Geral

Uma tragédia que deixa rastros

Em cinco anos, acidente da Boate Kiss mantém viva a saudade

Créditos: Natalia Nissen
Fachada da Boate Kiss receberá homenagens - Divulgação

Santa Maria - A médica Michele Valent (40) deixou o conforto da casa em Teutônia para viver uma experiência que marcaria sua vida para sempre. Logo após a notícia de que uma boate havia incendiado no Centro de Santa Maria, na madrugada de 27 de janeiro de 2013, integrou uma força-tarefa de voluntários para auxiliar vítimas e familiares em meio ao caos. Ela conta que permaneceu na cidade apenas um dia, mas foi o suficiente para perceber a importância da cooperação entre as pessoas e que a sociedade esteja preparada para momentos de desastres.

Quando chegou a Santa Maria, junto a outros voluntários, recebeu um treinamento padrão oferecido pela Médico Sem Fronteiras (MSF), uma organização humanitária e não governamental que atua no mundo inteiro. Michele ficou em um posto de saúde com outros especialistas em psiquiatria para atender aos pacientes que apresentavam problemas relativos à saúde mental, em virtude do incêndio que resultou em 242 mortes. Naquele dia, a equipe recebeu pessoas abaladas emocionalmente pela perda de amigos e familiares, pessoas que não conseguiam dormir e até quem estivesse afetado pelo clima de desastre que tomou conta da cidade. Os psicólogos prestavam apoio à comunidade diante do trauma e os psiquiatras receitavam medicamentos de urgência para os pacientes. Os moradores levavam comida e bebida para os profissionais e formavam mais um laço da grande rede de solidariedade.

Apesar do esforço coletivo, porém, houve momentos em que os voluntários e as vítimas esbarraram na falta de estrutura do Poder Público. Santa Maria não estava preparada para lidar com uma tragédia daquela magnitude. "Me chamou atenção, na época, que a organização foi toda feita por voluntários. Receitávamos medicamentos, mas a Secretaria de Saúde não tinha. Uma cidade grande, que não tinha estrutura de saúde mental como em municípios menores, como Teutônia. Era um contraste muito forte", relata.

Segundo a médica, desde então, passou a enfatizar no trabalho a questão da saúde mental, não apenas em relação a doenças. "Ganhei uma consciência muito aguda da finitude da vida. De como as coisas podem acabar por uma inação ou incompetência qualquer". A mensagem que ela tenta passar às pessoas, dia após dia, é de que aproveitem as amizades, a natureza e a vida. "É tudo muito fugaz", conclui.

Para Michele, as comunidades não estão plenamente cientes do seu potencial de transformação da realidade. A sociedade espera posições e ações do Poder Público, enquanto poderia agir e produzir mais resultados. "Se conseguíssemos nos unir mais vezes, enquanto comunidade, e não apenas nos momentos de desastre, muita coisa estaria melhor".

Vida que segue

Aléxia Blau Miotto (25) é designer de moda, de Lajeado, e estava na Boate Kiss no momento em que o fogo começou. Era a primeira vez que ia a Santa Maria, para visitar uma amiga que estudava na UFSM. Quando ela e os amigos perceberam a fumaça, correram e conseguiram sair sem se machucar. Foram para o apartamento de uma amiga e, apenas na manhã de domingo, perceberam a proporção da tragédia. Ela conta que a família ficou sabendo pelo noticiário e logo ficou preocupada com a situação. Mas Aléxia estava bem e não precisou fazer tratamento após o ocorrido.

Das pessoas que estavam na boate e sobreviveram, mantém contato com uma amiga que mora em Santa Maria e também é de Lajeado. "Minha rotina continuou a mesma. Cheguei a retornar a Santa Maria alguns meses depois para visitar os amigos. Depois de cinco anos o sentimento é de tristeza pelas famílias que sofreram com o incêndio e, ao mesmo tempo, de gratidão por todos que estão bem e conseguiram superar esse acontecimento", diz.

O impacto da tragédia

Tamiris Loreto (27) é de Santa Maria e estava na cidade na semana anterior ao acidente. No dia 27, no entanto, estava em Frederico Westphalen, onde cursava Relações Públicas no campus da UFSM. Na manhã de domingo, o telefone começou a tocar e as pessoas perguntavam onde ela estava. Outros conhecidos mandavam mensagens nas redes sociais e ligavam para a família dela. Quando viu o noticiário, entendeu o motivo da preocupação. "Perdi alguns conhecidos. Um dos meus melhores amigos, que morava na casa em frente à minha desde a pré-escola. O Leandro morreu com a namorada. A mãe dele disse que os dois não iam sair naquela noite e, de repente, resolveram ir. Ele deixou uma filha que tinha dois anos na época. Depois disso, a mãe dele foi embora de Santa Maria".

De volta à cidade e formada, Tamiris percebe as mudanças desde a trágica madrugada de janeiro de 2013. Ela relata que as pessoas falam pouco sobre o ocorrido, como uma forma de deixar que as vítimas e familiares sigam em paz sem precisar reviver a dor todos os dias. "Não é que a gente não lembre ou sinta, mas porque é triste. Quando tem algum evento, como nesta semana, as pessoas comentam mais". O incêndio na Boate Kiss despertou a consciência da comunidade, que está mais atenta à prevenção e ao cumprimento de medidas de segurança. Mesmo assim, ela afirma: "A cidade nunca mais foi a mesma".


Homenagens marcam passagem da data

Em Santa Maria, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS) e Prefeitura promovem uma programação de eventos relacionados aos cinco anos do episódio. Na quinta-feira, a jornalista Daniela Arbex lançou o livro "Todo Dia a Mesma Noite", que relembra as vítimas da tragédia. Na obra, ela conta sobre a rotina das famílias que foram dilaceradas pela perda de jovens, pais, irmãos, filhos e amigos. O evento contou com a participação da radialista Marcia Denardin e do jornalista Marcelo Canellas. O documentário "Depois Daquele Dia", de Luciane Treulieb, foi apresentado na Praça Saldanha Marinho. Luciane é irmã de uma das vítimas.

Neste sábado, no Centro Universitário Franciscano (Unifra), será lançado o Concurso Público Nacional de Arquitetura para a construção do Memorial às Vítimas da Kiss. A expectativa é firmar um Termo de Cooperação com a Organização das Nações Unidas (ONU) para captar recursos para execução da obra. Após o lançamento, acontece o painel "Cinco anos de busca por Justiça". Além disso, também são organizadas vigílias, cultos ecumênicos e toques de silêncio.

Acusação quer levar o caso a júri popular

O inquérito policial que investigou as circunstâncias do incêndio foi finalizado no dia 22 de março de 2013. Foram mais de 13 mil páginas e mais de 800 depoimentos colhidos pela Polícia Civil. Dezesseis pessoas foram indiciadas, incluindo os sócios da boate, bombeiros, autoridades e servidores da Prefeitura de Santa Maria. O então prefeito Cezar Schirmer, que hoje ocupa a Secretaria de Segurança Pública do Estado, foi apontado como um dos responsáveis, mas não chegou a ser indiciado criminalmente. Em 2016, o Ministério Público (MP) de Santa Maria recomendou o arquivamento do inquérito que apurava a responsabilidade dele e de funcionários da Administração Municipal. Meses depois, o Conselho Superior da instituição acatou a sugestão.

Os empresários Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, sócios da boate, o músico Marcelo de Jesus dos Santos e o ajudante de palco Luciano Augusto Bonilha Leão, foram acusados de homicídio duplamente qualificado. Em julho de 2016, a Justiça local acolheu denúncia do MP, determinando que os quatro réus por 242 homicídios e 636 tentativas de homicídio fossem levados a júri popular. Em dezembro do ano passado, no entanto, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ/RS) aceitou o recurso dos réus, que deverão ser julgados por um juiz criminal da Comarca. O MP recorre da decisão.

O ex-chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros de Santa Maria, major Gerson da Rosa Pereira, foi condenado em 2015 por fraude em documentos relacionados ao inquérito que apurou as causas do incêndio. Ele foi sentenciado a seis meses de detenção e pagamento de multa, pena que foi convertida em prestação de serviços à comunidade. Ele recorre da decisão.

Na semana passada, o advogado Ricardo Breier, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio Grande do Sul (OAB/RS), protocolou no TJ/RS um pedido de habilitação para atuar como assistente de acusação no processo criminal, representando a AVTSM, junto ao advogado da entidade, Pedro Barcellos Junior.

Comments

SEE ALSO ...