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O bairro que mudou de nome sem aviso

Moradores relatam alteração inesperada em seus endereços e esperam solução

Créditos: Jean Peixoto
Ex-presidente da associação de moradores, Décio Pedro Wollmuth fez um abaixo-assinado pela volta do Montanha ao seu carnê do IPTU - Lidiane Mallmann

Lajeado - O sol de novembro fervilha sobre as sinuosas ladeiras do Montanha. No coração do bairro, fervilham questionamentos entre os moradores. Foi ali, no número 698, da Rua João Weiler Klein, que Décio Pedro Wollmuth (58) decidiu construir sua história ao lado da esposa, da filha e de três cachorros. Uma narrativa permeada por trabalho, sonhos e afetos. O eterno zagueiro da Associação Atlética Montanha escolheu o bairro como lar. Mas não apenas isso. Durante seis anos, foi presidente da associação de moradores. Ativo nas causas de interesse da comunidade, Décio foi um dos primeiros a sentir que o lugar que escolheu para chamar de seu subitamente havia sido apagado. Pelo menos do campo de endereço no carnê do IPTU. "Até 2015 estava tudo normal. De lá pra cá, mudaram de Montanha para Moinhos D'Água. Ninguém entendeu o porquê."

A quadra em que seu Décio mora desde 1991 fica no limite com o Moinhos D'Água. Costeado pelas ruas Albino Korndörfer e João Sebastiany, de uma hora para outra, o endereço mudou de bairro. Consternado, ele conta que até o campo do Montanha - onde plantou a primeira muda de árvore ao se mudar para o bairro - foi parar do outro lado. "Eu fiz um abaixo-assinado e consegui 51 assinaturas. Isso sem contar os vizinhos com quem eu não consegui falar." O aposentado relata que o tema foi levado à Câmara no primeiro semestre deste ano graças a sua mobilização.

 

Desvalorização imobiliária

Uma das principais reclamações dos moradores prejudicados é a desvalorização dos imóveis, que poderia chegar a 30%. "Teve um vizinho que comparou o preço da sua casa que, no Montanha, é avaliada em R$ 130 mil, e no Moinhos D'Água vale R$ 100 mil", aponta Décio Wollmuth. No entanto, o secretário de Planejamento e Urbanismo de Lajeado, Rafael Zanatta, questiona. "Isso é muito relativo. Por exemplo, uma casa que fica na extremidade oposta à Avenida Benjamin Constant, no Montanha, não é tão bem avaliada quanto uma que fique próxima à mesma avenida no Moinhos D'Água." O secretário também afirma que o valor do IPTU dos moradores diminuiu com a alteração. "Não é uma grande quantia, mas é menor."

 

Correspondências e clientes perdidas

Entre vestidos e manequins, a cabeleireira e comerciante Carmem de Saiva também não foi notificada da mudança. Seu mensageiro extraoficial foi outro - o Google. "Mercadoria não enviada por divergências no CEP." Esta é a mensagem com a qual Carmem se deparou ao comprar equipamentos para o salão em um site. "Meu filho fez uma compra pela internet e não conseguia cadastrar o endereço. Foi assim que descobrimos que o bairro havia mudado para Moinhos D'Água."
Carmem, que trabalha e reside no endereço desde 2001, relata que, certo dia, um homem com uniforme de fiscal de trânsito passou na sua residência e explicou que seria necessário usar o novo endereço para receber correspondência. "Ele disse que ninguém queria fazer esse serviço, por isso mandaram ele avisar as pessoas." A insatisfação no tom de voz denuncia o dissabor de não saber mais onde mora. "Fica complicado explicar para as minhas clientes que aqui não é mais Montanha, porque apenas esse trecho mudou de nome. Como explicar que o campo e o posto de saúde do Montanha agora ficam no Moinhos D'Água? E as clientes que não conseguirem chegar?", questiona. Na conta de energia elétrica, o endereço segue como na escritura do terreno.

 

Divergência no mapa

Rafael Zanatta explica que o problema ocorre porque existe uma divergência entre a lei que define o perímetro do bairro e o mapa que representa este limite. "O texto da lei está correto, o problema está no mapa." O secretário nega a teoria apresentada pelos moradores de que a mudança poderia ter ocorrido por causa da abertura da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), localizada no Moinhos D'Água. "Foi antes", afirma. Segundo Zanatta, a instalação da UPA é estabelecida pelo número de moradores da cidade, não do bairro. O titular da Seplan explica que, para solucionar a questão, será necessário redigir uma lei que autorize a alteração do mapa e encaminhar à Câmara de Vereadores. No entanto, não há prazo exato para a revisão. "Está no radar do município. Fui informado sobre isso há uns dois meses, mas, provavelmente, ficará para o ano que vem", frisa.

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