades de emprego e melhor qualidade de vida", pontua.

Os motivos que levaram o jornalista lajeadense Edmar Martins Gomes (31) a deixar o país não foram exclusivamente financeiros. No dia 30 de maio, ele e o marido Ricardo André chegaram à cidade de Cascais, em Portugal. Segundo Ed - como é conhecido -, o motivo da sua mudança foi a eleição do presidente Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado. "O clima que tomou conta do Brasil ficou tóxico. A eleição do Bolsonaro foi o ápice do desgosto", frisa. O brasileiro destaca que as condições de vida no país são melhores. "É tudo muito diferente. O transporte, a saúde, o respeito. Tudo parece lapidado." Ed conta que, em Cascais, trabalha como chef de cozinha e ganha mais do que faturava enquanto jornalista no Brasil. "Aqui o salário não é alto, mas supre todas as nossas necessidades." Ele conta que eles pretendem passar três meses como turistas e, depois, a meta é conseguir um emprego fixo para obter a cidadania.


Xenofobia

Em alguns países da Europa, como Portugal, os casos de xenofobia com brasileiros têm se multiplicado. Conforme dados do relatório da CICDR (Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial) - órgão que atua no combate e prevenção à discriminação no país - os registros de xenofobia contra brasileiros em Portugal tiveram alta de 150% em 2018. No país a apenas três semanas, Edmar e Ricardo comentam que não frequentam o ambiente acadêmico, onde a maior parte das queixas foram registradas, portanto, não foram vítimas de nenhuma situação discriminatória.

Fernanda Sindelar comenta que o crescimento dos movimentos migratórios pode fomentar o aumento de casos de xenofobia. "É o movimento global que tem influenciado isso, e quanto maiores os movimentos migratórios, maiores serão esses casos motivados pelas diferenças sociais e culturais. Não entendo isso como caso isolado, ainda mais porque diariamente vemos exemplos desses na mídia." Heron Begnis frisa que a população teme que seus postos de trabalho sejam roubados pelos estrangeiros e, por isso, acabam desenvolvendo comportamentos xenofóbicos.


Impactos

Especialista em Relações Internacionais, Fernanda ressalta que do ponto de vista econômico, muitas vezes fluxos migratórios podem contribuir para melhorar o desenvolvimento de regiões. "Vimos na Europa uma busca grande por migrantes a algum tempo em virtude do envelhecimento da população de algumas regiões", lembra. "No período recente, estas migrações têm sido motivadas especialmente por problemas associados à segurança/garantia da sobrevivência, como por exemplo, o movimento decorrente da crise na Síria, ou questões políticas/econômicas como recentemente temos observado na Venezuela."

 

 

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