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O Natal de um anistiado

Exilado por quase uma década, o preso político João Carlos Bona Garcia, combatente na Ditadura Militar, relembra o reencontro com a família na ceia de 1979

Créditos: Julian Kober
LEMBRAN�AS: João Carlos Bona Garcia narra a vida como preso político e exilado - Julian Kober

Lajeado - Um largo sorriso toma o rosto de João Carlos Bona Garcia ao recordar do Natal de 1979. Depois de quase uma década longe do Brasil, o preso político que lutou contra a Ditadura recebeu a anistia naquele ano. Voltou para a casa, com a esposa Célia e os filhos Rodrigo e Luciano.
A ceia, realizada em Lajeado, marcou o reencontro com os pais, Osório Portela Garcia e Maria Santina Bona Garcia; a irmã, Dinorá, e o cunhado, Leopoldo Feldens. Foi ali que as crianças, nascidas fora do país durante o exílio, tiveram o primeiro contato com os avós, tios e primos. E com a língua portuguesa.
Em seu livro Verás que um filho teu não foge à luta, Bona descreve a festa como "colossal". Lá, ele e Célia puderam matar a saudades da comida e tradições brasileiras, com direito a churrasco, chimarrão, cerveja e caipirinha. "Foi uma festança muito boa. Uma loucura. Ficamos sem voz de tantas gargalhadas e gritos que a gente deu naquela noite", lembra Célia.
A reaproximação com a família naquele Natal motivou Bona a permanecer em Lajeado por um tempo, para ficar perto dos pais, tios e sobrinhos. Depois disso, a ceia tornou-se uma (boa) desculpa para a família estar unida e olhar vitoriosa para o passado.
A tradição se repetiu ano após ano, mesmo após o falecimento dos pais. Nesta quinta-feira, na cobertura no Bairro Rio Branco, em Porto Alegre, Bona e Célia preparavam as malas para viajar a Capão da Canoa, onde vão celebrar mais um fim de ano ao lado da família. Apesar de olhar para a data como outra qualquer, Bona, com 72 anos, jamais vai esquecer do Natal de 1979. "Foi muito especial, com certeza."

Revolucionário

Natural de Passo Fundo, João Carlos Bona Garcia tinha 17 anos quando começou a bater de frente com a Ditadura Militar. O interesse pela política surgiu ainda adolescente - influenciado pela Campanha da Legalidade (1961) de Leonel Brizola, a Revolução Cubana e a figura de Che Guevara. "A juventude queria transformar o mundo. Não se contentava com o padrão que existia na época, a educação que recebia e a rigidez da sociedade", explica.
No livro Verás que um filho teu não foge à luta, Bona relata descrença com a sociedade capitalista. De família humilde, precisou trabalhar ainda adolescente. Enquanto os demais aproveitavam a juventude, Bona passava o dia em um açougue e um matadouro. Uma fato em específico marcou esta época e revelou a ele as contradições da sociedade: enquanto os pobres compravam guisado ou ossos e vísceras, viu uma mulher, esposa de um médico, pedir carne de primeira e mandava moer, dizendo que era para o cachorro.
Com o passar do tempo, despertou o interesse pelo socialismo, o qual considerava um modelo de sociedade onde não havia exploração de trabalho. Aprendeu as ideias de Marx e começou a ler o Manifesto do Partido Comunista.
O interesse político ganhou força no Ensino Médio. Bona subia nas mesas para mobilizar os colegas. Virou presidente da União Passofundense de Estudantes (UPE). Depois, ajudou a organizar greves escolares e uma grande passeata, que acabou batendo de frente com a repressão militar. E antes de completar 18 anos, foi preso e interrogado pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). A prisão fez com que o envolvimento de Bona com a política só aumentasse. Naquela época, participou da fundação do Partido Operário Comunista (POC). Em 1969, mudou-se para Porto Alegre e começou a estudar Engenharia na PUC-RS, mas não concluiu. Era questão de tempo para Bona pegar uma arma na mão para enfrentar a ditadura.

Arma na mão

O sonho de João Carlos Bona Garcia era que o Brasil tivesse um sistema de governo mais justo e democrático, que olhasse para as questões sociais e fosse rígido na distribuição de renda. Porém, na sua visão, a saída dos militares do poder não aconteceria com o tipo de oposição feita pelo Partido Comunista (PC) ou o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). "Criticava-os por não baterem de frente com a ditadura. Era uma oposição morna. Queria mais. Entendi, na época, que para derrubar os militares era necessária a luta armada", explica.
E foi assim que Bona passou a fazer parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que começou a atuar no Rio Grande do Sul. "Queríamos fazer ações armadas iguais às que estavam sendo feitas no Rio e em São Paulo, praticando expropriações e sequestros", afirma. A primeira dele foi contra um carro do Banco Brasul, que transportava dinheiro da Ultragás. No entanto, durante a ação, compreendeu a gravidade de apontar uma arma contra uma pessoa. Ao render um dos seguranças, o homem, mais velho, saiu lentamente do carro e, de forma tranquila, disse a Bona que ele poderia atirar. O guerrilheiro ficou desesperado, não se sentia capaz de atirar em uma pessoa. Nervoso, engatilhou a arma e sacou contra a cabeça do segurança e o convenceu de deitar em uma valeta. Depois disso, nunca mais quis andar armado. "Com uma arma, a pessoa se arrisca a alvejar ou ser alvejado", escreve Bona, em seu livro.

Tortura no Dops

A participação de Bona Garcia na luta armada foi breve. Após a tentativa frustrada de sequestrar o cônsul americano Curtis Carly Cutter em Porto Alegre - ação da qual ele não pôde participar - os militares decidiram que era hora de cessar as ações da Vanguarda Popular Revolucionária no Sul. Para isso, chamaram dois militares do Exército, Malhães e Cabral, especialistas em tortura.
Era questão de tempo até Bona ser preso. Em abril de 1970, após retornar de Passo Fundo, onde havia levado dinheiro para a guerrilha no Rio Uruguai, se viu cercado por policiais em uma garagem em Porto Alegre. "Fomos pegar um carro que seria usado em um possível sequestro. Só que o Exército estava lá há três dias de campana. Não deu tempo de pegar arma nem nada."
De lá, foi levado para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde ficou por mais de um mês. "Sabíamos mais ou menos das consequências, mas o que vi lá me deixou horrorizado." Quando removeram o capuz, viu uma cena que, segundo ele, o violentou profundamente. O chão e o piso eram cobertos de sangue, de pessoas ensanguentadas jogadas no chão, que carregavam marcas das sessões de tortura. Muitas delas, com os rostos inchados, cheio de feridas. A imagem, conforme descrição de Bona em seu livro, remete ao matadouro em que trabalhou na adolescência. Em pouco tempo, sangue também pintaria as paredes da sala.
A tortura iniciou-se ainda no primeiro dia no Dops. Começaram com cigarros acesos. Depois, derrubaram alteres nos seus pés e partiram para os socos.
No segundo dia, foi pior. Em uma sala chamada fossa, os torturadores o aguardavam para a sessão de choques elétricos. Os fios foram amarrados nas orelhas para que o choque atingisse a cabeça. "Foi a mais brutal das torturas. Levei tanto choque que desmaiei e fiquei sem voz. Saí de lá com as orelhas queimadas", relata, abalado.
As sessões de tortura seguiram dia após dia no prédio que abrigava a polícia, o Dops e o Exército. "Os agentes destes órgãos não trocavam informações. Então, depois que um te interrogava, vinha o outro e fazia as mesmas perguntas", afirma. As sessões de tortura eram feitas na presença de médicos, para que os presos permanecessem vivos. "Lembro de ter sido examinado por um médico e ele dizer para os torturadores que poderiam continuar a me bater porque eu era forte."
Mesmo longe da fossa, Bona ficava aterrorizado só de ouvir os gritos e choro dos outros presos enquanto eram torturados. Um dia, viu um companheiro tentar cortar a artéria do braço com os dentes para cometer suicídio. O hoje advogado aposentado recorda com pavor a frieza dos torturadores, que ouviam música clássica e falavam sobre o cotidiano enquanto violentavam os presos. "Em função do poder que tinham, eram pessoas totalmente desequilibradas, que tinham prazer de torturar. Os gritos levavam alguns ao orgasmo. E o mais apavorante é que eles tinham a autorização do Estado para torturar e matar, e falavam isso para nós o tempo todo." Um dos momentos mais terríveis foi o Natal de 1970. Preso em uma solitária, estava sem comida, água, banheiro e o conforto da família, que tentou visitá-lo em vão. Mas, apesar de toda a violência que sofreu, Bona resistiu e não contou nada aos militares.

Com o sequestro, a liberdade

Com mais presos chegando a cada dia no Dops, alguns deles, incluindo Bona Garcia, precisaram ser transferidos ao Presídio Central. Embora não tenha sido torturado, os 20 dias na prisão não foram fáceis. Sem água, dava a descarga no vaso sanitário para beber. De lá, foi para o Presídio da Ilha, o mais ameno dos locais onde esteve preso. Ele e os colegas chegaram a fazer um plano de fuga, mas foram delatados por um dos presos. Depois de ficar confinado em uma cela, foi levado para um quartel. A rotina era terrível e humilhante. "Cada vez que tu saías da cela, tiravam a tua roupa e abriam as nádegas para verificar se não havia nada escondido", relata Bona.
As visitas familiares eram permitidas, mas constrangedoras e tensas. Durante o encontro com a mãe, dona Maria, os militares colocaram uma espingarda em seu pescoço. "Era difícil, doía muito", recorda.
O encarceramento teria fim em janeiro de 1971, depois de a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sob o comando de Carlos Lamarca, orquestrar o sequestro do embaixador da Suíça, Giovanni Enrico Bucher, que acabou trocado por 70 presos políticos. Do quartel, Bona e os companheiros elaboraram a lista dos que seriam libertados - incluindo ele. Sua esposa, Célia, foi quem tirou a lista da ilha e enviou ao VPR. Um mês depois, saíram e foram ao Chile.

Longe de casa

Apesar de livre no Chile, Bona Garcia descobriu, em pouco tempo, a dificuldade de viver no exílio. Seus documentos haviam sido apreendidos. Era um homem sem nacionalidade. "Você não é um imigrante que saiu do país para buscar um trabalho ou ter uma vida melhor. Eu era banido, carregava um carimbo na testa como terrorista", declara.
Apesar disso, a vida em Santiago trouxe muitos aprendizados. Em busca de emprego, foi ao Ministério do Desenvolvimento Social, e passou a atuar nas comunas e meios campesinos. Teve a honra de conhecer o então presidente Salvador Allende. "Era uma pessoa maravilhosa e extremamente inteligente."
Célia seguiu para o Chile alguns meses depois. Foi lá que, em 1973, nasceu o primeiro filho, Rodrigo. O sonho, no entanto, acabou com o golpe militar liderado por Augusto Pinochet. Bona ainda tentou, mas precisou fugir para a Argentina, onde escapou de um sequestro, e depois para a Argélia. No país árabe, nasceu o segundo filho, Luciano. Em Argel, contou com a ajuda de Miguel Arraes, com quem criou um vínculo familiar muito importante. "Foi uma aproximação muito forte. Ele foi uma pessoa que marcou muito a minha vida. Inclusive, quando o Pedro Simon era governador, esteve no Rio Grande do Sul e queria falar comigo, não com o Simon", brinca.

Anistia

Da Argélia, a família seguiu para França, onde Bona protagonizou um marco importante para garantir o retorno dos exilados ao Brasil. Na Europa, a esquerda reagrupou-se para formar o Comitê Brasileiro da Luta pela Anistia, formada por advogados, amigos e parentes de presos políticos. Bona presidiu o comitê. "Nós queríamos voltar", ressalta. A mobilização deu certo e, em 1979, o general João Batista Figueiredo promulgou, em agosto, a lei que concedeu anistia aos que praticaram crimes políticos.

Passaporte para casa

Eufórico com a notícia, Bona, que estava há quase dez anos longe do Brasil e da família, correu para a embaixada brasileira. Lá, viu que o retorno não seria tão fácil. Banido, não tinha passaporte, enquanto o de Célia havia sido rasurado pelos funcionários da embaixada brasileira em Argel. Para obter um novo, era necessário apresentar carteira de identidade e outros documentos - que haviam sido apreendidos quando Bona fora preso nove anos antes.
Graças à Celia, que deu uma declaração afirmando que João Carlos Bona Garcia era brasileiro, nascido em Passo Fundo, recebeu o tão desejado passaporte para que, enfim, pudessem regressar ao país de origem.
A viagem, segundo Bona, foi cheia de emoção. A despedida não foi fácil. A família seguiu ao Rio de Janeiro de avião, uma festa para Rodrigo e Luciano graças ao serviço de bordo e o tamanho da aeronave. Mas, enquanto as crianças se divertiam, Bona e Célia estavam apreensivos com o retorno. No aeroporto, um alarme soou quando verificada a ficha criminal do passageiro. Cercado por policiais federais, foi detido e interrogado mais uma vez. A situação só foi resolvida depois que Brasília confirmou que o nome de Bona estava na lista de anistiados.
Passada a tensão, foram recebidos no saguão por amigos, samba e cartazes dando boas-vindas ao Brasil. De lá, seguiram para Porto Alegre, onde aguardavam a família e a imprensa. E a história de luta, tortura e exílio chegava ao fim com a tão esperada festa de Natal. "Jamais vou esquecer."
Bona recomeçou sua vida em Lajeado e virou professor na então Fundação da Universidade do Alto Taquari (Fates), hoje Univates, onde lecionou Estatística e História Econômica. Mais tarde, trabalhou na antiga Coopave, sendo responsável pela área de processamento de dados.
Determinado a seguir lutando pela liberdade democrática, voltou a atuar na política. Participou da fundação do PMDB de Lajeado. Conforme Bona, a notícia deixou o ex-governador Pedro Simon surpreso. "Ele não podia acreditar que os comunistas iam formar um partido tão forte." Em 1989, o próprio Simon nomeou Bona como subchefe da Casa Civil. Seis anos depois, tornou-se secretário-geral do PMDB. No mesmo ano, foi indicado conselheiro do Banrisul. Em 1997, chegou à presidência do Sindicato dos Bancos do Rio Grande do Sul. No ano seguinte, durante o governo de Antonio Britto, foi nomeado juiz da Justiça Militar do Estado. Seu legado era tão reconhecido que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva veio até Lajeado para convidá-lo a participar do Partido dos Trabalhadores, mas acabou recusando a proposta. "Até hoje sou criticado por isso."

Luta pela memória

Desde que retornou ao país, João Carlos Bona Garcia iniciou uma nova luta: a abertura dos arquivos sobre a Ditadura Militar, especialmente em relação às prisões e torturas de quem, assim como ele, desafiou o regime. Para isso, atuou como presidente da Comissão da Luta contra a Ditadura, que reuniu documentos que até então estavam guardados nos porões dos prédios militares. "Não busco vingança. Nunca vou permitir que façam com eles o que foi feito comigo. Precisamos expor o que aconteceu para que nunca mais aconteça", ressalta.

"Valeu a pena"

Quase 40 anos após o retorno do exílio, Bona Garcia analisa o passado de forma crítica. "Valeu a pena, com certeza." Para ele, sua história traz um importante ensinamento à geração atual. "Lutem por pessoas. Não percam a capacidade de pensar, raciocinar e amar. Estamos entrando em uma era muito delicada." Dito isso, o advogado aposentado chama a esposa Célia, que a essa altura já estava com as malas no carro. O pensamento já está na Freeway, rumo a mais uma ceia em família. Feliz Natal, aos Garcia.

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