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Sobrevivente do jogo Baleia Azul recebe apoio após hospitalização

Família, amigos e escola estão se unindo em rede de proteção à vítima de 15 anos

Créditos: Luísa Schardong
MEDICAÇÃO: a orientação médica é de seguir usando alguns remédios, principalmente para dormir - Luísa Schardong

Estrela - Depois de 12 dias internada no Hospital Estrela, uma menina de 15 anos que foi envolvida no jogo da Baleia Azul pôde voltar para casa na sexta-feira (12). Fragilizada e pesando pouco mais de 30 quilos, a adolescente ainda traz nos braços as marcas de uma das tarefas determinadas pelo curador do jogo.

Já no sábado, sentada no sofá cinza da sala entre a mãe e a irmã mais velha, recebe apoio para se reerguer _ o pai o faz de longe, pois mora na Capital. Abalada, a família aceitou conversar com o jornal O Informativo do Vale para alertar sobre a dura realidade a qual a "brincadeira" pode submeter quem está vulnerável. Muito fraca e sob efeito de medicamentos, a menina falou pouco e baixo.

"A gente olha para os filhos e sente que não falta nada para eles. Para mim, esse jogo nem existia. Ela não quer mais voltar para a escola. Nem sei o que dizer. Tem mil coisas passando na minha cabeça", desabafa a mãe. No rosto, lágrimas e confusão.

"Fui chamada na escola e a diretora disse que estavam preocupados com ela, que ela estava agindo diferente, respondendo aos professores, nervosa, que ela andava usando muito o celular. Como ela é tão novinha e nunca se envolveu com nenhum menino, eu pensava que ela estivesse conversando com algum namoradinho. Nunca imaginei que metida em uma coisa assim."

Desafios
A menina foi atraída para o jogo há aproximadamente um mês e meio. "Ela vinha sofrendo bullying na escola. Diziam que ela era muito magra, chamavam de feia. Acho que isso foi entrando nela e machucando."

Foi nessa época que a adolescente começou a cumprir tarefas que envolviam assistir filmes de terror, não comer nem conversar _ se isolou. "Ela ia a pé para a escola, não queria pegar o ônibus. Mandaram ela se cortar com o fio do apontador. Os cortes eram fundos, mas não deixou muita cicatriz nos braços."

A irmã da adolescente percebeu as marcas. "E ela ficava noite e dia no telefone, nem ajudava mais em casa. Um dia eu estava na cama e ela apareceu com uma faquinha, dizendo que ia me matar. Eu chamei a mãe, mas ninguém levou a sério. Só que aí eu tive certeza de que ela estava nesse jogo", conta. "Depois, soube que ela estava se despedindo das amigas e deixando coisas de ouro com elas, tipo uma partilha de bens. Ela ia se matar."

Descoberta
O suicídio tinha sido marcado: seria no dia 29 de abril, um sábado. Um dia antes, uma amiga da família procurou a mãe da menina para contar o que soube pela filha. "Como mãe que também passava por um momento difícil, ela veio até mim e me disse a verdade do que estava acontecendo. Ela falou que minha filha tinha confessado pra filha dela que estava no jogo da Baleia Azul, que tinham entrado na mente dela e que ela ia continuar cumprindo as ordens que recebia."

A adolescente estava determinada a partir para o último desafio. "Ela ia sair no sábado de manhã para se jogar de uma passarela ou de um prédio, tudo a pedido deles. Eu agi antes e procurei o Conselho Tutelar."

Hospitalização
Orientada pelo Conselho, a mãe não saiu mais de perto da menina e procurou um psiquiatra em um posto de saúde. "Ela respondia atravessado para o médico e não estava falando coisa com coisa. Dizia que precisava cumprir as tarefas e que não podia sair do jogo, que queria se matar. A mente dela estava muito confusa. Ele acha que ela estava depressiva antes de entrar no jogo."

A menina foi internada no Hospital Estrela no início do mês. Sua irmã lembra como foi o período. "Ela repetia que mandaram ela matar alguém da família, mas que não conseguiria matar a nossa mãe. Dizia que precisava ser eu. Uma noite ela acordou muito assustada achando que tinha gente do jogo atrás dela e que estavam vendo o que ela estava fazendo. Sentia medo por mim e por ela."

Sociedade
O que dói na família é ouvir e ler os comentários em redes sociais. "As pessoas dizem que é falta de surra. Dizem que entra quem quer, mas estão enganados. Só posso dizer que aconselhem seus filhos a não entrarem nesse jogo, fiquem muito perto deles. Essas pessoas fazem uma manipulação muito forte. Agora ela não vai entrar mais nesse tipo de coisa. Tiramos todos os acessos dela até curar", diz a irmã.

Uma vizinha próxima que acompanhou a conversa disse que também não deu atenção ao jogo, de início. "Agora estamos alertando a vizinhança para que fiquem de olho. Às vezes, as pessoas são insensíveis", comenta.

Recomeço
A adolescente apagou as informações do grupo com quem mantinha contato antes de deixar de usar o celular. Era por ali que ela recebia orientações e enviava fotos comprovando o cumprimento das tarefas.

Segundo ela, quatro colegas ainda participam dos desafios. Ela relatou para a família que o curador do jogo se identifica com um nome e foto de uma adolescente de 14 anos, mas ninguém sabe dizer se se trata de um perfil verdadeiro. "Minha vizinha tentou entrar nesse grupo pra descobrir quem é por trás disso. Mas ela não foi aceita. Eles escolhem a dedo quem participa", conta a mãe.

"Fizemos pão com salsichão pra comemorar a volta dela pra casa, só que ela acabou pegando no sono. O remédio é muito forte. Agora, quero que ela se ajude e comece a comer de novo, ganhe peso."

O tratamento psicológico começa hoje no Centro de Atenção Psicossocial (Caps). A irmã da menina também está otimista. "Hoje, graças a Deus, ela está se recuperando. Está com 31 quilos. Chegou a pesar 20 e poucos. Agora está se resolvendo. Vai dar tudo certo."

Tratamento e rede de proteção
A Secretaria de Educação de Estrela (Smed) explica que acompanha o caso e presta suporte para a família e mantém projetos permanentes nas escolas para tratar esse tipo de questão e seus desdobramentos. Responsável pela pasta, Marcelo Mallmann destaca, entre eles, o Programa Escola da Inteligência, trabalhado com pais, professores e alunos. "É de forma conjunta e integrada para desenvolver a educação socioemocional no ambiente escolar", explica.

Outra iniciativa, implantada em 2014, é o Programa Saúde na Escola (PSE), que objetiva promover a cultura da paz. Com um grupo composto por profissionais das áreas da saúde, assistência social e educação, também garante apoio aos professores, alunos e familiares em ações preventivas e, quando necessário, no acompanhamento das situações traumáticas - caso dessa adolescente.

Mallmann destaca que a escola e a família da menina já estavam em contato antes do envolvimento com o jogo. "Os professores estranharam as mudanças no comportamento dela e se reuniram com a mãe. Mais tarde, quando perceberam os cortes, foi indicado um tratamento psicológico e, novamente, a família teve conversas com a escola."

Quando se confirmou o envolvimento da aluna no jogo, toda a rede de proteção foi acionada para dar apoio. "Além disso, a equipe diretiva da escola manteve contato permanente com eles, dando todo o suporte necessário." A mãe confirma.

Próximos passos
Segundo a coordenadora de Saúde Mental de Estrela, Mariana Mazzarino, a escola, a Smed, o posto de saúde que realizou o primeiro acolhimento à adolescente, o Conselho Tutelar e o Caps se reunião após a consulta psiquiátrica da menina. O objetivo é clarear as informações sobre a avaliação psicológica e definir papeis, a fim de que a rede de serviços e profissionais defina a corresponsabilização do cuidado à adolescente e à família.

Mariana destaca que maio é o mês previsto no cronograma para trabalhar saúde mental nos colégios. "Autoestima, bullyng, sintomas depressivos, uso indevido de álcool e outras drogas - são todos temas transversais que permeiam a questão. Também falamos com os pais sobre a importância do diálogo e do acompanhamento das conversas e relações virtuais e do cotidiano dos filhos", explica.

Ela está em contato com a 16ª Coordenadoria Regional de Saúde (16ª CRS), que está a par do caso e pretende intensificar alertas. Uma reunião regional está prevista para o dia sete de junho. O objetivo é capacitar profissionais e debater sobre desafios virtuais, bem como traçar estratégias coletivas de combate à automutilação, para a promoção da saúde dos adolescentes e seu envolvimento em práticas não saudáveis, como o jogo da Baleia Azul.

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