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Uma promessa paga com milhares de terços

Dona Ursulina de Oliveira Bender confecciona rosários de crochê há cerca de 40 anos para agradecer graça alcançada. Terços já correram o mundo e ela segue a produção

Créditos: Fernanda Mallmann
Os mais de 15 mil rosários já feitos foram levados para a igreja e distribuídos em diversas partes do mundo - Lidiane Mallmann

Lajeado - Existem os que saem em caminhada carregando cruzes pesadas até um destino estabelecido, outros que preferem subir escadarias de joelhos. Pagar promessa é algo tão particular como o tamanho do bem suplicado. Há cerca 40 anos, dona Ursulina de Oliveira Bender (91) prometeu que, caso tivesse uma graça alcançada, faria um terço de crochê por dia até quando os olhos enxergassem e as mãos tivessem habilidade para manusear agulha e linha. E como promessa é mesmo dívida, ela faz disso o seu compromisso mais sagrado. Todos os dias, na sala do apartamento em que ela mora, no Bairro Americano, começa o dia "crochetando". Faz primeiro a cruz e segue para as dezenas do rosário.

Cada pontinho delicado que o crochê exige carrega um pouco da fé de Ursulina. A promessa era um terço por dia, mas a filha Andréa Maria Bender (55), com quem ela mora, revela que há dias em que chegam a sair dez terços da arte de pacienciosa da mãe. Em cada um deles, há mais que o símbolo. "Eu penso nas pessoas que vão ganhá-los. Gostaria que todos rezassem pela paz mundial", confidencia.

E as pessoas que os receberam são tantas. Dona Ursulina já perdeu as contas de quantos produziu, mas, se tivesse mantido a promessa de um por dia, em quatro décadas já seriam praticamente 15 mil. Certamente foram mais. Entre os orgulhos de Ursulina, está ter entregue tercinhos para o padre Fábio de Melo e de levar a sua produção, todos os meses de maio - o de Maria - e de outubro - o de Nossa Senhora Aparecida -, para a paróquia de Lajeado. Lá, eles são benzidos e ficam à disposição dos fiéis.

Mas o trabalho de dona Ursulina foi ainda mais longe: uma amiga já levou exemplares para o Canadá e seu Miguel Feldens (falecido em agosto deste ano, integrante da Pastoral Carcerária e voluntário no sistema carcerário durante 47 anos), que buscava os terços para distribuir aos presidiários no Natal, também levou amostras para Roma. Agora, ela tem um malote com 50 unidades prontas para enviar ao Pará, onde mora um dos filhos. "Ele vai ficar louco de felicidade quando receber", acredita.
Se os tercinhos de dona Ursulina ganharam o mundo, o motivo de eles existirem segue guardado num reduto fechado, dentro do seu coração. Ela nunca falou para ninguém, nem para a filha Andréa, qual foi a promessa feita. "Eu estava precisando de uma graça e fiz a promessa. A graça foi alcançada e sempre fui muito católica, então faço isso como agradecimento", diz Ursulina, senhora que fez do segredo e da gratidão o seu objetivo de vida.

 

Da arte, uma missão
Ursulina de Oliveira Bender nasceu em 1927 em Santa Clara do Sul. A vida foi dura no seu princípio: ela perdeu a mãe com apenas 1 ano e meio. Aos 7, aprendeu a tricotar e a fazer crochê com as irmãs mais velhas. Como o pai era escrivão em Santa Clara do Sul, ela aprendeu a datilografar. Na juventude, foi datilógrafa na empresa Lacesa. Quando casou, aprendeu também a fazer tricô em máquinas industriais e fez disso a sua profissão. "Eu fazia por encomenda e gostava muito", recorda. Ela teve seis filhos - dois são falecidos - e está viúva há três anos.

Mais tarde, fazer os terços foi uma dica de uma sobrinha. "A mãe tem uma sobrinha que mora em Minas Gerais. Um dia ela ligou dizendo que viu uma mulher rezando com um terço de crochê. Uma tia minha tentou fazer e deu certo, depois a mãe passou a fazer também", conta a filha Andréa. Quando fez a promessa de fazer um terço por dia, ela confeccionava-os apenas em duas cores: branco, cor do véu de Maria, e azul, a cor do manto de Maria. Há poucos anos, produz-os também em vermelho, que representa o sangue de Cristo na cruz.

Além de se dedicar ao crochê, dona Ursulina gosta de assistir a missas na TV. É fã do padre Fábio de Melo, gosta muito do papa Francisco e do padre Antonio Puhl, da Paróquia Santo Inácio, de Lajeado. "Eles são animados, rezam missas bonitas. Eu assisto, rezo e peço saúde para todos e paz no mundo", afirma Ursulina, com a fé inabalável em Deus e amor sem medida pelo ser humano.

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