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Quando a história morre: falta de documentos dificulta resgate histórico

Pesquisa buscou desvendar mistérios sobre cemitério municipal que haveria em Lajeado no início do século XIX


- Nicole Morás

Lajeado - Muitas vezes considerados um lugar de tabu ou associados a significados negativos, os cemitérios também podem ser importantes fontes históricas e locais de pesquisa, como a diplomada do curso de História Gésica Favaretto abordou no seu trabalho de conclusão de curso (TCC). Intitulada "Primeiro cemitério municipal de Lajeado: inferências sobre a localização e perfil social dos sepultados entre 1916 e 1933", a pesquisa teve como objetivo recuperar dados sobre um cemitério público que seria o primeiro de que se tem registro no município.

A ideia para o TCC surgiu quando Gésica realizou estágio no Arquivo Municipal de Lajeado. É lá que está o livro de registros do Cemitério Municipal de Lajeado, o único indício de que esse local existiu. "A partir da análise do livro, realizei pesquisa em diversos órgãos públicos e privados na busca de informações e de documentos legais que auxiliassem no encontro da possível localização geográfica do cemitério no município. Porém, além desse livro, há poucos registros sobre esse assunto", explica ela.

Gésica afirma que sua motivação para abordar esse assunto surgiu durante a graduação. "Interessei-me por diversos temas, mas a questão da morte e dos locais de memória sempre despertou questionamentos, reflexões e muita curiosidade, me motivando a tentar esclarecer as informações que constavam no livro que fez parte do estudo. Uma das motivações para a pesquisa foi que não havia registro do estudo do códice em questão. Além de fazer sua transcrição durante o estágio, percebi uma possibilidade de compreender a história da região por meio dos sepultamentos, relacionando o livro com registros administrativos de epidemias, problemas sociais, catástrofes, entre outros", explica ela.

A diplomada acrescenta ainda que outra motivação foi a grande disparidade na preservação de locais públicos e privados que ocorre no País, "pois os sepultados nesse cemitério e nesse período eram pessoas de uma classe social baixa e cujas famílias, possivelmente, não tinham condição de arcar com as despesas para o sepultamento em cemitérios de instituições religiosas, pessoas que ficaram por muito tempo à margem das pesquisas históricas", analisa ela.

Para dar maior veracidade ao livro de registros, a diplomada buscou certidões de óbito no cartório de registro em nome dos sepultados, obtendo a comprovação de nomes e datas de morte. "Os cemitérios, assim como outras construções, são um importante patrimônio histórico, que ajudam a contar a história de uma localidade, de sua colonização, organização social e desenvolvimento, sendo a preservação e a restauração dessas construções de suma importância para a compreensão da história de cada povo pelas gerações futuras", avalia Gésica.

No livro de registros, a historiadora identificou o nome de 126 pessoas que teriam sido sepultadas no cemitério municipal durante o período de 1916 a 1933, sendo possível verificar o perfil dos falecidos. "Considerando as convenções sociais da época, é provável que os indivíduos ali sepultados não fossem sócios das instituições religiosas que administravam outros cemitérios existentes em Lajeado, pois para se ter acesso a esses cemitérios era necessário pertencer a uma instituição religiosa e contribuir financeiramente com ela. Assim, há uma alta probabilidade de os mortos serem das classes mais baixas da sociedade, já que suas famílias não teriam condições financeiras para sepultar e manter um sepulcro em cemitérios particulares", analisa ela.

A diplomada acrescenta que quase a metade das mortes registradas foi de bebês de até 11 meses de idade. Em relação ao sexo, a maioria dos óbitos foi registrada em pessoas do sexo masculino. Já em relação à cor da pele, os registros apontam que 42% dos falecidos eram brancos. A principal causa de morte foi falta de assistência, seguida de morte natural, e o ano com maior registro de mortes foi 1917. Confira mais dados no final da matéria.

Gésica também tentou identificar onde o cemitério estudado estaria localizado, pois os atuais cemitérios de Lajeado têm sepultamentos com datas posteriores ao período estudado. "Com a pesquisa, foi possível descobrir que uma área de terras foi comprada pelo município em 1915 e há indicação de que o cemitério seria construído em um local rural no entorno da cidade, onde se localizava a Picada dos Moinhos. Os primeiros registros de sepultamento datam de 1916, um ano após a aquisição da área de terras pela Prefeitura Municipal. Hoje essa região está completamente urbanizada e o terreno do cemitério seria novamente parte do contexto urbano", elucida ela. Apesar de não haver documentos que comprovem a localização, alguns depoimentos indicam que ele estaria situado onde atualmente é a Cohab Moinhos.

"Caso fosse confirmada a hipótese de o primeiro cemitério municipal ter sido construído onde hoje está localizada a Cohab do Bairro Moinhos, o crescimento populacional e a necessidade de casas populares que atendessem as pessoas que se deslocavam para Lajeado em busca de melhores condições de vida e empregos podem ter sido as causas do desaparecimento do cemitério", reflete Gésica.

Fontes de pesquisa

Com a realização da pesquisa, a diplomada constatou dificuldades em encontrar fontes de pesquisa ou ter acesso a elas. "A relação das instituições com a documentação, sejam elas públicas ou privadas, na maioria das vezes não contempla a pesquisa histórica. Por não existir um procedimento padrão em relação à pesquisa e à documentação, fica-se à mercê da boa vontade das pessoas que ocupam cargos públicos ou desempenham funções ligadas aos acervos. O desconhecimento em relação aos cuidados de preservação e armazenamento dos documentos foi outro aspecto percebido durante as andanças pelos serviços públicos com os quais se fez contato durante na pesquisa", avalia ela.

 

Dados dos sepultamentos registrados no livro do Cemitério Municipal no período de 1916 a 1933

Gênero

Masculino: 62%

Feminino: 38%

 

Faixa etária:

Até 11 meses: 45,23%

1 a 5 anos: 16,66%

6 a 10 anos: 3,96%

11 a 20 anos: 7,14%

21 a 30 anos: 6,30%

31 a 50 anos: 4,76%

51 a 70 anos: 3,17%

90 anos ou mais: 1,58%

Sem informação ou ilegível: 3,17%

 

Cor da pele:

Branca: 42,06%

Preta: 13,49%

Mestiça: 24,60%

Não consta: 19,84%

 

Profissão:

Doméstica: 37%

Jornaleiro: 27%

Agente municipal: 12%

Marinheiro: 12%

Alfaiate: 8%

Outros: 4%

 

Causa mortis:

Sem assistência: 16

Morte natural: 10

Doenças pulmonares: 5

Tuberculose: 5

Doença do intestino: 5

Natimortos: 4

Outros: 4

Ignorada: 2

Disenteria: 2

Suicídio: 2

Tifo: 2

Infecções: 1

Vermes: 1

Influenza: 1

Garganta: 1

Sífilis: 1

Fraqueza: 1

Garganta e ouvidos: 1

Crupe: 1

Dispepsia: 1

Meningite: 1

Suterite aguda: 1

Peritonite: 1

Congestão: 1

 

Número de sepultamentos por ano:

1916: 5

1917: 16

1918: 15

1919: 6

1920: 7

1921: 15

1922: 6

1923: 5

1924: 5

1925: 12

1926: 5

1927: 6

1928: 1

1929: 3

1930: 8

1931: 4

1932: 6

1933: 1

 

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