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Sol, calor e... muito trabalho sob as altas temperaturas do verão

Na época mais quente do ano, alguns profissionais sofrem mais para exercer suas atividades. São os que, invariavelmente, terão que enfrentar o sol e o calor

Créditos: Ana Caroline Kautzmann
TRABALHADOR: João Carlos Motta (43), trabalha há 20 anos como pedreiro - Ana Kautzmann

Lajeado - Os termômetros registravam, ontem à tarde, 32ºC em Lajeado. Para quem desfruta de um ambiente de trabalho climatizado, o sol forte não se torna um problema. Com índice ultravioleta (UV) - que mede a intensidade da radiação que é relevante aos efeitos sobre a pele humana - em 6,1, o que é considerado alto, muitos profissionais sofrem com a exposição ao sol forte e calor, situações que podem acarretar em problemas futuros para a saúde.

Entre os trabalhadores mais atingidos pelo sol estão pessoas que atuam com manutenção de vias, construção civil, agricultura, comércio na rua, carteiros e outros. Mas, não só o sol e seu calor atrapalham. O auxiliar de serviços em uma padaria, Guilherme Scheibel trabalha há dois anos e meio na área e afirma que as botinas, aventais e tocas características da profissão, aumentam a temperatura vinda dos fornos. "No verão é muito calor, com o forno ligado a temperatura chega a 40ºC e como não há ventilação a sensação de abafamento é ainda maior", conta. Sem ter muito o que fazer, Scheibel explica que a pior hora é quando os pães e cucas ficam prontos, pelas 6h. Todo este excesso de calor, no entanto, ainda não chegou a fazer com que alguém passasse mal. "Ninguém chegou a passar mal, mas com essa temperatura elevada, acaba gerando muito mais cansaço e indisposição", explica.

Já o pedreiro João Carlos Motta (46) trabalha, atualmente, em uma obra no Bairro Montanha e está há 20 anos na profissão. Ele conta que, para aguentar o calor, a ingestão de água e os intervalos ajudam. "Para ajudar só com muita água e fazendo intervalo de manhã e à tarde, já que iniciamos o trabalho às 7h, paramos às 12h e iniciamos novamente às 13h, seguindo até as 18h. É complicado, mas tem que aguentar", conta. Mesmo sabendo dos riscos da exposição excessiva ao sol, Motta afirma que não usa protetor solar e que nunca foi a um dermatologista. "Eu me preocupo com o sol, mas é complicado pra gente usar protetor porque suamos e acaba saindo, mas sempre uso boné. Eu nunca fui no médico, porque geralmente quando a gente vai é porque já tem alguma coisa", comenta.

Exposição gera perigos à saúde

Para quem se expõem ao sol e calor, as consequências podem ser maiores do que apenas cansaço. O médico do Espaço AIS da Unimed VTRP, especialista em Medicina de Família e Comunidade, Marcelo Reckziegel, aponta os riscos da exposição excessiva. "Os principais riscos para as pessoas que trabalham expostas ao sol são as queimaduras de pele, que sem a proteção adequada, podem ser severas e, se houver exposição prolongada, resultar inclusive em câncer de pele", explica.

Em ambientes muito quentes, Reckziegel aponta que existem outro dois riscos à saúde: a desidratação e a insolação. "A insolação é caracterizada por sintomas de tontura e mal-estar, e assim como a desidratação, pode ocasionar em desmaios e quedas", atenta. Nestes casos, o médico aconselha que diante do aparecimento de algum sintoma, o recomendando é realizar uma parada e sair de situações de risco, como por exemplo trabalhadores que utilizam andaimes. Em seguida, deve-se procurar auxílio médico caso seja necessário.

A desidratação ocorre diante a perda excessiva de sais mineiras por meio da transpiração. "Quando não há ingestão de água e líquidos nestas situações hostis, o corpo não consegue repor estes sais minerais. Assim, tontura e os desmaios se tornam presentes e perigosos e estas situações são mais frequentes em ambientes quentes e abafados", alerta.

Aos trabalhadores que exercem atividades em locais climatizados e saem com frequência para ambientes quentes, incômodos também podem surgir, como por exemplo desconfortos nas vias respiratórias, irritação na garganta e na mucosa nasal e piora nos quadros de quem sofre com rinite e sinusite. "Esses desconfortos atingem principalmente quem trabalha em local com climatização de ar, que fica suscetível a estes choques térmicos. Além destes desconfortos, também pode ocorrer uma paralisia facial, em que o choque térmico no rosto afeta o nervo facial. Esta paralisia pode durar alguns dias, e precisa de atenção", comenta.

Câncer de pele é o grande vilão

As doenças de pele, como o câncer, se tornam grandes vilãs para quem não se protege do sol. Reckziegel alerta para a gravidade. "Na exposição ao sol, notadamente o melanoma maligno e o carcinoma basocelular, são os mais frequentes. É comum também observar o envelhecimento e ressecamento da pele em quem fica nestas situações de risco. Tudo isso mostra que a exposição ao sol é algo sério, e precisa de muita atenção e cuidado. Seja no presente, com os sintomas imediatos, seja no futuro, com doenças e complicações."

Para se prevenir, o médico dá dicas de como se manter longe dos problemas ocasionados pelo sol. "O ideal, para toda população é evitar a exposição ao sol entre 10h e 16h. Se não for possível, deve-se usar roupa comprida, que proteja a pele, chapéu de abas largas e protetor solar fator 60. Importante ressaltar que o protetor deve ser passado várias vezes ao dia. Nestas situações hostis, de sol e calor, a hidratação é fundamental. Se um ser humano precisa normalmente beber dois litros de água por dia, exposto ao sol deve beber pelo menos quatro litros", reforça.

O que diz a legislação
A situação de trabalhadores expostos à altas temperaturas gera dúvidas quanto a direitos que poderiam ter perante a lei, como pagamento de insalubridade - quando o trabalhador está em contato permanente com agentes nocivos à saúde durante o trabalho. A doutora em Direito com ênfase em processo do trabalho, Fernanda Pinheiro Brod, explica que não existe um pagamento de adicional em virtude da exposição a radiações solares para trabalhadores nestas condições. "O que existe é uma previsão deste adicional para trabalhos sob altas temperaturas, seja em ambiente fechado ou aberto. Então na prática é necessário realizar uma medição do índice de calor no local de trabalho (o que, segunda a Norma Regulamentadora n. 15 do Ministério do Trabalho é medido em IBUTG - Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo). Se ultrapassar os limites de tolerância previstos na NR-15 (que varia conforme o tempo de exposição ao calor e os períodos de descanso) é devido o adicional de insalubridade em grau médio", afirma.

Para a advogada, o ideal neste caso seria que o Poder Legislativo regulamentasse os adicionais e já executasse a previsão para os trabalhadores expostos a radiações solares e a outras condições climáticas. "Eles não fariam nada além de colocar em prática um direito constitucionalmente previsto desde 1988", finaliza.

O advogado especialista em processo do trabalho, Alencar Wissmann Alves e a advogada especialista em Direito Previdenciário e Processo Civil, Ana Raquel Alves, explicam que existem normas a serem seguidas pelos contratantes aos trabalhadores. "Nos trabalhos realizados a céu aberto, é obrigatória a existência de abrigos capazes de proteger os trabalhadores contra intempéries e também são exigidas medidas especiais que protejam os trabalhadores contra a insolação excessiva, o calor, o frio, a umidade e os ventos inconvenientes, tais como o fornecimento de protetor solar, chapéus, óculos de sol, roupa adequada para proteção solar e conforto térmico, água potável e local para pausa e abrigo para descanso sendo que também é obrigatório o fornecimento de banheiro adequado, ainda que seja um banheiro químico móvel", explicam.

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