Geral

O legado da hidráulica

Estação de tratamento de água que dá nome ao bairro completa 60 anos de contribuição ao desenvolvimento da cidade

Créditos: Julian Kober
Jovelino Silvestre da Luz trabalhou na construção da primeira caixa d?água  - Julian Kober

Lajeado - Muito antes de ser criado por lei, em junho de 1985, o Bairro Hidráulica teve várias denominações. A mais popular foi Morro dos Negros, ou Negerberg em alemão, uma vez que lá ficavam concentrados os escravos dos primeiros colonizadores, que chegaram por volta de 1862 na então vila de Lageado (sim, ainda grafada com "g"). O município teria a emancipação político-administrativa em 1891.
Em 1958, com a inauguração da primeira estação de tratamento de água de Lajeado, os moradores passaram chamar o subúrbio de Hidráulica, que na época era a denominação da unidade. "Foi um nome que pegou rápido. Todo mundo passou a associá-lo com a estação", relata Milton Bussmann, presidente da associação de moradores do bairro, que vive em rua próxima há mais de 60 anos.
De acordo com o professor José Alfredo Schierholt, a chegada da estação movimentou o bairro. "Uma equipe da Secretaria Estadual de Obras estava construindo a hidráulica, um complexo moderno, com entrada imponente, escritório, laboratório e, principalmente, a vistosa caixa d'água, em local o mais elevado possível", afirma. A inauguração há 60 anos foi no governo municipal de Mário Lampert. Conforme Schierholt, em 1965, a hidráulica fornecia diariamente cerca de 2,3 mil metros cúbicos de água potável, atendendo a aproximadamente duas mil economias, inclusive indústrias. 

 

 

Mudanças

Mais do que uma referência, a estação fez com que Lajeado, e o bairro, se desenvolvessem. Antes da hidráulica funcionar, o fornecimento de água era limitado. As famílias precisam carregar baldes até o rio ou construíam cisternas em casa. "Muita gente descia até o arroio mais próximo para lavar roupa", relata Milton Bussmann.
Com a chegada de água encanada, tudo mudou. "Foi emocionante", admite o morador. As chamadas patentes, construídas nos fundos dos quintais, deram espaços a banheiros dentro das residências. Bussmann recorda a primeira vez que tomou banho em casa. "Antes, a gente precisava usar uma casinha de madeira. No inverno, era muito frio. Ficou muito melhor."
A possibilidade de ter água em casa atraiu muitas pessoas ao bairro, no início da década de 1960. Os terrenos vazios deram espaço para casas, estabelecimentos comerciais e construções. "Deu vida ao lugar que conhecemos hoje. Se eu tivesse comprado lotes aquela época pra vender, hoje eu estaria rico", afirma Bussmann.

 

Testemunha ocular

Morador do Bairro Hidráulica, o pedreiro e eletricista Jovelino Silvestre da Luz (84) acompanhou de perto a história da estação de tratamento. Recorda com detalhes de quando atuou, por exemplo, na construção da primeira caixa d'água, que armazenava mais de 50 mil litros. "Da turma que trabalhou na construção, sou o único que ainda está vivo", afirma. Tudo era braçal e exigiu muita paciência e dedicação. Ele sente até hoje as consequências no corpo, especialmente nas mãos - sofre de tremores - e uma lesão no ombro. O esforço foi recompensado. E após a construção, Jovelino trabalhou por mais de 35 anos na Corsan. "Eu gostava do que eu fazia. Faria tudo de novo. Permitiu que eu pudesse criar a minha família."
O aposentado lembra que, no início, a água não estava sendo distribuída para as casas. "A caixa d'água estava sendo utilizada apenas para serviços internos", explica. Após a pressão dos moradores, um dos engenheiros-chefes da hidráulica colocou uma bica de água para que a população tivesse acesso até que, finalmente, a água passou a chegar nas residências. Rosângela (55), filha de Jovelino, recorda o primeiro banho que tomou dentro de casa. "Foi uma festa", admite.

 

 

Comentários

VEJA TAMBÉM...