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Prisão de Cesare divide os Battisti de Progresso

Recebido com festa na cidade, em 2012, ex-guerrilheiro foi capturado na Bolívia e condenado à prisão perpétua na Itália

Créditos: Jean Peixoto
RAÍZES: Pedro Battisti exibe a árvore geneálogica da família - Jean Peixoto

Progresso - Guerrilheiro, terrorista, herói, assassino ou revolucionário. Estas são algumas das definições recorrentes quando se pronuncia o nome Cesare Battisti. Para a população de Progresso, cidade fundada essencialmente por imigrantes italianos, onde ele foi recebido com churrasco e homenagens em 2012, os sentimentos em relação a Battisti são ainda mais diversos. O ex-militante do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) foi preso na Bolívia, após mais de dez anos vivendo como refugiado no Brasil, no último dia 12. O italiano é acusado por quatro homicídios durante a guerrilha, entre 1978 e 1979. Na última segunda-feira, Battisti foi enviado à Itália para cumprir prisão perpétua.

No dia 16 de junho de 2012, cerca de 200 pessoas participaram da recepção a Cesare Battisti em Progresso. Entre aplausos e ameaças, o churrasco, organizado por membros da família Battisti, ocorreu no CTG Sinuelo da Amizade. Na data, o então refugiado aproveitou para lançar Ao Pé do Muro, o terceiro livro de uma trilogia de ficção, baseada em histórias que ouviu na cadeia enquanto esteve preso no Brasil. Em entrevista a O Informativo do Vale, na época, organizadores relataram que, na noite anterior, haviam recebido um telefonema com a ameaça de um atentado à bomba. No entanto, nada impediu Cesare de circular pela cidade pilchado, posando para fotos e visitando residências de outros Battisti.

Em Progresso

No município do Vale do Taquari, onde o sobrenome Battisti está presente da funerária ao supermercado, as opiniões acerca da prisão de Cesare estão divididas. "Ele estava cansado dessa vida de fugir", afirma o aposentado Pedro Battisti (60). Conhecido na cidade como Pedrão, ele foi o responsável pela recepção a Cesare em Progresso há sete anos. Na sua propriedade, Pedro armazena um acervo de reportagens, publicações, biografias e livros escritos pelo ex-guerrilheiro. Até mesmo um convite de casamento de Cesare e sua esposa, Joice, completa a coleção. Segundo Pedro, Cesare Battisti era perseguido porque sabia demais.

Já para a professora Leida Battisti (61), organizadora dos encontros da família na cidade, a Justiça é quem deve decidir o destino dele. "Não participei da reunião em 2012, pois estava em um evento na cidade de Encantado, mas mesmo que estivesse aqui, provavelmente não iria", lembra. Ela comenta que tomou conhecimento sobre o ex-militante do PAC quando viajou para a Itália, em 1998, em busca de outros Battisti. "As informações que recebi não eram tão positivas quanto a euforia do povo dava a entender. Respeito as pessoas que achavam que deveriam dar honras e homenagens a ele, mas eu nunca me envolvi."

O encontro

O primeiro contato entre Pedro e Cesare Battisti se deu durante uma palestra no auditório do curso de Medicina, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), durante o Fórum Social Mundial, em 2012. Em visita à Livraria do Globo, em Porto Alegre, Pedro foi procurar pelo livro Ao Pé do Muro. Foi quando soube pelo rádio da palestra e decidiu ir até lá. No encontro, o professor Carlos Alberto Lungarzo, autor do livro Os Cenários Ocultos do Caso Battisti, palestrou ao lado de Cesare. Pedro pediu a palavra e falou com Cesare pela primeira vez. "Eu disse que tinha uma loja de móveis que se chamava Battisti e puxei conversa", lembra. Segundo Pedro, o italiano comentou que tinha o sonho de comer um churrasco gaúcho. O desejo foi realizado em uma segunda visita à Capital, na Churrascaria Casarão.

Após o encontro, surgiu a ideia de convidá-lo para a reunião da família Battisti no Vale do Taquari. "Ele disse que aquela foi a primeira vez, em 30 anos, que se sentia em casa", relata Pedro. Segundo ele, Battisti sempre trilhou o caminho entre o prestígio e o desprezo. "Enquanto esteve preso na Papuda, em Brasília, recebia mais de 200 cartas por dia. Em seu aniversário, a esposa do prefeito de Fortaleza levou um bolo para festejar na cadeia", destaca. Reitera que Battisti utilizou o período do cárcere para escrever seus livros.

"Não fui eu quem puxou o gatilho"

Os traços do rosto denunciam o que o sobrenome justifica. O agricultor Sadí Battisti (52) lembra que já teve quatro encontros com Cesare. Segundo Sadí, ele sempre negou a autoria dos crimes. "Nos encontramos em churrascos e, várias vezes, eu perguntei se ele era culpado. Ele sempre disse que participava do movimento, mas que era inocente", recorda. Embora guarde boas lembranças das confraternizações, ele não tem certeza quanto à inocência de Battisti. "Pelo que ele contava, eu sei que estava envolvido. Alguma coisa deve ter", complementa.

Em suas conversas com Cesare, Pedro Battisti revela que o parente distante sempre afirmou: "não fui eu quem puxou o gatilho." O aposentado relata que, conforme o livro de Carlos Lungarzo, Battisti é acusado de duas mortes que teriam acontecido simultaneamente em lugares diferentes. "Como isso seria possível?", questiona. Em outra conversa privada, Cesare teria afirmado que, quem teria disparado o tiro que deixou paraplégico o filho de um joalheiro, em Milão - crime pelo qual Cesare é acusado -, teria sido o próprio pai.

Trajetória

Nascido em Sermoneta, ao Sul de Roma, em 18 de dezembro de 1954, Cesare Battisti foi criado por uma família católica comunista. Em 1970, nos chamados "Anos de Chumbo", se aliou à guerrilha antifascista do PAC, em contraponto à operação Gladio, surgida na Itália após o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi preso em 1979, acusado por crimes políticos, mas fugiu em 1981. Entre 1982 e 1988, ele foi julgado, em ausência, em Milão. Em 1993 foi condenado a duas prisões perpétuas por quatro homicídios. Dois deles, por cumplicidade, e dois, ocorridos entre 1978 e 1979.

Após sua passagem pelo México, Battisti obteve refúgio do governo de François Mitterrand, na França, entre 1990 e 2004. Com a perda do asilo francês, por ordem de Jacques Chirac, fugiu para o Brasil, onde ficou preso por quatro anos. Em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou sua extradição. No entanto, a decisão ficou nas mãos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que rejeitou o pedido de extradição, contrariando o governo italiano. Em 2011, conquistou a liberdade e mudou-se para o litoral paulista. Após constituir família em solo brasileiro, em 2015, novamente teve sua deportação determinada. Em 2017, passou a usar tornozeleiras eletrônicas, após ser detido no município de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, sob suspeita de evasão de divisas na fronteira do Brasil com a Bolívia.

Fuga

Cesare Battisti fugiu para a Bolívia no final de 2018, quando o ex-presidente Michel Temer (MDB) ordenou sua extradição. Ele era considerado foragido do país desde 13 de dezembro, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, ordenou sua prisão preventiva. Antes mesmo da posse, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) já havia firmado acordo com o ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, para a extradição de Battisti. Aos 64 anos, Battisti foi preso na noite do último dia 12 em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Na manhã da última segunda-feira (14), o avião com Battisti chegou ao aeroporto de Ciampino, em Roma. Ele foi conduzido ao centro de detenção de Massama, no interior de Oristano, na Sardenha. No presídio, ele permanecerá em uma cela isolada durante seis meses. Após, passará o mesmo período isolado, mas apenas durante o dia.

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