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O lar de todas

Centro Nora Oderich de Atendimento à Menina, o Lar da Menina, completa hoje 40 anos

Créditos: Rita de Cássia
- Lidiane Mallmann

Lajeado - A história do Centro Nora Oderich de Atendimento à Menina, o Lar da Menina, é repleta de significados e propósitos. Desde o objetivo para o qual foi criado - de oferecer atividades diversas em horário contrário ao escolar - até a maneira de se comunicar com as crianças e adolescentes que estão em formação. Mas não basta o conteúdo didático, é necessário olhar com carinho para cada uma delas. Ensinar não é suficiente, mas sim, mostrar os caminhos que levam a uma vida de crescimento e realizações. As meninas chegam lá com olhinhos brilhantes, próprios de quem está descobrindo o mundo. As professoras precisam ter o dom de abraçá-las com uma palavra: amor. Aliás, esse é o sentimento que prevalece. Antes mesmo de a casa se tornar o que é hoje, de certa forma dona Nora Oderich já preparava o ambiente. Foi lá que criou seus filhos meninos, mas no fundo já deveria saber que ali o sonho de também ver meninas correndo pelo pátio, se tornaria realidade. A doação da casa, por parte do filho Francisco Oderich, abriu o caminho. Figura determinante também, dona Lenira Maria Müller Klein (94), era a peça que faltava para a mágica acontecer.

Sempre que possível, ela visita o local e a emoção toma conta de todos. "Como sempre é bonito vir aqui", diz, ao olhar para as meninas que fazem fila para abraçá-la. "Você está bem?", pergunta para Ana Luisa Senger Macedo (10), que esperava ansiosa para vê-la. "Eu sei que ela é uma pessoa muito boa para o lar. Eu gosto quando ela vem aqui", diz a garota.

O início

Tudo começou em 1977, quando Francisco Oderich, inspirado pela ideia do Rotary Internacional de dignificar o ser humano, doou a antiga residência da família à entidade, propondo a criação de um lugar para abrigar meninas. O projeto foi elaborado por Lenira Maria Müller Klein - esposa do rotariano Mathias Lauro Klein - e demais esposas dos rotarianos de Lajeado. Levou a assinatura dos então presidentes da Sociedade Lajeadense de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Slan), Belo Faustino dos Santos, e do Rotary Club de Lajeado, Solon Cardoso. Após aprovado e aceito pela família Oderich, a moradia foi restaurada. Em 17 de maio de 1978, no alto do morro Oderich, no Bairro Conservas, foi inaugurado o Centro Nora Oderich de Atendimento à Menina, chamado carinhosamente pela comunidade de Lar da Menina. Inicialmente atendia 50, entre 3 e 14 anos. Dona Lenira assumiu a presidência da Slan, em 1980, e permaneceu no cargo durante 37 anos. Hoje, ela é presidente de honra da Slan, da qual o Lar da Menina faz parte.

Comissão

A execução do projeto foi realizada a partir da integração da Slan, sob a presidência de Belo Faustino dos Santos; e Rotary Club de Lajeado, sob a presidência de Solon Cardoso e a seguinte comissão de rotarianos: Carmen Regina e Solon Cardoso; Rosa e Lauro Ferri; Ivone e Dr. Farinatti; Lenira e Lauro Klein; Miriam e Paulo Heerdt; Lia e Sérgio Bertóglio; Lourdes e Adão Becker; Edite e Mário Zart; Dóris e Elito Horst; Isolda e Flávio Carvalho e Silva; Lora e Bruno Träsel e Ivone e Donald Johan.

Caderno de visitas

Parece apenas mais um arquivo de registros, mas o caderno azul de visitas tem um significado bem maior. Com os mesmos 40 anos de idade do Lar da Menina, guarda depoimentos que são verdadeiros tesouros, escritos nos dia da inauguração, em 17 de maio de 1978. São relatos como o de Francisco Oderich, que doou a casa. A sua mãe, Nora Oderich, teve somente filhos homens e sonhava em ter a residência povoada por meninas também. Quando Francisco recebeu o imóvel como herança, lembrou do sonho da mãe. E pelo fato de ser rotariano, doou a propriedade para o Rotary com o objetivo de fazer algo voltado para meninas.

"O local sempre nos encantou pela beleza natural. Aqui tivemos momentos inesquecíveis de convívio familiar junto com nossos pais e nossas crianças. Os dias de Páscoa eram sempre festejados, e ansiosamente aguardados pela gurizada. Nossa mãe tinha especial encantamento por esse acontecimento e se esmerava em atenções nos preparativos. Aqui, pai e mãe iniciaram sua vida conjugal em 1934. Profundamente emocionados fazemos esse registro desejando que se perpetue para todo sempre os benefícios que aqui estarão sendo realizados. Entendemos essa responsabilidade compete aos homens de nossa geração pois vivemos todos numa mesma embarcação. É necessário cuidar do próximo. Sucesso e agradecimentos."

Francisco Oderich.

 

Kindernothilfe

Uma parceria fundamental para o desenvolvimento físico, pedagógico e administrativo foi a realizada com a entidade alemã

Kindernothilfe (KNH). Quem conseguiu a aproximação da KNH com a Slan foi Hartmut Joachim Ulrich Reeps, junto ao responsável pela Amencar - representante da KNH no Brasil - Joachim Voget. "Foi uma das maiores parcerias, tanto em tempo de duração, recursos financeiros e principalmente trazendo conhecimentos, cursos, capacitações e ajuda na parte contábil. Se hoje a Slan como um todo está assim organizada é porque tivemos essa assessoria da KNH", explica a coordenadora da Sociedade Lajeadense de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Slan), Sandra Pretto. Durante os 30 anos de parceria - entre 1978 e 2008 - as meninas também trocavam correspondências com seus padrinhos da Alemanha. "A transparência sempre foi a forma de prestação de contas para a KNH. Sempre tivemos uma rotina de mostrar de que forma os recursos eram empregados", afirma a diretora do Lar da Menina, Virgínia Rempel.

A parceria encerrou-se a partir do momento em que a entidade considerou que o Lar estava apto a tomar a frente das atividades. "Eles acreditaram no projeto e ficaram satisfeitos com o resultado", completa Virgínia.

Amor de mãe

Nestes 40 anos de atividades, centenas são as histórias de transformações de vidas. Muitas das que passaram pelo Lar da Menina hoje levam suas próprias filhas e até netas. Não há um número exato de crianças e adolescentes que foram atendidas, mas levantamento está sendo feito por uma assistente social. O que se sabe é que foram mais de mil. "Em geral, elas entram com 2 anos e ficam até os 14, o que dá uma média de permanência dez a 12 anos", explica a diretora do Centro, Virgínia Rempel. Dos 40 anos comemorados hoje, ela atua no local há 28, contando o período como professora e direção. O contato com as meninas ultrapassa o ensino e o conhecimento. É uma relação de amor de mãe. Tanto que no Dia das Mães recebe mensagens de ex-alunas. "Tenho contato com muitas delas. Sei de suas histórias. Muitas estão casadas, têm filhos, se formaram e têm bons empregos." Ainda conforme a diretora, para trabalhar no Centro Nora Oderich é preciso muito mais do que a vontade de ser professora. É necessário amar a função e estar lá de coração aberto. Além disso, seguir os ensinamentos de dona Lenira Klein, que por muito anos dedicou sua vida para o Lar da Menina, sendo exemplo de disciplina, organização e principalmente amor incondicional.

Sonho realizado

Eloisa da Rosa (35) conhece o Lar da Menina como poucas. Esteve lá quando criança, dos 7 aos 14 anos, e jamais esqueceu o que aprendeu. A identificação foi tão grande que passou a ser sonho. Ela queria ser professora na entidade. Há cerca de três anos, voltou lá como monitora e, agora, educadora. "Aqui aprendi a ser uma pessoa do bem, a me preocupar com o próximo. Quando eu vinha como aluna, ficava olhando as professoras e me imaginava assim, ensinando. Hoje, me vejo nessas meninas e consigo entendê-las melhor. Estou realizada", conta.

Cantando e Tocando Alegria de Viver

O projeto é uma parceria entre Rotary Club de Lajeado, Banco do Brasil e Slan, com o objetivo de ensinar música e proporcionar experiências de sociabilidade, convivência e cidadania. Desde 2013, o aporte financeiro de R$ 70 mil do Banco do Brasil e R$ 30 mil do Rotary, possibilitou a aquisição de mais de 100 instrumentos musicais. Em 2015, com recursos financeiros frutos das parcerias, foi adquirido um veículo utilitário para o transporte dos instrumentos.

Parceiros

O Centro Nora Oderich de Atendimento à Menina, Lar da Menina, é mantido por meio da parceria entre Rotary Club de Lajeado e Sociedade Lajeadense de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Slan), além de vários apoiadores como Prefeitura de Lajeado, jornal O Informativo do Vale, Itaú Social, Clínica Guth Odontologia, Bremil, Fermentos Good Instant, Grupo Independente, Laboratório Hermann, Mesa Brasil Sesc, TV Univates, Voluntariado Banco do Brasil, Rotary Club de Lajeado, Girando Sol, Unimed, Univates, Lions Clube Florestal, Brasdiesel, Docile, BRF, Conpasul, AgroKlein, jornal A Hora, Prefeitura de Lajeado, Minuano, Sicredi, Verde Vida, Casa do Ciclista, Florestal, Atlas, Univates FM e Desín Soluções Ambientais.

Trabalho conjunto

As pessoas podem colaborar com trabalhos voluntários e também com ajuda financeira. Em breve, será necessário iniciar um reforma geral, que precisará de recursos. O trabalho de uma equipe de profissionais e voluntários também é o aporte que mantém as atividades do Lar da Menina. Quem quiser visitar o local ou trabalho voluntário é bem-vindo. Muitos já são realizados por pessoas que levam conhecimentos, oficinas e entretenimento. "Há também uma rede de atendimento que inclui entre outros parceiros, escolas, pessoas da comunidade, postos de saúde e UPA", completa a diretora Virgínia Rempel. "Todo recurso que a Slan recebe é investido totalmente na criança. Ganhamos doações de vários segmentos e todas são bem-vindas. Para nós, é fundamental comemorar esses 40 anos. Estamos felizes por manter o atendimento, buscando sempre melhorar. O Lar da Menina é um orgulho", afirma o presidente da Sociedade Lajeadense de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Slan), Leodir De Gasperi. "Desde a sua inauguração, o Lar da Menina passou a ser o projeto de vida do Rotary e continua até hoje", presidente do Rotary Club de Lajeado, José Inácio Arenhart. "É gratificante poder trabalhar em uma instituição que cuida de pessoas que estão em formação. Compartilhar a minha vida ao lado de pessoas como Dona Lenira, que fizeram tanto pela comunidade é um aprendizado todos os dias", comenta a coordenadora pedagógica dos três centros da Slan, Angelisa Klein.

UNIÃO: José Inácio Arenhart, Sandra Pretto, dona Lenira Klein, Virgínia Rempel e Leodir De Gasperi

Dia de festa

O dia hoje será de muita festa no Lar. As 140 meninas e adolescentes atendidas terão lanches especiais, apresentação do Grupo Pararatimbum, brinquedos e embelezamento feito por cabeleireiras da comunidade. "Pensamos em tudo que uma festa de aniversário tem e vamos proporcionar para elas, com a ajuda de parceiros", comenta Virgínia Rempel.

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