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Tal mãe, tal filho

Conheça a história de três pessoas do Vale do Taquari que decidiram seguir a mesma vocação que suas mães

Créditos: Cristiano Duarte
TRABALHO: os advogados Magda e Henrique Gravina compartilham as experiências jurídicas no escritório em Lajeado - Lidiane Mallmann

Vale do Taquari - Os superpoderes de uma mãe são muitos. Da visão de raio-x que detecta o estado de saúde de seu bebê, a superaudição que consegue ouvir o pedido de socorro do filho, independente da idade, a milhares de quilômetros de distância, e o superamor, que é incondicional e eterno. De tanto afeto, elas imprimem a inspiração de suas vocações no DNA de seus rebentos. Seguindo as profissões das mães, conheça a história de três pessoas da região que encontraram o sucesso em suas carreiras. 

O décimo lema

Na parede do escritório de Magda Gravina (60), em Lajeado, um quadro estampa "Os 10 mandamentos do advogado". Em voz alta, ela faz questão de recitar o décimo lema ao filho Henrique Gravina (35).

"Trata de conceber a advocacia de tal maneira que no dia em que teu filho te pedir conselhos sobre seu destino ou futuro, consideres uma honra para ti propor-lhe que se faça advogado".

E assim foi. Dos quatro filhos de Magda, Henrique decidiu trilhar o caminho jurídico com a mãe. Quando era ainda bebê, depois de lecionar Direito na Univates, Magda ajeitava um cobertorzinho no chão de seu escritório de advocacia para Henrique. Enquanto ele se divertia com seus jipes de brinquedo, Magda escrevia processos para seus clientes até mais tarde. Por vezes, passava da meia-noite quando a família saía da repartição para o descanso de casa.

"Frequento escritórios de advocacia desde pequeno. Inevitavelmente acabei convivendo com área do Direito. Sempre vi minha mãe muito realizada com sua profissão. Foi isso que me influenciou a seguir o mesmo caminho que ela", revela Henrique.
Hoje, sócio do escritório junto com sua mãe, o advogado Henrique esbanja talento em audiências. O que aprendeu com sua mãe, foi aprimorado pelo seu jeito diplomático de advogar.

"Sou conhecida por ser uma advogada braba. Já meu filho é muito calmo. Muitos juízes me procuram para elogiar a condução objetiva que Henrique dá nas audiências. Fico muito orgulhosa de ter ele ao meu lado e ver ele crescendo todos os dias", conta Magda.

Portas abertas

No escritório de Henrique e Magda as portas são mantidas sempre abertas entre os seis colegas. Em caso de dúvida, um advogado recorre ao outro para esclarecer o melhor procedimento que pode ser feito ao cliente.

"Hoje em dia eu aprendo mais com meu filho do que ele comigo. Claro, quando ele começou a trabalhar conosco, em 2006, e ainda era estagiário, ele aprendia mais com a gente. Mas hoje em dia ele estudou tanto e agregou outros conhecimentos a ponto que todos nós aprendemos com o Henrique diariamente", orgulha-se a mãe Magda.

À moda antiga e advogada desde 1981, Magda chama o filho constantemente em sua sala no escritório quando pairam dúvidas sobre o mundo digital. As pilhas e mais pilhas de processos em papel têm sido substituídas por pendrives que carregam centenas de documentos, e as rúbricas que os advogados tanto ensaiavam nas faculdades foram trocadas por códigos de barras ao fim de petições. "Nós, que somos advogados mais velhos, ainda estamos nos adaptando às novas tecnologias. Para meu filho, isso tudo é muito natural. Aqueles processos todos que eu carregava para cima e para baixo agora guardo no bolso. Precisamos nos adaptar a este novo mundo e, nesse sentido, ter Henrique ao meu lado tem me ajudado muito", conta Magda.

Mãe é mãe

Henrique não nega que embora sua mãe seja sua sócia, o tratamento entre eles é diferenciado dos demais no escritório. "A minha mãe sempre será minha mãe. Por mais que estejamos no escritório com outros colegas, é um negócio entre mãe e filho. A família supera qualquer outra imposição que alguém queira colocar", diz Henrique.

Ter o filho por perto, para Magda, é como se fosse uma bênção diária. Por mais que, às vezes, na correria do dia a dia o convívio passe despercebido, a advogada sabe o quão agraciada é por ter Henrique por perto. "Tem filhos que visitam pouco suas mães. Em função de suas atividades, passam um mês inteiro sem se abraçarem. Eu posso fazer isso todos os dias. Sou muito grata por isso".

E ao que tudo indica, o neto Arthur Gravina (13), Magda também teve impresso em seu DNA o juridiquês da família. "Há uns cinco anos perguntamos a ele o que seria quando crescesse. Prontamente, o Arthur respondeu 'advogado e jipeiro igual meu papai Henrique", conta Magda.

Os livros de Letícia

Pelo tapete do quarto onde morava com os pais num apartamento do Bairro Florestal, Letícia Rossner (26) debruçava-se sobre os livros de anatomia que sua mãe Adriana Calvi (46) usava na faculdade de Enfermagem. O que não era comum para uma menina de seis anos, servia como presente de aniversário a pedido dela.

Na escola, quando um coleguinha esfolava o joelho ao cair depois de uma brincadeira, lá estava Letícia pronta para socorrê-lo. Pois assim como sua mãe, desde muito pequena, Letícia sabia o que queria para a sua vida: ajudar a salvar vidas. "Sempre tive afinidade para lidar com estas coisas. Nunca tive medo, pois ser enfermeira exige coragem", conta.

Mãe e filha trabalham no Hospital Bruno Born. Adriana é enfermeira coordenadora da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) adulto, Letícia é técnica de enfermagem, auxiliar de anestesia no bloco cirúrgico. Pelos corredores do hospital, elas compartilham a paixão pela profissão desde 2012, quando Letícia iniciou a carreira como recepcionista no HBB. Desde então, passou por diversos setores da instituição.

Vocação

Por ter iniciado carreira no hospital antes de formar-se em Enfermagem, Adriane acredita que a filha terá uma brilhante carreira no HBB. Já formada no curso Técnico de Enfermagem desde 2014, Letícia iniciará a faculdade em breve. A experiência de quase 11 anos no hospital faz com que Adriane saiba perceber a vocação de uma enfermeira assim que adentra na instituição.

"A Letícia está acostumada com a rotina do hospital. Na faculdade de Enfermagem, os alunos lidam com bonecos durante as simulações. Aqui no hospital são vidas. E ela tem demonstrado comprometimento e amor pela profissão", exalta Adriane.

Ao chegar em casa depois de um dia de trabalho no HBB, por vezes Letícia sente-se como se estivesse carregando uma mochila de 20 quilos em suas costas. A rotina no hospital em busca de salvar vidas pesa, pois nem sempre a cura de um paciente se concretiza.

"Nenhuma pessoa chega no hospital por estar gostando da situação. Isso só acontece com mulheres que estão prestes a ganhar um filho. Senão, as pessoas estão angustiadas e acometidas por alguma doença. Fazemos tudo que está ao nosso alcance para que elas saiam do hospital e vivam tudo que tenham de melhor para viver com quem amam. Mas nem sempre isso acontece. Faz parte do dia a dia", conta Letícia.

Sempre orgulhosa ao dizer aos colegas que ainda não sabem que é filha de Adriane, Letícia depara-se com a surpresa e admiração que têm por sua mãe. Referência no HBB no setor de enfermagem, Adriane é a maior inspiração profissional de Letícia.

"Tem gente que não acredita que sou filha dela e fica espantada quando eu conto. Sinto uma grande responsabilidade em ter uma mãe tão respeitada na profissão. Ela é meu maior exemplo em tudo. Às vezes, fico olhando ela conversando com um familiar de alguém internado no hospital em desespero. Minha mãe tem uma habilidade tão grande em lidar com essas pessoas. Me esforço todos os dias para ser que nem ela", diz.

A eterna professora

Andresa Marquetto (41) mal imaginava, em 1983, na terceira série da Escola Estadual Hugo Oscar Spohr, em Canudos do Vale, que um dia ocuparia o mesmo lugar da professora Cladi Marquetto (76), sua mãe, na instituição.

Por ser filha da professora que fazia as provas decisivas naquele final de ano, aos 9 anos Andresa pediu que sua mãe lhe mostrasse um pouco do que seria aplicado no exame. "Ela sempre foi muito profissional. Mandou que eu estudasse e tirasse a melhor nota possível. Nunca tive algum tipo de privilégio enquanto aluna por ser filha de minha professora", relembra Andresa.

Passados 20 anos, em 2002, Andresa realizava o concurso público para ser professora na mesma escola onde sua mãe foi educadora durante 17 anos. Havia apenas uma vaga para o cargo na escola. Sem titubear, ela leu todos os livros exigidos no edital e adentrou madrugadas debruçada sobre tudo que sabia que poderia cair no certame. Para surpresa de sua mãe Cladi, logo veio o resultado: Andresa foi aprovada em primeiro lugar e passou, desde então, a lecionar na Escola Hugo Oscar Spohr.

"Fui a primeira a ver que a Andresa tinha sido aprovada. Falei: 'tu nem imagina o que aconteceu. Tenho uma notícia para te dar'. Assim que soube que havia sido aprovada, minha filha já se mudou para Canudos do Vale para ficar perto de mim", rememora Cladi.

Enquanto caminha ao lado da mãe pela escola que ambas educaram centenas de profissionais da região, Andresa conta o legado de Cladi em sua formação.
"Ela é meu tudo. Minha maior inspiração e a melhor professora do mundo. Fiz questão de ser professora na mesma escola onde minha mãe reinou por quase duas décadas e poder ficar pertinho dela".

Evidências

Andresa nunca imaginou-se professora. Cursando a faculdade de História, foi quando teve a primeira experiência de ensino numa escola de Educação Infantil que sua vida mudou. "Sempre digo que a profissão que me escolheu. Eu achava um absurdo a quantidade de trabalho que minha mãe tinha em casa. Mas sempre a vi fazendo tudo com muito zelo, porque realmente gostava do que fazia. Hoje, na mesma posição que ela na escola, compreendo bem. Ser professora sempre esteve no meu sangue. Ir contra isso seria negar algo que já era certo".

Por ter perfil mais agitado que a calmaria da mãe, diariamente Andresa busca na mãe o exemplo a seguir para ser uma melhor educadora. "Se eu tiver um dia 10% da capacidade de comunicação que minha mãe tem, já serei uma pessoa melhor", conta.

Ainda na infância da filha, Cladi não conseguia perceber nitidamente que um dia Andresa também seria professora. O mais próximo que chegava desta constatação era o gosto que a menina demonstrava pela leitura. Assim que terminava um livro, fazia questão de convidar toda família para contar tudo que aprendera com a obra.

"Não há uma palavra ou um preço que pague ver uma filha seguindo a mesma profissão que você. Estou muito feliz com a escolha dela. Sempre abri um leque de possibilidades para que ela seguisse o sonho que quisesse e ela escolheu o mesmo que o meu. Hoje sou eu que aprendo com esta grande professora", conta orgulhosa Cladi.

"A educação se dá pelo exemplo"

Para a psicóloga Carine Duarte, filhos costumam seguir a mesma vocação profissional das mães ao perceberam a realização delas com o trabalho ao mesmo tempo em que elas dedicam-se à profissão e aos filhos com afeto.

O Informativo do Vale - Quais são os principais motivos que fazem com que filhos sigam os mesmos rumos profissionais que suas mães?
Carine Duarte - Normalmente são questões ligadas ao ambiente e à convivência. Quando eles percebem a satisfação no fazer de suas mães passam a admirar o cotidiano delas. Os filhos começam a ver que apesar de todas as dificuldades que as mães enfrentam no dia a dia, nunca lhes falta afeto e amor. Uma mãe mantém-se ao lado do filho e é responsável por lhes ensinar princípios, valores e crenças. A educação se dá pelo exemplo. Estas mães que servem de referência profissional para os filhos podem ter passado por dificuldades ao longo do dia, mas no encontro com os filhos dedicavam um tempo de qualidade com carinho e atenção.

O Informativo do Vale - No que se refere à evolução profissional, há riscos de um filho limitar-se apenas ao que foi feito pela mãe e não desenvolver sua própria carreira?
Carine Duarte - Os filhos devem entender que não são uma sombra de suas mães. É preciso que construam com a mãe. Além disso, é necessário que se criem estratégias de diferenciação. Os filhos precisam (não devem) refletir o que podem agregar em seu trabalho e o que podem contribuir no ramo profissional que escolheram. As mães são referência profissional e ajudam a construir com leveza a carreira de seus filhos pela experiência e sabedoria que adquiriram ao longo de suas vidas. Filhos seguem a carreira das mães pela admiração que têm por elas.

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