Polícia

Profissionais na arte de enganar

Mais de 500 estelionatos foram registrados em 2018 no Vale do Taquari

Créditos: Caroline Garske
ESTELIONATOS: "golpe do bilhete" é um dos mais comuns na região - Lidiane Mallmann

Vale do Taquari -  "Fiquei bem preocupada, pois não tenho a mínima ideia de como que conseguiram os meus dados." Esta fala é de uma mulher de 31 anos, moradora de Lajeado e vítima de estelionato na última semana. Ela é uma das milhares de pessoas que são passadas para trás todos os dias no Rio Grande do Sul. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, foram 506 estelionatos registrados nas delegacias do Vale do Taquari, sendo 178 apenas em Lajeado. Em todo RS, foram 20.949 casos no ano passado.

São diversas modalidades de golpes que têm, exclusivamente, o objetivo de extorquir dinheiro das pessoas. Entre os mais corriqueiros registrados na 19ª Delegacia Regional, com sede em Lajeado, estão as fraudes digitais, explica o delegado titular, Miguel Mendes Ribeiro Neto. "Pelo fluxo de registros policiais, os golpes mais comuns e que chamam a atenção pelo grau de preparação, são fraudes por meio da internet, como o 'golpe do boleto' (simulação de um boleto com desconto atrativo, para pagamento pela vítima, sendo o valor direcionado a uma conta de acesso do golpista), 'vendas' de produtos que acabam não sendo entregues ou 'compras' de produtos que acabam não sendo pagos (pela simulação de depósito bancário)", detalha Neto.

Vítima de uma destas fraudes eletrônicas, uma mulher de 31 anos conta que recebeu um e-mail sobre uma compra de R$ 600 e, cinco minutos após, a mesma foi cancelada. No entanto, mesmo sem prejuízo, ela preferiu investigar. "Liguei para o PagSeguro e fiquei sabendo que foi criado um cartão de crédito com os meus dados. Este cartão, segundo eles, está no meu nome. Não sei como conseguiram meus dados, pois não dou informações por telefone, não fico clicando em links que não conheço pela internet." Preocupada com o fato de ter seus dados nas mãos de outras pessoas, ela decidiu registrar um boletim de ocorrência. "A Polícia Civil orientou para que eu aguarde, pois vão fazer a investigação de quem fez e de como foi feito o cartão e a compra", afirma.

Outro caso, é o de uma aposentada de 63 anos e moradora de Lajeado que perdeu quase R$ 150, após ser descontada de um seguro que ela nunca havia feito. "Tenho conta há anos no Banrisul e começou a acontecer um desconto de R$ 48,82 por mês, em setembro, outubro e novembro de 2018. Achei estranho e fui falar com minha gerente e ela falou que era um seguro da Unimed, mas eu nunca fiz seguro", conta. Mesmo depois de bloquear o suposto seguro, ela continuou sendo cobrada e até ameaçada. Além disso, a contrariedade nas informações deixaram claro o crime de estelionato. "Liguei para um número e atenderam com o nome de outra seguradora, sendo que veio como seguro da Unimed. Estou tentando ser ressarcida deste valor, porque não autorizei nenhum seguro. E ainda me ameaçaram! Falaram que além de não ser ressarcida, vou para o Serasa por não ter pago dezembro e janeiro", relata.

A assessoria de imprensa do Banrisul informou que não é possível falar publicamente sobre movimentações em contas devido ao sigilo bancário. Já a assessoria da Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo (Unimed VTRP) informou que, como operadora de planos de saúde, não comercializa seguros de nenhuma natureza na região. "Como cooperativa médica, o objetivo da Unimed VTRP é realizar a gestão da saúde de seus clientes, e estimular a promoção à saúde das pessoas das comunidades onde atua por meio da mudança de hábitos", afirma em nota.

Verão é época de golpes

O delegado regional Miguel Mendes Ribeiro Neto explica que a procura por imóveis no Litoral aumenta a quantidade de estelionatos nesta época do ano. Segundo ele, o risco se soma quando a negociação é feita pela internet e quando há o adiantamento de valores. "Orientamos que a busca de imóveis seja feita por meio de imobiliárias ou de profissionais conhecidos na área (corretores), ou ainda por intermédio da indicação de algum parente ou amigo, que conhece o proprietário ou já tenha locado, sem problemas, o imóvel."
Neto também sinaliza para a importância de assinatura de contrato e de contato pessoal entre quem negocia. "É importante que a pessoa interessada na locação peça outras informações e algumas garantias da existência do imóvel e não se precipite em adiantar valores antes de um convencimento sobre a idoneidade de quem oferece o imóvel, por mais que tal pessoa pressione alegando a existência de outros interessados", orienta o delegado.

O famoso "golpe do bilhete"

Conhecido e muito comum no Estado e na região do Vale do Taquari, o "golpe do bilhete" se dá pelo convencimento de pessoas quanto à existência de um prêmio a ser resgatado, na verdade inexistente, com o adiantamento de valores por parte da vítima como garantia. "Via de regra, salvo poucas exceções, esse tipo de crime recai sobre pessoas idosas, que são mais suscetíveis de serem envolvidas em engodos e de estabelecerem uma relação de cordialidade e acolhimento com pessoas diversas, inclusive desconhecidos, principalmente nas cidades do interior", explica o delegado Miguel Mendes Ribeiro Neto.

A psicóloga do Centro Profissional Naces, Janaína Kriger Wagner, fala sobre como funciona a mente destes criminosos. "As características que propiciam a situação aparecem em vítimas mais desatentas, ingênuas, acolhedoras, com questões de memória mais atrapalhada. Essas capacidades de memória e atenção um pouco mais lentas favorecem muito o golpe." Mais que isto, a profissional detalha que o estelionatário usa o seu tempo para estudar seu próximo golpe, diferente das pessoas comuns, que têm uma vida corrida. "A nossa falta de atenção em cada detalhe do dia acaba nos traindo e nos deixando enganar, infelizmente. Eles estudam meios de abordar, e em geral, não estão sozinhos. Fazem uso do tempo, não deixam que a pessoa pense, que a pessoa consiga perceber quando há uma discrepância no discurso. Tudo é muito rápido, a informação vem rápida", reitera a psicóloga. Janaína não generaliza, mas explica que, muitas vezes, cair no golpe pode ser consequência da ganância. "Vivemos uma crise de valores em nosso país, onde estamos nos habituando a conviver com falhas de caráter, pequenas corrupções diárias. Isso aliado ao nosso imediatismo, que também é uma patologia do momento. Não temos mais tolerância às esperas e a enfrentar os processos no seu tempo. Esta crise de valores pode nos levar a seduzir pela possibilidade de um dinheiro fácil", comenta.

Ainda segundo o delegado Neto, golpes como o do bilhete são geralmente cometidos em horário comercial e por pessoas de outros municípios. "Tal conduta criminosa é itinerante, normalmente cometida por indivíduos de outras cidades que circulam por vários municípios e localidades. Costumam, também, se valer de disfarces, alterações na aparência física, uso eventual de chapéus, óculos, barba, perucas, que dificultam sua identificação", afirma o titular da 19ª Delegacia Regional.

Brigada Militar de Lajeado impede estelionato

Sempre atenta às situações suspeitas do dia a dia, a Brigada Militar (BM) impediu na tarde de quinta-feira, que mais um criminoso desse continuidade a um estelionato. Na sala de operações do 22º Batalhão de Polícia Militar (BPM), a soldada Elizandra Schenkartczuk atendeu uma ligação no 190, de um idoso, que desconfiou da compra de um carro. "Eu atendi e pela voz eu deduzi que era um senhor. Ele me pediu ajuda porque estava negociando um carro com um policial militar, com o nome de Rodrigo Rodrigues da Costa. Falei que não tinha nenhum policial com esse nome e nem com as características que ele me passou", relembra a soldada.

Prontamente, Elizandra acionou o setor de Inteligência da BM e alertou para o golpe. "Nas investigações, eles conseguiram o RG dele e viram que ele possui vários antecedentes de estelionato." A partir disso, os policiais militares foram até o local que a vítima estava: na agência da Caixa Econômica Federal do Centro de Lajeado. Lá, o idoso faria o saque de mais R$ 3,5 mil para entregar ao criminoso. Como adiantamento, ele já havia pago R$ 1,5 mil.

"E o curioso, quando chegou na delegacia, outra pessoa viu o criminoso e reconheceu ele por ter pedido R$ 600 por uma motocicleta e não ter entregado o veículo", conta a soldada Elizandra, reiterando que o estelionatário possui diversos antecedentes criminais por golpes realizados em Fazenda Vilanova, Cruzeiro do Sul, Vera Cruz, Venâncio Aires e Marques de Souza.

Delegado da Polícia Civil alerta

O Informativo do Vale - Quais golpes se configuram como estelionato?

Miguel Mendes Ribeiro Neto - O crime de estelionato é uma modalidade de crime contra o patrimônio e está previsto no Art. 171 do Código Penal. Se configura, em resumo, pela obtenção de vantagem ilícita, indevida, causando prejuízo patrimonial à pessoa física ou jurídica, por meios fraudulentos. Assim, por erro, a vítima acaba por entregar valores em dinheiro, bens ou direitos economicamente relevantes, julgando ser de direito, justo, em razão de um negociação levada a efeito com o autor ou autores do crime, quando na verdade restará com um prejuízo financeiro e estes com uma vantagem injusta, contrária ao direito. São, ainda, equiparados ao estelionato, recebendo o mesmo apenamento, fraudes como a emissão de cheques sem suficiente provisão de fundos, a venda ou entrega em pagamento de coisa alheia como se própria fosse e a obtenção indevida de prêmios de seguro ou indenização por meio de destruição de coisa, autolesões, etc.

O Informativo do Vale - Como fugir da situação?

Ribeiro Neto - Ao perceber que está sendo envolvida numa situação estranha, a pessoa abordada deve se desvencilhar, sair desse cenário e, o mais brevemente possível, acionar os órgãos de segurança (Brigada Militar e Polícia Civil), informando a localização e características dos indivíduos. Isso poderá viabilizar uma imediata captura dos mesmos e o seu enquadramento em tentativa de estelionato, com a prisão em flagrante, viabilizando também a identificação para posterior reconhecimento por outras vítimas, ainda que de outras cidades (visto se tratar de uma conduta criminosa itinerante e os órgãos de segurança possuírem seus serviços de inteligência e alerta que possibilitam o compartilhamento e informações céleres sobre prisões). É importante que as pessoas em geral possuam informações sobre esse tipo de golpe, pois podem também colaborar com a sua repressão, mesmo não sendo a vítima, ao perceber nas ruas um cenário como o acima descrito (uma "reunião" de ao menos três pessoas, sendo uma normalmente idosa, uma mais bem vestida, numa calçada) também podem comunicar aos órgãos de segurança e, da mesma forma, viabilizar a identificação e prisão dos autores.

O Informativo do Vale - Qual a pena para o estelionatário?

Ribeiro Neto - A pena prevista no Art. 171 do Código Penal é de um acinco anos de reclusão, e multa.

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