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Tijolo a tijolo, a promessa de futuro

Apenados do Presídio Estadual de Lajeado participam de curso do Senai visando nova vida

Créditos: Caroline Garske
Instalação hidráulica: alunos aprendem a realizar pequenos reparos, instalação de vasos e caixas d?água, além da parte de esgoto e pluvial - Lidiane Mallmann

Lajeado - Fazer um curso profissionalizante e, por tabela, conseguir um emprego é algo usual para muitas pessoas. No entanto, para aqueles que estão privados de liberdade e da convivência com a sociedade, isso pode significar o início de uma nova vida. "Nós estamos aprendendo muito, como montar caixa d'água e fazer rosca em cano, além de poder usar o material mais vezes. Eu já participei do curso de pedreiro, e esse aqui está sendo bem produtivo, até pra gente usar na rua, porque é bem procurado", conta o apenado de 35 anos, referindo-se ao curso de Instalador Hidráulico Predial, que está sendo ministrado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) no Presídio Estadual de Lajeado. Desde 2010, foram 17 cursos, como construção em alvenaria/pedreiro, pintor, auxiliar de cozinha, eletricista e azulejista, com certificação de 233 detentos.

Segundo o gerente de operações do Senai Lajeado, Jerry Hibner, o curso é uma parceria com a Prefeitura de Lajeado, por meio da Secretaria de Indústria e Comércio, que disponibiliza os recursos, sendo o Senai a instituição executora. "Qualificamos e/ou requalificamos para que tenham outras perspectivas e oportunidades após saírem da reclusão, e assim poderem trilhar novos caminhos, através dos cursos profissionalizantes do Senai Lajeado."

O técnico em edificações e professor do curso de Instalador Hidráulico e Predial, Emanuel Godoy, explica que a capacitação tem duração de 60 horas aulas e objetivo de proporcionar noção básica de pequenos reparos, instalação de vasos e de caixas d'água, além da parte de esgoto e pluvial, que conta com o aproveitamento da água da chuva. "É prática agregada à teoria. Estamos instalando uma pia e o esgoto, vamos fazer também a do vaso e de chuveiro. Depois, eles podem trabalhar com pequenos reparos, desde vazamento até instalação de vasos e caixas d'agua", explica Godoy, que também ministrou o curso de Pedreiro Básico no ano passado.

 

Obras no albergue

Os detentos capacitados pelos cursos do Senai Lajeado já começam a praticar na própria casa prisional. Eles fazem os ajustes no prédio do albergue, que abriga os do semiaberto. Um deles tem 34 anos, cumpre pena no regime fechado e trabalha na construção do muro que dá para a Avenida Benjamin Constant. Entre um tijolo e outro, explica que já fez a capacitação de pedreiro e, agora, está no de instalação hidráulica. "Nós fizemos o curso de alvenaria. Nós somos do fechado, a partir do curso, descemos para a obra. Aprendi muita coisa, também nesse de hidráulica", declara. O outro detento, que participa das aulas teóricas e práticas ministradas pelo professor Emanuel Godoy, auxilia na obra. "Estou trabalhando lá no albergue. Foi por causa do outro curso que a gente conseguiu sair para as obras. Começamos no muro lá em baixo, vamos ajeitar a frente ainda, vai ser colocado portão, escada, tudo através do que o Senai proporcionou."

Enquanto observa o andamento da construção do muro, o coordenador de obras da casa prisional, Léo Katz, comemora. "Já imaginou uma pessoa sair e arrumar um emprego porque fez um curso aqui? Que maravilha! Não precisa mais que isso, arruma um emprego e pronto", exalta. Para ele, os cursos são fundamentais. "O de cabeleireira, por exemplo, um sogro me atacou no Centro e me disse: 'Minha nora está lá, se ela aprender e pegar gosto pelo curso, eu abro um instituto e pago as máquinas, porque eu quero acabar com essa história de droga'. Isso faz dois anos e eu fico todo arrepiado contando", relembra, destacando a importância das capacitações.

O diretor do presídio David Horn explica que só podem trabalhar na área externa os apenados do regime aberto e semiaberto, quando recebem carta de emprego ou os que já possuem carteira de trabalho válida. "Existe também uma parceria com a Prefeitura de Lajeado, onde há seis presos trabalhando, desde limpeza até o trânsito. No Parque Municipal Professor Theobaldo Dick também foi utilizada a mão de obra prisional", afirma Horn.

 

Saiba Mais

Para o diretor do Presídio Estadual de Lajeado, David Horn, a iniciativa é muito positiva. "A questão é trabalhar a ressocialização e dar uma outra oportunidade. A área da construção civil abraça muito o ex-preso, sabemos que existe o preconceito e essas questões trabalhamos junto com ao Senai, que dá um certificado bom, qualificador, e que é muito reconhecido pelas empresas. Isso facilita bastante também na procura do emprego", afirma.

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