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Operários da transformação

No Dia do Trabalhador, conheça a história de quatro pessoas que decidiram mudar de profissão em busca da realização pessoal e qualidade de vida

Créditos: Cristiano Duarte
NOVOS ARES: depois de atuar 8 anos como empresário no ramo de roupas e skate, Pedro Horn fechou as portas da empresa e virou cinegrafista - Lidiane Mallmann

Lajeado - Dizia Benjamin Franklin (1706-1790) que "o trabalho dignifica o homem". Apesar de curta, as três palavras incumbidas nesta frase expressam a relevância do papel de cada pessoa - não apenas para si, mas para a sociedade. Por ter sido jornalista, editor, autor, filantropo, político, funcionário público, cientista, diplomata e inventor, Benjamin concluiu que assim como o trabalho "dignifica" ele dá sentido a própria humanidade em cada um de nós.

Um século depois de Franklin, o pai da psicologia analítica, Carl Jung (1875-1961), constatou que "você é o que você faz, não o que você diz que vai fazer".

Unindo estes dois conceitos, conheça a história de quatro pessoas da região que decidiram mudar de profissão em busca da transformação pessoal.


Vendedor de sonhos

Uma gestante adentra o imóvel à venda no Bairro Campestre acompanhada do marido. Ao chegar no hall de entrada, a mulher se esvai em lágrimas, pois era aquela casa que sempre sonhara em dividir com o esposo.

Contagiado pela emoção do casal, o corretor de imóveis Sandro Fritsch (27) chora também. Mais do que nunca, percebeu o quão sentido fez ter abandonado a estabilidade da vida de bancário e ter corrido atrás de sua vocação no ramo imobiliário.

Pela experiência como corretor, antes de apresentar um imóvel, Sandro prefere conversar e entender o que pretende o cliente em sua compra.

"É um trabalho de empatia. Preciso me colocar no lugar do cliente e lhe apresentar o que mais se encaixa com aquilo que ele deseja. Naquela ocasião, eu havia selecionado apenas um imóvel para apresentar ao casal. Mais do que vender uma casa, eu percebi que eu havia vendido um sonho".


Chances para errar

Não era a estabilidade financeira, a carteira assinada ou os benefícios da vida pública que inquietavam Sandro.

"O que me incomodava era eu mesmo. Queria mais. No banco eu ouvia mais os problemas das pessoas e como corretor de imóveis eu poderia dar soluções a elas", conta.

Embora a família não tenha apoiado a ideia prontamente, Sandro já havia tomado a decisão. Largaria as certezas da vida bancária para vivenciar o dia a dia como autônomo do ramo imobiliário.

"Certa vez um amigo me visitou no banco e disse 'Sandro, você tem que fazer aquilo que te faz sorrir. Vejo que você não está feliz como bancário'", relembra.
Para Sandro, a fala de seu amigo lhe serviu de estopim para o desafio que almejava.

"Na vida a gente tem tempo para errar. Aliás, os erros fazem parte de nossos acertos. Se você não arriscar na vida, vai ficar com uma dúvida te perseguindo. Não quero ter estas dúvidas em mim. Hoje sei que faço aquilo que quero fazer pro resto da vida: ser corretor de imóveis".


Esqueça os boletos

Por ter encontrado sua vocação profissional, os resultados positivos na carreira de Sandro logo despontaram. Mais do que trabalhar no ramo imobiliário, ele acredita estar trabalhando também para seu crescimento pessoal.

"Diariamente tenho a oportunidade de conhecer histórias de vidas diferentes e de ajudar estas pessoas a concretizarem seus maiores sonhos".

Embora o mercado seja competitivo em sua área, para Sandro há espaço para todos.

"Um bom corretor não pensa no lucro, pensa na qualidade do trabalho que deve ser oferecida ao cliente. A concretização da venda resulta da atenção que você dá ao serviço que oferece".


Questão de estilo

A dedicação ao trabalho sempre foi marca de Giordan Conceição (25). Quando funcionário no setor de logística de uma rede de lojas de vestuário, era destaque na atividade. Hoje, como empreendedor no ramo de barbearia, não é diferente.

Enquanto funcionário, para tudo que fosse preciso, lá estava Giordan. Ávido por mostrar serviço, as horas de trabalho pouco importavam.

"Nunca me importei de trabalhar em finais de semana ou um dia inteiro caso fosse necessário", conta o profissional.

Porém, a falta de reciprocidade entre esforço e remuneração começaram a incomodar Giordan.

"Me sentia cada vez mais sobrecarregado. Entregava tudo de mim porque sabiam que eu dava conta. Mas enquanto isso, via muitos colegas vendo jogo de futebol em meio ao expediente".
Era precisa mudar de estilo de vida. Com o mercado de barbearias em expansão, Giordan achou que estaria ali uma oportunidade de inserção no mercado.

Sem grandes pretensões, até aquele momento, começou a fazer uma série de pesquisas no segmento da estética masculina. Em seguida, iniciara um curso intensivo de barbeiro ao longo de cinco meses.

No segundo mês de estudos, percebeu que sua vocação profissional sentava-se numa cadeira de barbeiro.

Com a ideia em mente de abrir um salão de barbearia, o primeiro passo foi vender o veículo popular Prisma. O dinheiro serviu para comprar mesas, cadeiras e balcões. Na negociação com a saída da empresa em que trabalhava, adquiriu o restante dos móveis.

"Quando pedi demissão, meu chefe pediu que eu voltasse. Mas a ideia já estava fixada em minha cabeça. Ser barbeiro era uma ideia sem volta", relembra.


Insônia

Não foram tranquilas as primeiras noites de sono de Giordan quando decidiu empreender. Incertezas quanto à sustentabilidade do negócio lhe faziam revirar de um lado para o outro na cama. Mas a decisão já estava tomada, a sala da barbearia alugada e toda estrutura montada.

Na sexta-feira do dia 27 de abril de 2018, inaugurou o seu estabelecimento comercial. Com mesa de sinuca, cervejas geladas e toalhas quentes para o barbear, desde então o negócio de Giordan vem prosperando.

"Lido diretamente com a autoestima dos homens. Quem frequenta uma barbearia, dificilmente deixa de cuidar de sua aparência. Vira cliente assíduo", conta.

E por saber disso, a mesma dedicação de horas de serviço que usava para o trabalho no setor de logística da loja de vestuário, Giordan passou a utilizar para fazer pesquisas de penteados, estilos de barbear e cortes de cabelo.

"Quando trabalhava para um chefe, meu esforço era para que ele melhorasse de vida. Agora eu vejo o retorno de minha dedicação diária. Isso deixou de ser cansativo e passou a ser prazeroso. Não vejo mais as horas passarem", conta.


Milhas distantes

Todo cliente que adentra na barbearia de Giordan é sempre muito bem atendido. Mas o sorriso quando um freguês vem de longe fica um pouco mais estendido.

Fiéis no estabelecimento, clientes de Sério, Venâncio Aires, Boqueirão do Leão e Santa Clara do Sul vem a Lajeado exclusivamente para cuidar da aparência na cadeira de barbear de Giordan.

"Na minha profissão, os clientes acabam sendo nossos cartões de visitas e sua publicidade. Quando você faz um trabalho bem feito, outras pessoas acabam te procurando em busca de melhorar o visual. Sempre digo, barbearia não é uma fase ou uma moda. É uma questão de estilo".


Fechando as portas, abrindo outras

"Bom dia, bom dia, bom dia", anuncia sorridente Pedro Horn (31) assim que chega no estúdio da TV Univates às 7h30min. Esbanjar tamanho bom humor tão cedo não soa comum para a maioria dos colegas. Mas para Pedro, desde que virou cinegrafista e social media, a vida tomou outro significado.

No caminho inverso do discurso de que "só o empreendedorismo" ou o fato de "trabalhar para si mesmo" resulta na satisfação pessoal, Pedro fechou as portas de sua empresa em agosto do ano passado depois de oito anos empreendendo em lojas de roupas e skates para passar a ser funcionário da universidade.

"Me sinto renovado. Trabalhar com TV e marketing é praticamente como se eu estivesse de férias, porque faço aquilo que gosto. Mal vejo o tempo passar", diz.

A rotina difere da realidade que vivenciou como empresário ao longo de quase uma década. Com o sucesso de seu empreendimento, Pedro chegou a ter duas lojas simultaneamente, dois funcionários e uma sócia.

Por mais que fechasse as portas de sua empresa ao fim do expediente, a labuta lhe perseguia em casa. Entre o cuidado de sua pequena filha Olívia, hoje com quatro anos, e as conversas com a esposa Tamara de Oliveira, Pedro continuava o trabalho fazendo compras e vendas em sites, atendendo clientes e pesquisando mercado.

"Sobravam poucas horas para dormir. Geralmente ficava preocupado com o dia seguinte. Era um stress constante para pouco retorno. Decidi deixar a saúde em primeiro lugar", explica.


Batendo o ponto

Assim que fechou as portas da empresa, Pedro foi selecionado no edital de cinegrafista da Univates. Na mesma semana, foi contratado para trabalhar em uma agência de publicidade.

"Percebi que ter minha própria empresa me impedia de conquistar oportunidades que poderiam, inclusive, me dar um retorno financeiro melhor", conta.

Das mudanças de "chefe" para "funcionário", Pedro destaca o tempo que tem para dedicar ao lazer e família.

"Precisamos ter tempo também para cuidar de nossas vidas e daquilo que amamos. O tempo não pode ser dedicado exclusivamente ao trabalho", ressalta.

À quem questiona o fato de Pedro ter desistido do empreendedorismo para bater ponto, o encontro de sua vocação na publicidade e na cinegrafia respondem a qualquer pergunta.

"O que importa é você sentir-se satisfeito onde trabalho. Até, recentemente, um amigo me convidou para ser sócio de uma agência de publicidade. De pronto, respondi: só se eu for seu funcionário, pois não quero mais ter empresa", brinca.


Tesoura do empoderamento

Nos anúncios de emprego do Sistema Nacional de Emprego (SINE) de Lajeado a oferta de trabalho como manicure pareceu uma boa oportunidade para Joice Peixoto se inserir no mercado de trabalho da beleza.

Recém chegada de Curitiba, Paraná, em outubro de 2008 Joice passou a trabalhar num renomado espaço de beleza em Lajeado.

Logo o talento e cuidado com a autoestima das mulheres que atendia resultaram numa agenda repleta de clientes e horários. Mas entre uma esmaltada e outra, os olhos de Joice percorriam o salão mirando a cabeleireira.

"Era o que eu sonhava em ser. Comecei a fazer diversos cursos na área de corte e estética capilar. Pensava 'quem define o meu potencial sou eu'", relembra.
Não demorou muito para que surgissem as primeiras clientes de Joice quanto cabeleireira. No entanto, ela nunca imaginou que ao melhorar a autoestima de mulheres por meio de tesouras e tintas para cabelo melhoraria também a sua.

"Sempre tive estima baixa. Meu cabelo natural era escuro e cacheado. Resolvi mudar e colorir meu visual para encorajar outras mulheres a fazer o mesmo", conta.

Hoje Joice atende em seu próprio estabelecimento. À moda antiga, pouco divulga seu salão de beleza em redes sociais ou em meios de comunicação. A cabeleireira prefere fazer a publicidade por meio da qualidade do serviço feito com suas clientes.

"Às vezes atendo mulheres que chegam por indicação de outras querendo transformar os seus visuais. E é exatamente isso que sinto que minha profissão faz: transforma as mulheres por meio da aparência e da autoestima".


Mais cor, por favor

Das especialidades nas mãos de Joice está a cor que gosta de dar aos cabelos das clientes. Do vermelho ao dourado, ela acredita que além de dar mais vida à aparência das mulheres, as cores reforçam a personalidade de suas clientes.

"Às vezes as mulheres precisam se sentir representadas por meio de suas belezas. Mudar a aparência também ajuda a mudar o modo como elas veem a si mesmas.

 

 

 

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