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Professores e alunos fazem mobilização contra medidas do governo

Reivindicações pelo fim do parcelamento de salários e do corte de verbas e críticas à Reforma da Previdência paralisaram atividades em diversas escolas da região

Créditos: Cristiano Duarte
ADESÃO: estudantes de Lajeado participaram da manifestação dos professores empunhando cartazes pedindo melhorias na educação - Cristiano Duarte

Vale do Taquari - Usando chapéu de bobo da corte e nariz de palhaço, a professora de português do Vidal de Negreiros Mônica Gomes (55) empunhava um cartaz de protesto contra o corte de verbas na educação feito pelo governo. Ela se somava a outros educadores e alunos durante a manifestação do Dia de Luta pela Educação, ontem na Rua Júlio de Castilhos, no Centro de Lajeado.

"Os professores se tornaram os bobos da corte. Palhaços e bufões dos governos corruptos e sem noção. Eles desviam dinheiro e recursos, e nós pagamos o pato", dizia o manifesto no papel.
Para a educadora, a falta de valorização profissional chegou a determinado ponto em que ela sente-se como uma "palhaça". "Nossas condições de trabalho são inexistentes e recebemos salários atrasados. Agora inventaram um novo Ensino Médio no gabinete dos políticos, distante da realidade das salas de aula. Trabalhamos, em alguns casos, em quatro escolas para conseguir sobreviver. É lamentável a situação que os professores vivem", diz.

No ato convocado pelo Conselho Nacional dos Trabalhadores em Educação do Brasil (CNTE), as escolas estaduais Vidal de Negreiros, em Estrela; Presidente Castelo Branco, Érico Veríssimo, Fernandes Vieira e IFSUL, em Lajeado; e Capitão paralisaram as atividades em protesto contra a Reforma da Previdência e os cortes nas políticas educacionais, além da ameaça do fim da vinculação constitucional que assegura recursos para o setor.


Parada na Júlio de Castilhos

Ainda no ato na Júlio de Castilhos, em Lajeado, estudantes das escolas estaduais empunhavam cartazes e ocupavam a rua durante o fechamento do semáforo.

"Muita gente acha que estamos aqui só para fazer baderna, mas estamos lutando por nossos direitos. Luta não é só no UFC ou no futebol. Estamos aqui pela nossa educação. Os professores são responsáveis por formar todos os profissionais da sociedade. Precisam ser valorizados", protesta o estudante do 2º ano do magistério, Yuri Wesley (17).


Para o presidente o coordenador do 8º Núcleo do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul, Gerson Johann, o apoio dos alunos trata-se de um retorno da participação dos grêmios estudantis nas pautas de educação reivindicadas pela classe.


"A manifestação é um ato de rebeldia. A juventude tem percebido que as medidas do governo contra a educação e a Reforma da Previdência impactam diretamente na suas vidas. Estamos aqui para defender os sonhos deles por uma sociedade melhor", sustenta o sindicalista.

Motoristas que passavam pela Júlio de Castilhos e deparavam-se com o protesto, em sua maioria, apoiavam as solicitações de professores e estudantes nos cartazes e nos cantos.

"Para os jovens, as medidas deste governo mostram-se como um atraso. Não vejo essa manifestação como uma baderna, mas sim um ato de coragem que eles têm para o futuro que querem", conclui o apostando Celito Oscar (77).


"Vão trabalhar!"

Durante a manifestação no Centro de Lajeado, um homem, que prefere não se identificar, foi até a frente dos professores e vociferou por diversas vezes dizeres de "Vão trabalhar", "Lugar de aluno é na escola" e "Vocês querem baderna". Lamentando a cena, a professora de português Denise Goulart (61) pediu que em vez de criticar, que ele conversasse com os apoiadores do ato para compreender as reivindicações.

"Me surpreende que tenha cidadãos que abertamente e de forma tão pública se colocam contra nossa luta na educação. Estamos juntos de nossos estudantes na luta pelo futuro. Nossos alunos sonham com o caminho do saber. Nenhum país no mundo cresceu sem investimento em educação", diz.

Participando do ato em Lajeado, o diretor estadual do CPERS, Cássio Ricardo, enfatizou que no Brasil a educação é tratada como custo e não investimento.

"Querem diminuir cargas horárias em filosofia e sociologia, como os alunos irão competir no ingresso das faculdades e no mercado de trabalho sem este conhecimento?", questiona.


João de Deus

Na Escola Estadual de Ensino Médio João de Deus, em Cruzeiro do Sul, embora não tenha havido paralisação, alunos e professores fizeram uma caminhada na Rua General Neto, às 10h. O ato foi promovido pelo grêmio estudantil. Além da falta de professores na instituição, estudantes também solicitam providências quanto à valorização profissional dos educadores.

"Estamos sem professores em diversas disciplinas e ainda pensam em reduzir nossas horas de filosofia e sociologia. Isso é um ataque ao nosso modo de pensar enquanto sociedade", protesta a vice-presidente do grêmio estudantil, Eduarda Carolina (18).

Com apoio dos professores e suporte da Brigada Militar, mais de cem alunos percorreram as principais ruas da cidade com cartazes pedindo melhorias na educação.


Frustração

Professor recém-formado - em 2018 - Márcio Door (41) não sabe se permanecerá em sala de aula no ano que vem. Em contrato temporário por prazo determinado, ele ficará sem garantia de trabalho até março do próximo ano.

"Meu sonho era ser professor. Por décadas trabalhei no comércio e na indústria. Com muito esforço fiz minha graduação, mas não vejo uma previsão de melhorias na Educação. Os governos não investem nos estudantes, que são o futuro do país", lamenta.

 

 

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