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Projeto conecta imigrantes e brasileiros pela língua portuguesa

Aulas ocorrem todas as terças-feiras na sala 109 do Colégio Presidente Castelo Branco

Créditos: Natália Richter*
Desde 2015 o Vem Pra Cá conecta brasileiros e estrangeiros por meio da língua portuguesa - Natália Richter

LAJEADO | Seu país de origem é o Egito, a língua materna é o árabe egípcio e a segunda, o inglês. Há seis anos morando no Brasil e trabalhando em uma empresa do ramo alimentício, Mohamed Elsayd Habib encontrou no idioma o principal desafio. É na sala 109 do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco (Castelinho), que todas as terças-feiras, das 9h às 11h, ele e outros imigrantes começam a passar por este obstáculo.

O Vem Pra Cá - ou, como era chamado antes, Veredas da Linguagem - é um projeto de extensão da Univates que, desde 2015, ensina português a imigrantes que moram em Lajeado. "Sabemos que uma das grandes dificuldades ao chegar em um país é não saber a sua língua, como se comunicar e interagir com as pessoas", explica Maristela Juchum, doutorada em Letras e coordenadora do projeto. Segundo ela, o objetivo é auxiliar os estrangeiros a se integrarem na comunidade através da língua. Maristela destaca que o português é ensinado como adicional, já que a maior parte dos imigrantes fala dois, três, até quatro idiomas.

 

Sozinho

Como a grande maioria dos estrangeiros, Habib deixou familiares e amigos e veio sozinho viver em terras brasileiras. Para ele, que participa há três meses, o projeto têm sido muito importante, mesmo que já fale o idioma nacional. "Preciso estudar o português para compreender melhor, escrever, ler um jornal, assistir TV. O projeto me ajuda muito", relata.

As aulas são planejadas com antecedência e o material pedagógico é pensado de acordo com temas que são de interesse e necessidade dos imigrantes, capacitando-os na leitura, escrita e oralidade. Ao ingressar no projeto, cada aluno recebe um livro dividido em pequenas unidades temáticas que conduzem as aulas. Dentre os temas trabalhados está a dificuldade de conseguir trabalho por não dominarem o português. Pensando nisso, umas das primeiras lições é a produção de currículos, que são encaminhados às empresas que possuem vagas a fim de ajudá-los, já que muitos não têm emprego.

As aulas são lecionadas por alunos voluntários de diferentes cursos da Univates, que são conduzidos pela coordenadora Maristela e a bolsista do projeto, Marcelli Schossler Flores (22). Em setembro de 2017, a estudante do curso de Engenharia Elétrica ficou sabendo do no Vem Pra Cá por meio de uma amiga e desde então ficou encantada. "É um projeto muito importante. Não só para mim ou para os voluntários, mas para a comunidade lajeadense e a imigrante", conta. No início, a experiência foi um desafio para a futura engenheira, mas cada terça-feira faz valer a pena.

Em 2015, durante intercâmbio acadêmico na Univates, Vanessa Carreira conheceu e foi voluntária do projeto de extensão. Apaixonada pelo Brasil, após se graduar em Comunicação In Media, a portuguesa veio para o país em 2018 e, neste ano, revive a experiência. É gratificante para ela ouvir dos alunos que eles se sentem bem, acolhidos e aceitos com o grupo. Para ela, participar do projeto é um exercício de empatia. "É nos colocarmos no lugar do outro. Tanto da nossa parte, quando da deles, pois todos cooperam conosco", ressalta. Não é apenas ela quem ensina. A cada semana, Vanessa aprende com as histórias, as diferentes culturas e dificuldades que conhece por meio dos alunos estrangeiros. Ela também está gravando um minidocumentário das aulas que será publicado no seu canal do Youtube.


"Um caos que funciona"

"Um caos que funciona." É assim que a coordenadora Maristela define, carinhosamente, o projeto. As adversidades em sala de aula são muitas, "principalmente a diversidade de culturas e idiomas, a quantidade de alunos e os diferentes níveis de avanço", conta. Mesmo assim, professora, bolsista e voluntários conseguem atender a todos de acordo com as suas necessidades.
Segundo Maristela, a ideia do Vem Pra Cá é que os imigrantes participem das aulas não apenas para aprender a língua, a cultura gaúcha e brasileira. É um trabalho intercultural, aprendem, mas também têm muito a ensinar, como as línguas que falam e a cultura do seu país. "É esse aprender com o outro que dá sentido às nossas aulas", declara.

Atualmente o projeto possui sete voluntários e 24 alunos cadastrados, desde adolescentes de 18 e 19 anos, até adultos de 50 anos. A maior parte é de haitianos, senegaleses e paquistaneses. As aulas são gratuitas e acontecem de abril a dezembro. Para participar é preciso ir até o Castelinho e preencher uma ficha de inscrição, que ajuda a organização do projeto a ter um controle da quantidade de alunos, quem são eles, de quais lugares vêm e há quanto tempo estão no país. As inscrições podem ser feitas a qualquer momento durante o ano.

Os alunos que seguem até o final recebem, no último dia de aula, um certificado de participação, que serve como um documento, especialmente quando procuram emprego, mostrando o quanto conhecem da língua portuguesa.

 



*com supervisão da editora Luciane Eschberger Ferreira

 

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