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Tafu: histórias de um FeNeMê

Folclórico em Lajeado, Adão da Rosa, o Tafu, era conhecido por imitar com perfeição um caminhão FeNeMê e por circular pelas ruas da cidade entre 1960 até 1978, quando morreu de causas naturais. Personagens da cidade reme

Créditos: Cristiano Duarte
- Divulgação

De sopetão, ouvia-se o estrondo de buzina de caminhão FeNeMê 1958 em alto e bom som. Em seguida, o barulho do freio e da aceleração pareciam que a qualquer momento invadiriam a calçada da esquina da Rua Marechal Deodoro com a Júlio de Castilhos.
Com a perfeição do estampido do motor reproduzido, era quase que possível sentir o cheiro de diesel queimando.
Poucos transeuntes se assustavam com aquele alvoroço, pois sabiam que não se tratava de um veículo - mas sim de Adão da Rosa, o Tafu. 
"Ele imitava um caminhão com perfeição. Era como se Tafu fosse um FeNeMê e as outras pessoas fossem veículos transitando pela cidade. Para virar à esquerda, ele fazia barulho de redução de câmbio, freio e girava a cabeça e o corpo para acompanhar o movimento", rememora o aposentado Roque Lopes (77).
Os lábios espessos e a energia exuberante que lhe eram característicos faziam com que o barulho de caminhão fosse ouvido a mais de 40 metros.
"Em certa feita, Tafu estava na beira do rio em Estrela e precisava atravessar de barca para Lajeado. Esperto, ele começou a imitar o freio do caminhão, o motor e a buzina. O barqueiro que se encontrava sem serviço naquela noite foi atender o chamado e ao invés de um veículo encontrou Tafu rindo", conta o empresário Luis Dexheimer (60).

Apelidos

Data-se que Tafu é nascido no início do século passado. Natural de São Miguel, em Cruzeiro do Sul, ele era considerado exótico pela comunidade. Por ser negro e albino, o cabelo pixaim branco reluzia por onde passava enquanto imitava um caminhão ou enquanto carregava um violão surrado com duas ou três cordas. A mistura de cores que lhe eram características lhe trouxeram um apelido extra para além do Tafu: nego-aço. 
"Os apelidos de Tafu têm uma razão de ser. Tafu é uma bebida feita de feijão. E 'Nego-aço' vem de sua origem africana com o fato de ser albino", explica o professor, historiador, jornalista e escritor José Alfredo Schierholt (84).
Em sua memória, o historiador rememora Tafu logo quando veio morar em 1971. Schierholt havia largado a vida de padre para encarar os desafios da nova profissão em Lajeado. De pronto, logo encontrou o andarilho Tafu pelas ruas.
"Me chamava a atenção o fato de ele ser tão benquisto por todos. Tafu nunca pediu ajuda para ninguém e ao mesmo tempo nunca lhe faltara alimento e roupa. Ninguém falava mal dele ou lhe negava ajuda enquanto tinha condições de estender a mão a ele. Percebe-se que as classes mais pobres são mais solidárias, nestes casos, do que a classe rica, os cidadãos de bem", conta Schierholt.

Pão francês

Era na padaria do antigo mercado Dresch, na Júlio de Castilhos, no Centro de Lajeado, que Tafu recorria ao empresário Flávio Dresch (77) em busca de alimento e um café. Na época, os fornos elétricos ainda eram obras em rascunho. Os pães eram feitos num enorme forno à lenha feito de tijolos.
"No inverno, nos dias frios, lembro que o Tafu ia para os fundos do supermercado onde tinha o forno funcionando o dia todo. O calor para fazer os pães não descansavam nos tijolos onde Tafu dormia bem próximo para se afugentar do gelo da noite", relembra Flávio.
Pela manhã, a família Dresch despertava Tafu com um pão francês de 500 gramas e uma caneca de alumínio com café com leite.
"Não fazia mal pra ninguém. A gente ajudava ele porque sabia que ele tinha necessidades. Não tinha nenhum familiar na cidade e tinha também suas limitações", conta Flávio.
Por ser albino, os olhos de Tafu se mostravam frágeis em dias de sol forte. Ele defendia-se dos raios ultravioletas fechando os olhos e esguiando a cabeça de um lado para o outro.
"Ele não era de reclamar. De poucas palavras, Tafu nunca perdia o humor que lhe era característico."

Cenas comezinhas 

Na década de 1960, o Centro de Lajeado ficava todo nas imediações da atual Casa de Cultura, onde na época era a prefeitura. A comunidade frequentava a missa, no fórum (hoje, no prédio da Brigada Militar) ou jogava papo fora na Urso Branco, tradicional cafeteria nas imediações da Praça da Matriz. Este era o cenário em que Tafu circundava.
"Um dia resolvi perguntar para ele: Tafu, me diga o que é bom e o que é ruim. Sem pestanejar ele me disse: bom é ter amigos como todos vocês e ruim é esta gente boçal e de nariz empinado em Lajeado", lembra o empresário Rogério Kappler (82).
Naquela época, Kappler morava próximo da Praça do Chafariz, onde dividia uma república com Juca Mallmann, Antônio Crist, Valmir Petter, Darci Kroth e Itavor Nummer.
"Quando ele morreu em novembro de 1978, nossa turma chegou a dar um aporte para o seu funeral. Ele era uma pessoa divertida. Muito seguido levávamos para almoçar ou jantar conosco no antigo restaurante Caiçara".

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