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Vale é precursor na mobilização estadual contra a crise leiteira

Com o objetivo de evitar a desconstrução da cadeia, Codevat promove articulação para levar à esfera estadual demandas da região

Créditos: Lucas George Wendt
- Lidiane Mallmann

Lajeado - A Universidade do Vale do Taquari foi palco, ontem, de um encontro qualificado pelas autoridades regionais como essencial, especialmente para o alinhamento estratégico das frentes de trabalho mobilizadas em torno da cadeia leiteira. Entidades diversas - em todo o Estado - estão empenhadas em atenuar os efeitos da crise, sendo o movimento realizado no Vale um dos precursores.

A liderança da região é explicada pela presidente do Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari, Cíntia Agostini. Para ela, o histórico de associativismo e cooperativismo faz a diferença no encaminhamento dessa pauta de forte apelo social. Após as mobilizações municipais das últimas semanas - que começaram por Arroio do Meio, no final de janeiro - chegou o momento da unificação do discurso para representação estadual, motivo da reunião chamada pelo Codevat. Amanhã, liderado pelo deputado Zé Nunes, o Grupo de Trabalho a Respeito da Importação do Leite em Pó do Uruguai, das comissões de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo (CAPC) e Economia, Desenvolvimento Sustentável e de Turismo, da Assembleia Legislativa se reunirá em Porto Alegre.

Posição regional

As lideranças são claras quanto ao que fazer, reconhecimento evidente nos discursos dos presentes na reunião chamada pelo Codevat. Via Associação dos Municípios do Vale do Taquari (Amvat), a proposta é reunir os números, mensurar os prejuízos e trabalhar enquanto grupo para defender os produtores do Vale. Especialmente em um cenário em que os instrumentos jurídicos são pouco claros quanto à possibilidade de os municípios decretarem calamidade ou situação de emergência. A moção partindo da Amvat parece ser a saída, e as cidades preparam relatórios dos danos que serão encaminhados à entidade em breve. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Cruzeiro do Sul e titular da Regional Sindical do Vale do Taquari, Marco Antonio Hinrichsen, diz que as autoridades nas esferas mais altas de governo não demonstraram comprometimento com as reivindicações dos produtores, ao longo de 2017. "Precisamos de respostas mais rápidas", avalia, enquanto questiona como ficarão os trabalhadores nesta época de preparação para o inverno. "Reservas já não existem mais". Cíntia Agostini, do Codevat, defende que a articulação regional pode resultar numa repercussão mais eficaz para a mobilização. Após o trabalho desencadeado pelos municípios, "há uma necessidade de pensar regionalmente", avalia a presidente. "Estamos lutando contra pressões políticas muito fortes", diz.

As demandas

As autoridades, representantes e produtores pedem intervenção do governo federal para amenizar os efeitos da crise, financiamento de estoque e compra de, pelo menos, 50 mil toneladas de leite. Para o secretário de agricultura de Estrela, José Adão Braun, é necessário continuar insistindo. Os agropecuários também esperam pelo alongamento de 36 meses e desconto de 20% em empréstimos contraídos e a criação de linha de crédito emergencial (com prazo de 36 meses para o pagamento e 20% de rebate). Outra emergência é a revisão do preço mínimo de referência do leite. Produtores também anseiam pela antecipação do pagamento para o quinto dia útil do mês, além da ampliação das vistorias pelos laboratórios credenciados quanto à qualidade do produto importado. A revisão das cotas de importação é outra demanda de urgência e, talvez, uma das que mais causam desequilíbrio na cadeia. "Só ano passado foram mais de 100 mil toneladas de leite importado", diz o secretário. A presidente do Codevat também salientou que, no dia 28 de fevereiro, vence o decreto que aumentou de 4% para 18% o IMCS sobre o produto importado. Se ele não for renovado, há chance de que as importações aumentem e a crise se acentue ainda mais.

Consequências da crise

Como consequência da crise, a estrutura das propriedades tem mudado, muitas deixando de produzir leite: o total de famílias no Vale que largaram a produção é superior a 1 mil. Ou seja, além de implicações econômicas, que impactam no orçamentos dos municípios, a crise de cadeia tem efeitos que são, também, sociais. Hinrichsen, do STR de Cruzeiro, lembra que recentemente viu produtores de regiões vizinhas tentando se desfazer de rebanhos até mesmo no Facebook. "Eram 35 animais por cerca de R$ 60 mil", conta. A presidente do STR de Teutônia, Liane Brackmann, demonstra preocupação com a sucessão nas propriedades. "Os jovens estão desistindo", emenda. "Muitos estão desistindo do sonho"

Em paralelo

Ontem, paralelamente, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) realizou encontros para tratar sobre o endividamento do setor agrícola - assunto que tem desdobramentos relacionados com a crise da cadeia leiteira. As audiências, que aconteceram, na região, em Estrela e em Encantando, também foram realizadas em outros pontos do RS.

A Câmara dos Deputados, em trabalhos liderados pelo deputado Jerônimo Goergen, que preside a Comissão Externa sobre o Endividamento Agrícola, buscou ouvir representantes e os próprios produtores. Face às dificuldades de obtenção de renda do setor agropecuário e o acúmulo de financiamentos realizados pelos agricultores com o objetivo de melhorar sua atividade produtiva - realidade sentida, também, por quem produz leite -, os requerimentos oriundos das reuniões e o plano de ação da Comissão estão previstos para serem votados hoje.

Confira o discurso do secretário de Agricultura de Estrela, José Adão Braun:

 

 

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