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Séries e programações podem influenciar a vida das pessoas?

"13 Reasons Why" exibida pela Netflix trouxe polêmica ao abordar o suicídio de jovens

Créditos: Carolina Schmidt
- divulgação

Lajeado - A década é marcada pela tecnologia. Rede Sociais, internet ilimitada, canais especiais e programas de televisão à disposição 24 horas. Muitas das séries ou histórias apresentadas nas telas imitam a vida; e, outras vezes, a vida as imita. Algumas pessoas e faixas etárias podem ser influenciadas pela programação. Um dos exemplos que traz polêmica é a série da Netflix 13 Reasons Why (13 Porquês). A produção conta a história da adolescente Hannah, que quando toma a decisão de suicidar-se deixa os motivos gravados em áudio que acabam chegando em várias pessoas consideradas, por ela, como agressores.


Um dos grupos considerados como de maior risco são os adolescentes. Conforme o médico psiquiatra, Fábio Vitória, fatos e programas de televisão relacionados ao suicídio ou sobre morte podem influenciar os jovens, pelo risco da glorificação de tirar a própria vida, identificação com o personagem que cometeu o ato e pela exposição de cenas que mostram os detalhes da situação. Mesmo que a série não traga efeitos negativos para alguns, ele alerta que é preciso ficar de olho naqueles que estão em situação de risco.


Uma das dicas do médico é que os pais tenham um diálogo aberto e franco sobre quais as programações que os filhos assistem, pois a conversa evita a invasão de privacidade e medidas enérgicas e intrusivas. Além disso, os pais também precisam estabelecer limites claros e justos.


"Mães e pais que costumam conversar sobre vários assuntos, sem demonstração de rechaço ou preconceitos por determinados temas - quando acompanham a vida emocional, social e escolar de seus filhos - apresentam maior facilidade para identificar eventuais sinais de quando há algo de errado acontecendo, assim como possuem maior aceitação às suas ofertas de ajuda e de suporte."


Por outro lado, quando não há abertura para o diálogo em casa, a tendência é que os jovens não se comuniquem com os pais e não consigam expressar seus problemas em geral. "Isso leva ao isolamento e à situação de maior vulnerabilidade às ameaças virtuais, como o jogo Baleia Azul, por exemplo." Nos problemas e conflitos vividos pelos adolescentes, é papel do pai e da mãe, além do diálogo, ter afeto, carinho, proximidade e estabilidade no ambiente familiar. "São características indispensáveis para manter os filhos sob os nossos olhares cuidadosos. Acolher os problemas de um adolescente sem julgamentos, apenas com objetivo de entender e ajudar, cria uma relação de confiança e empatia."


De acordo com o médico, em relação aos jovens serem vulneráveis às influências, ele frisa que acontece em função da fase que vivem que é de transição entre a infância e a idade adulta. "É um período marcado por instabilidade emocional, dúvidas a respeito de si e do mundo, imaturidade e impulsividade." Portanto, nesse contexto de transição, o profissional destaca que o grupo exerce papel fundamental. "Sentir-se pertencente a uma turma de iguais é primordial na adolescência e para isso, muitas vezes, alguns jovens se submetem a diversas situações para serem aceitos. Ou seja, a sugestionabilidade é normal na adolescência."


Além disso, ainda existem jovens que merecem atenção aumentada, pois fazem parte de uma população de risco. O psiquiatra observa que eles são suscetíveis a serem influenciados por qualquer pessoa que ofereça um pouco de atenção, mesmo que sejam colocados em risco, e também são mais propensos a atitudes impulsivas e impensadas.

 

Baleia Azul
Outra questão que também causa polêmica e diversos pontos de vista é o jogo Baleia Azul. Quem participa, precisa passar por 50 desafios, sendo que o final, é o suicídio. Os convidados para o jogo são adolescentes. Segundo o médico psiquiatra, tratar sobre o suicídio ainda traz preconceitos e tabus. "E falar em suicídio na adolescência é ainda mais difícil. Mas, a realidade é que, infelizmente, muitos adolescentes atentam contra a própria vida no mundo todo." Para o profissional, é papel da sociedade dar a verdadeira importância ao tema suicídio na adolescência, e não desmerecer ou desqualificar a questão. "Lamentavelmente, acabamos presenciando isso no cotidiano. A cada paródia sobre o jogo da Baleia Azul, que circula pelas redes sociais, maior é minha impressão de como algumas pessoas não levam a sério este problema."


Vitório cita que o jogo é perverso e perigoso, e o acesso deve ser desencorajado. No entanto, na opinião do profissional, não é o culpado dos atuais problemas que são enfrentados com os adolescentes. "É apenas mais um exemplo de como a nossa juventude está vulnerável emocionalmente. É a ponta do iceberg. Denota falhas na educação de nossos jovens. E assim como este jogo, vários já circulam na internet, e, possivelmente, muitos ainda estão por vir. Por isso, é preciso atenção e intervenção multisetorial nas causas que levam adolescentes a submeterem-se a jogos como estes."

 

Dicas para os pais
Algumas medidas podem ser utilizadas para o monitoramento dos adolescentes nos meios virtuais, nas redes sociais, e nos conteúdos assistidos na televisão. Entre elas: evitar que os adolescentes fiquem muito tempo assistindo a programas na televisão, principalmente, durante a madrugada, ou sem consentimento dos pais; ter conhecimento dos conteúdos dos programas favoritos dos jovens; buscar informações sobre a faixa etária adequada para cada programa televisivo, filmes, seriados, etc; avaliar a situação psíquica e emocional do adolescente; limitar o tempo de acesso à internet; pedir aos filhos para ser adicionado nas redes sociais deles, caso os pais não tenham domínio destas plataformas, devem delegar a tarefa para um parente mais próximo que seja da confiança do adolescente; deixar o computador em um local comum e visível da casa; pactuar o livre acesso aos conteúdos visualizados nos telefones dos adolescentes; ao proibir alguma página ou conteúdo de acesso, sempre explique as razões e os perigos inerentes; ensinar os filhos a evitar exposição na internet de informações particulares e pessoais e combinar com os filhos para não adicionar desconhecidos nas redes sociais.

 

O papel da escola
Como um dos motivos do suicídio de Hannah, é o bullying, o psiquiatra chama atenção ao fato de que o papel da escola é fundamental, pois esses problemas têm como palco principal o cenário escolar com as crianças e adolescentes. De acordo com o médico, os educadores precisam receber capacitação técnica do tema para conhecer a realidade das ameaças com os estudantes, as implicações na saúde mental naqueles que sofrem e para ter domínio das melhores formas de intervenção nas situações.


Na 3ª Coordenadoria Regional de Educação há um grupo de trabalho sobre o assunto chamado de Comissão Interna de Prevenção a Acidentes e Violência Escolar (Cipave) desde 2015. Formado por professores, pais, alunos, funcionários e equipe diretiva, o objetivo é cultivar a paz entre o ambiente escolar. Em todas as 90 escolas dos 40 municípios da área de abrangência da CRE existe a comissão. "Ações diversas são realizadas como teatro, música e palestras para prevenir o bullying com temas como a aceitação de gêneros e das raças", explica a assessora pedagógica Isaura Spies Nolibos.


A frequência das atividades varia e pode ser definida pelas instituições. Além das atividades, também é realizada a medição de conflitos. Isaura e a coordenadora da 3ª CRE, Greicy Weschenfelder, estão entre as profissionais que foram capacitadas para exercer esse trabalho.
No entanto, nos casos em que o bullying ultrapassa as fronteiras da escola, a comissão se reúne e aciona a rede de proteção escolar que envolve Brigada Militar, Conselho Tutelar, Promotoria de Justiça e Saúde. "Há casos em que precisamos encaminhar os alunos e envolvidos para essa rede de atendimento, que é parceira da escola". Ao avaliar os trabalhos da Cipave até o momento, Isaura diz que as atividades trazem bons resultados e ajudam a conscientizar os alunos. "Trabalhamos muito para o bem-estar na escola. Cada integrante da comissão se dedica para o melhor resultado." Sobre casos de suicídios entre adolescentes, embora o assunto cause preocupação, ela diz que a coordenadoria não foi informada de casos até o momento. "Esse tema surgiu de uma hora para outra. Também iremos auxiliar caso forem detectadas situações."

 

Saiba mais
No Brasil, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2015, um em cada dez estudantes é vítima frequente de bullying nas escolas com agressões físicas ou psicológicas ou que são excluídos pelos colegas. Conforme a pesquisa, 17,5% disseram sofrer alguma forma de bullying "algumas vezes por mês"; 7,8% são excluídos pelos colegas; 9,3% são alvos de piada; 4,1% recebem ameaças e 3,2% são agredidos fisicamente. Outros 5,3% afirmaram que os colegas pegam e destroem as coisas deles e 7,9% são alvos de rumores maldosos. Com base no estudo, 90% dos entrevistados foram classificados como vítimas frequentes de bullying. Para a pesquisa, que também foi realizada em demais países, foram entrevistados 540 mil estudantes de 15 anos que representam 29 milhões de alunos de 72 países.

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