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Os desafios de quem está do lado de dentro da porteira

Tecnologias avançam mais rápido do que a infraestrutura permite

Créditos: Luciane Eschberger Ferreira
Irmãos Betti: maior da cidade, granja enfrenta problemas em dobro - Lidiane Mallmann

Nova Bréscia - A automação e a robotização nos galpões que abrigam aves, suínos e bovinos não são mais novidade. A tecnologia há muito chegou no campo - um alento para quem precisava de mão de obra e trabalhava pesado nas propriedades. Entretanto, enquanto há tecnificação para ser empregada no meio rural, falta infraestrutura básica, como energia elétrica constante, sinal para telefonia móvel e internet.

Em Nova Bréscia, município da região com maior destaque na avicultura, existem 122 granjas ativas. O prefeito Marcos Antonio Martini, diz que não basta ser o primeiro do ranking. "É preciso ser excelente do ponto de vista de produção."

Excelência é o que busca a granja Cristofoli, em Linha Pinheiros. A administração da propriedade está na terceira geração da família. Começou com João Cristofoli e hoje está sob a responsabilidade do filho Vilmar e esposa Marli Therezinha e dos filhos do casal Gabriel (29) e Guilherme (26). Gabriel conta que a granja aloja 155 mil pintos de um dia por lote. Quando completam 30 dias, são levados pela empresa integradora. O processo se repete oito vezes por ano, em sistema dark house - galpão totalmente fechado, com controle de luz e ventilação automatizados. A distribuição de comida e de água também são automáticas, o que permite que a família de quatro pessoas dê conta do trabalho e ainda mantenha a criação de suínos, cuidada apenas por Vilmar. "Diminuiu a mão de obra, mas precisou qualificá-la", destaca Gabriel. As melhorias também atendem as regras das integradoras, cada vez mais exigentes.

A grande equação a ser resolvida é adequar a modernização sem a infraestrutura necessária. As quedas de luz, por minutos que sejam, podem causar a mortalidade de milhares de frango. Com tanta instabilidade no fornecimento de energia, não resta outra alternativa senão manter geradores. O custo do equipamento soma uma despesa de R$ 15 mil por lote. "Quando dá queda de luz, o gerador entra em operação em sete segundos", afirma Gabriel. O serviço ineficiente não é barato. A conta de luz da granja Cristofoli fica entre R$ 8 mil e R$ 9 mil por mês. Para resolver o problema, a família decidiu instalar placas fotovoltaicas. O investimento será R$ 500 mil.

Em breve, entra em vigor a nota fiscal eletrônica. Além de computador e software, é necessária internet. E para comunicação com a integradora, o celular é fundamental. São outros dois desafios a serem vencidos, porque não há sinal em Linha Pinheiros. Gabriel comenta que estas dificuldades impactam diretamente o lucro da granja. "O custo de produção é alto e a margem fica espremida."

 

Problemas em dobro

A granja do Betti enfrenta os mesmos problemas, só que em dobro. Maior da cidade, recebe lotes de 330 mil pintos de um dia e os aloja em sete galpões em sistema dark house. O casal Jandir e Miriam Betti e os filhos e suas esposas, Cristiano (31) e Ana Paula, Juliano (24) e Andreia, e Luciano (24) e Carine, tomam conta da propriedade. Para driblar o problema de energia, a opção será apostar em energia solar. O investimento será de R$ 800 mil, financiados em dez anos. Cristiano destaca que há linhas de crédito para este tipo de investimento, que se paga em seis anos, calcula. Além de ter geradores, a família chegou a pagar conta de luz de R$ 17 mil.

Outra problema apontado por Cristiano é o escoamento da produção. O transporte, tanto de entrega de pintos quanto de busca dos frangos, fica a cargo da integradora. Mas isso não significa que o problema fique do lado de fora da porteira. Quanto maior o trajeto, mais perda de peso tem o frango. Ele conta que o percurso via Nova Bréscia para chegar a Lajeado fica em 60 quilômetros. Se fosse por Travesseiro, seriam 36 quilômetros, mas a estrada não tem condições de trafegabilidade. A integradora também gostaria de usar caminhões maiores, o que reduziria o custo de produção, mas implicaria em estradas melhores.

 

Incentivo é fundamental

Considerando que a atividade da pecuária precisa do abastecimento de alimentos e de água em quantidades relativamente altas, é importante que a região esteja prevenida e que existam políticas públicas que auxiliem os produtores a enfrentar situações climáticas adversas de secas, mantendo estoques adequados de alimentos, em especial, silagem, feno e grãos e fontes seguras de abastecimento de água. "Além disso, é fundamental que existam sistemas de controles com implementação de medidas sanitárias para evitar eventuais focos de doenças que possam inviabilizar e trazer problemas muito sérios para as atividades existentes, com reflexos nefastos para a situação das finanças dos municípios", destaca o economista, professor aposentado e consultor em pesquisas e gestão empresarial da Macrovisão - Consultoria, Assessoria e Treinamento, Lucildo Ahlert.

O prefeito de Nova Bréscia, Marcos Antonio Martini, conta que a Administração Municipal mantém programas de incentivo ao meio rural. Serviços, como terraplenagem, e máquinas estão à disposição dos agricultores. As estradas passam por manutenção permanentemente. E quando há enxurradas, que danificam as vicinais, a recuperação é imediata. Segundo o prefeito, além do trânsito dos moradores das localidades, é necessário deixar as vias em condições para escoar a produção agropecuária.

Martini ressalta que o município busca se cadastrar em programas estaduais e federais que beneficiem os produtores, como o Internet para Todos, do governo federal. A peregrinação em órgãos e entidades que possam auxiliar também é uma constante. "Às vezes dizem que o prefeito não para na prefeitura, mas estou sempre em busca de recursos e melhorias para nosso município", conta Martini.

A questão da energia elétrica é uma agenda desde o início de seu governo. Várias reuniões foram realizadas com a distribuidora e essa e outras questões também são debatidas em entidades como Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat) e Federação dos Municípios do Rio grande do Sul (Famurs), tendo em vista que as pautas não são só de Nova Bréscia, mas de toda a região.

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