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Só o rock salva

Neste dia 13, Dia do Rock, rockeiros da região contam como este estilo de música transformou suas vidas

Créditos: Cristiano Duarte
- Lidiane Mallmann


O músico Muddy Waters em certa feita disse que o Blues teve um filho e ele passou a ser chamado de Rock and Roll. Ritmo dos rebeldes e embalo dos apaixonados, o rock and roll não é algo que se aprende na escola. Uma vez tocado pelo estilo, dificilmente o ouvinte esquece. Surgido nos Estados Unidos no fim da década de 1940, mantém-se vivo e acompanha as mudanças e revoluções da sociedade. Músicos e adeptos da região contam como estilo musical transformou suas vidas.

Baquetas de condão

Sentiu uma súbita dor tomar conta do peito. Assim como usava as mãos para agarrar as baquetas para tocar na bateria suas músicas favoritas do Pink Floyd e do Led Zeppelin, José Itamar Horn (68), o Bitti, também as utilizava para a prática de um hobbie que havia adotado para a melhora da saúde: o tênis.
Antes de desmaiar na quadra, depositou a mão sobre o peito. Princípio de infarto. O ano era 2009. Ao despertar, o médico lhe comunicara o diagnóstico. Tratava-se de Mal de Parkinson. Doença degenerativa e sem cura. Aos 59 anos, na época, Bitti deu-se como morto.
"Pensei que minha vida tinha acabado. Passei quase três anos sem querer sair de casa. Sentia que não tinha mais controle sobre minhas mãos, pés e até mesmo no meu queixo", relembra.
Baterista tardio

Foi em 1970, aos 20 anos que a paixão pela percussão foi descoberta por Bitti. Na época, os jovens usavam calças com bocas de sino, camisas com golas pontiagudas e cabelos desgrenhados. As festas eram regadas ao ritmo do Yeah Yeah Yeah dos Beatles, pelo rei Roberto Carlos e com a língua de fora dos Rolling Stones. No verão, as energias também eram gastas no Carnaval. Foi ritmando numa caixa de bateria que a carreira como músico iniciou.
Entusiasmado com a música, Bitti abandonou o emprego em Porto Alegre e voltou para Estrela. Sem demoras, fundou a escola de samba do Rio Branco.
Bastou uma apresentação no Carnaval na terra do chucrute para o talento de Bitti ser reconhecido por músicos que almejavam montar uma banda de rock and roll.
"Quando me convidaram para montar uma banda e disseram que eu seria o baterista, estranhei. Uma coisa era tocar só a caixa, outra era ter de usar os quatro membros ao mesmo tempo para fazer coisas diferentes. Achei que não teria como", diz. Mas ele deu conta. 
O amigo José Clair pegou uma bateria emprestada e montou na casa de Bitti. O tempo livre passou a ser dedicado ao instrumento. Primeiro, começou a tocar na bateria os ritmos mais fáceis: o mambo, o pop e o rock. Até que chegou a bossa nova e o samba.
Por quase 20 anos, tocou bateria em conjuntos musicais que iam do rock and roll, às bandinhas e ao tradicionalismo gaúcho. "Quando a gente decide viver de música, primeiro temos aquele sonho do rock and roll. Mas não demora muito para vermos que o que dá dinheiro como músico é tocar o que o povo quer ouvir nos bailes", conta. 
Com a chegada do filho Felipe Horn (30) em 1989, Bitti foi se afastando dos palcos para dedicar-se à família.
Anjo número 1

Assolado pela depressão, assim que descobrira a doença do Mal de Parkinson, Bitti chegou a pensar até no pior. Não via mais futuro e sentido nas coisas que tanto adorava. Eis que um dia, bate à sua porta um velho amigo: o guitarrista Cristiano Horn.
"Os anjos em nossas vidas não vêm voando do céu ou têm aureolas em suas cabeças. São pessoas comuns que estendem as mãos para os que precisam e transformam suas vidas para melhor", sustenta Bitti.
O companheiro de música, Cristiano Horn, queria arrancar a depressão do corpo de Bitti. Para isso, o primeiro passo era tirar o velho amigo de casa. 
"Ele me convidou para ir num show do David Gilmore, guitarrista do Pink Floyd. Eu disse que mal conseguia parar em pé. Todo meu corpo tremia. Então, o Cristiano disse que eu poderia ver o show sentado. Decidi ir. Aquele espetáculo de música me levantou", conta.
Anjo número 2

O segundo anjo na vida de Bitti foi conhecido por ele foi em março de 2005, num workshop sobre bateria ministrado pelo músico Aquiles Priester, baterista da banda de metal Angra, no Palece Hotel, em Estrela. Com os ingressos comprados por Cristiano Horn, Bitti foi conhecer um de seus grandes ídolos - mal sabia ele que Aquiles estaria prestes a revolucionar sua vida. "O primeiro anjo me levou até o segundo anjo", garante Bitti. 
Ouvindo atentamente a musicalidade do ídolo Aquiles Priester, ao fim da demonstração de suas técnicas o músico abriu perguntas para o público depois de falar sobre a experiência de tocar em shows pelos quatro continentes do planeta.
"Depois que todo mundo fez suas perguntas, levantei meu braço, ainda tremendo pela doença, e disse ao Aquiles que eu já poderia morrer. Afinal, havia conhecido um grande músico, um louco por bateria. Disse a ele que eu era baterista, mas não podia mais tocar em função de minha doença".
O músico Aquiles desceu do palco e vagarosamente caminhou em direção de Bitti para lhe entregar suas baquetas de uso pessoal - as quais José Itamar Horn guarda carinhosamente consigo até hoje. Como se não bastasse, Aquiles pediu ao seu roadie que tirasse uma foto ao lado de Bitti.
No outro dia, o filho de José Itamar, Felipe Horn (30), alerta o pai. "Ele me contou que tinha uma publicação na página do Facebook de Aquiles Priester com minha foto com um texto em minha homenagem dizendo que já havia viajado o mundo todo, mas nunca havia conhecido alguém como eu. Chorei por três dias e três noites de emoção", conta Bitti.
De volta à ativa

Decidiu enxugar as lágrimas e novamente montar sua bateria pinguim fabricada em 1976. Com os pés e as mãos ainda trêmulas pelo Mal de Parkinson, sentou no banco do instrumento, pegou as baquetas dadas pelo ídolo Aquiles Priester e começou a tocar suas canções favoritas de rock and roll.
"Então, percebi que quando toco bateria eu não sinto a doença. Sei que um dia o Mal de Parkinson vai me vencer, mas até lá vou rindo desta doença. Normalmente, esta enfermidade derruba o portador depois dos 15 anos de descoberta da doença. Ou seja, já faz dez anos que tenho Mal de Parkinson. À noite, às vezes, o quadro piora. Mas decidi que vou estar, enquanto posso, sempre um passo à frente do Parkinson".
Hoje, Bitti faz diversos shows pela região com a banda Sputnikis, ao lado de seu primeiro anjo, Cristiano Horn.

 

Um beatlemaníaco 

De cenas comezinhas. O estrelense Déo Moraes (69) estava com 18 anos e fazia a ronda no Exército Brasileiro em Bagé. Fazia um frio de -5ºC na fronteira do Estado. O capacete estava coberto de uma neve fina e ele defendia-se com um pequeno cobertor verde-oliva. 
Escondido dos superiores, estava acompanhado das ondas sonoras de um radinho que levava de um lado para o outro. Nos alto-falantes, Roberto Carlos cantava "120... 150... 200 Km por Hora" sucesso que o rei falava sobre a liberdade de pegar a estrada ouvindo um bom rock and roll e sentir a vida passando.

"Vou sem saber pra onde, nem quando vou parar
Não, não deixo marcas no caminho pra não saber voltar
Às vezes, às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim
Não, não sei por quanto tempo ainda eu vou viver assim
Eu vou, vou voando pela vida"

Cantava baixo com o Roberto Carlos o jovem soldado Moraes. Na lembrança, sozinho e a quase 400 quilômetros de distância da família e de sua banda The Hellions, que montara com os amigos de Estrela, lhe veio à memória o dia em que se tornou roqueiro. 
Tinha apenas 7 anos. Morava em Estrela com a mãe Doralina e o pai Aquiles Moraes, ambos músicos, e no rádio de casa tocava "Louco Amor", de Carlos Gonzaga, lançada em 1958. 
De pronto, ele decidiu que queria fazer aquilo. Músicas com aquele ritmo, que falassem sobre amor, mas tivessem impulso e atitude. O condão do rock and roll bateu em sua cabeça. 
Aos 9 anos inaugurou sua primeira banda. Com autorização de um juiz, o pai Aquiles liberou a estreia do conjunto. No show, ainda crianças, eles tocaram clássicos do Ventures, Shadows e, claro, Beatles.
"Assim que os Beatles chegaram nas rádios, o mundo parou. Eles revolucionaram a música e as pessoas. Depois da Igreja Católica, passaram a ser como uma religião para muitos. E claro, dentre eles, sou um dos fiéis seguidores.
A primeira guitarra foi feita com um braço de violão e improvisada com madeira de um fabricante de móveis. "Lembro de ir de bicicleta de Lajeado a Cruzeiro do Sul com meus amigos, ansioso para ver minha primeira guitarra pronta".
O cheiro dos tijolos

Em seu aniversário de 62 anos, Moraes foi convidado pelos amigos para uma celebração no bar do Adão. Ao chegar lá, uma festa surpresa lhe aguardava. Como se não bastasse, a turma toda arrumara pra ele passagem de ida e volta para Inglaterra, com direito a hostel pago por 21 dias. Seria a oportunidade de Moraes conhecer e ficar próximo de Liverpool, terra dos Beatles. "Jamais esquecerei a experiência que tive. Aquele lugar, o cheiro dos tijolos de Liverpool e a energia que ecoa do chão e passa pelas paredes da cidade", relembra o músico.
Em pouco tempo, ele estava no Abbey Road, estúdio onde os Beatles gravaram seus maiores sucessos. Na famosa esquina da faixa de pedestres onde o quarteto fotografou a capa do disco que homenageava a gravadora, Moraes passou parte da tarde atravessando a rua de um lado ao outro.
"Quando percebi que ninguém estava me olhando, arranquei um pedaço de asfalto daquele lugar e guardei no bolso para relembrar este dia".
Não demorou muito para que o músico estivesse nos palcos de Londres tocando com outros músicos da cidade. "Até fui convidado para morar lá e viver da música. Mas seria uma mudança muito radical. Não sei falar inglês fluente. Porém, admito, o convite mexeu comigo".
Guitarreiro há 60 anos

Chegadas as seis décadas de rock and roll na estrada, hoje, perto dos 70 anos, Déo não quer o silêncio que a idade costuma pedir. Pelo contrário, ele quer barulho. Com sua banda Apple, que é famosa por tocar clássicos dos Beatles e do rock and roll, ele percorre todo o Estado.
"Tocar guitarra, para mim, é um graça de Deus. Sinto que mais do que levar música às pessoas nos shows que faço, eu declaro para elas, por meio das notas, os estágios das emoções que o rock and roll proporciona. Posso tocar 25 vezes a mesma música, ela nunca vai sair igual. O rock proporciona emoção a cada acorde", afirma Moraes.
O músico recebera, recentemente, um convite do prefeito de Liverpool, na Inglaterra, para fazer uma apresentação especial de Beatles na cidade que revelara o quarteto fantástico. "Eu, como fã, nem tenho muito o que dizer. Aqui no interior, em Estrela, estou tendo a oportunidade completar meus 70 anos de vida tocando na cidade da banda que me inspirou e formou minha base emocional na música".
Além disso, ele prepara um tributo especial a Paul Mccartney que deve ser estreado em breve com músicas do ídolo que deverão ser apresentadas pela região e em todo Estado.

 

Forjado pela música

Havia um tempo em que os amantes do rock and roll recorriam às lojas que vendiam discos na busca pelo álbum tão aguardado. Marcelo Petter (49) lembra bem deste período. Passava tardes inteiras passando de um bolachão ao outro na busca pelo som inédito. Ao encontrar a obra tão aguardada, ele pedia uma cópia do disco na fita de k7 que lhe era fornecida pelo atendente. 
Na mochila, Marcelo carregava dezenas de fitas k7 e CD's. Ao encontrar os amigos pelos bares ou nas festas da turma de amigos, fazia questão de colocar para tocar o mais novo som da época. "Era uma mania. Às vezes, eu incomodava. Hoje, como radialista, faço isso sem pedir permissão. Tem coisas que, de fato, merecem ser tocadas e relembradas", brinca. 
A primeira lembrança que tem sobre a musicalidade foi despertada aos cinco anos de idade. Na varanda da casa da vó, ouvia a rádio Alto Taquari, no AM, tocando a canção "Monday, Monday" da banda Mamas and The Papas. Pouco tempo depois, aos 11 anos, a admiração por Michael Jackson que Marcelo nutria era tanta que ele chegou a cogitar encrespar os cabelo para ficar um pouco mais parecido com o ídolo. "Na época, eu era magro e cabeludo. O rei do pop recém havia lançado o Thriler. Ele era um fenômeno", rememora.

Acordes

Foi ao ouvir Led Zeppelin que a vida de Marcelo mudou. Pelos acordes do guitarrista Jimmy Page, viu sua vida transformar-se por um caminho sem volta.
"Tudo que sou hoje, devo ao rock. Eu não seria radialista, não teria feito os amigos que fiz e não teria a dedicação que tenho por conhecer bandas novas e rememorar as antigas como tenho. Devo tudo que sou ao Led Zeppelin", conta.
Em seguida, veio o Pink Floyd, os Rolling Stones, o Bob Dylan e os Beatles. Petter acredita que o rock não só não morreu, como hoje em dia é mais fácil ainda conhecer bandas novas, em função da tecnologia. "Diariamente vou em busca de bandas novas. Tem bandas em Piauí e Alagoas que você pensa que é coisa internacional, mas estão sendo feitas no Brasil. Sempre quando alguém diz que o rock morreu, ele reaparece, dá uma respirada e dá o tom de que irá voltar com força", sustenta.

"A música faz com que as pessoas 
sintam-se parte de tudo"

Para o psicólogo Augusto Faleiro, formado pela Univates, a música ajuda as pessoas a terem um encontro interno consigo mesmas ao criarem no imaginário, a partir dos sons que gostam, cenários em que se sentem confortáveis.

O Informativo do Vale - Como a música age no psicológico?
Augusto Faleiro - A escuta de uma música influencia desde a aprendizagem à memória. Ela relaciona emoções, comportamentos, experiências e cheiros. Esta sinestesia compõe pequenos sentidos que dão grandes sentidos à vida. A música desperta sentido de colocar momentos dentro de canções.

O Informativo do Vale - Em alguns casos, a música ajuda no tratamento de algumas doenças. Músicos com quadros degenerativos apresentam repentinas melhoras ao voltarem a tocar. Por que isso ocorre?
Faleiro - Pelo instrumento que tocam, estas pessoas conseguem despertar no cérebro parte do que formam as suas personalidades. Desta forma, estes músicos conseguem manter a cabeça ativa e exercitar músculos específicos que usaram no decorrer da vida para tocar determinado instrumento. A música se torna parte da vida destes músicos. Ou seja, a música faz com que as pessoas sintam-se parte de tudo.

 



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