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Vitória da vida sobre a morte

Três histórias de pessoas da região que venceram a morte em tempos de adversidade relatam o poder que a fé teve na recuperação e na cura de seus males

Créditos: Cristiano Duarte
Maria passou quatro meses hospitalizadas

Vale do Taquari - À beira da tumba de Lázaro dezenas de fiéis rezavam e aguardavam o milagre que Jesus Cristo faria sobre a vida de seu amigo.
Assim que o filho de Deus chegou em Betânia, aldeia antiga da Judeia, as irmãs de Lázaro informaram que ele já estava morto há quatro dias.
"Se estivesse conosco, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo que pedir a Deus, ele dará a você. Porque acredito que és Cristo: aquele que veio ao mundo para nos dar vida eterna", disse a irmã de Lázaro a Jesus.
Jesus aproximou-se do leito onde jazia seu amigo e ordenou que retirassem a pedra que fechava Lázaro na tumba.
"Pai, àqueles que estão na minha volta, creem que eu sou a ressurreição e a vida. E aquele que acreditam em mim, mesmo morto, viverá".
Em seguida, Lázaro levanta-se e, ainda com o véu que fora sepultado, caminha até o afago de suas irmãs.
"Desatai-o e deixá-lo ir", diz Jesus.
Evento que foi uma das sequências que levou a crucificação de Cristo e depois o milagre de seu próprio retorno a vida eterna é celebrado neste domingo de Páscoa.
Para o Frei Flávio Guerra, da paróquia de São Cristóvão a ressurreição de Jesus "é a prova de que o poder de Deus é muito maior que o poder da morte"
"Vida eterna também significa uma vida nova a partir da fé que começa na terra. É isso que se comemora na Páscoa: a vitória do bem sobre o mal, da saúde sobre a doença e da vida sobre a morte", diz o Frei. Ainda segundo o religioso, a Páscoa marca data em que relembra-se que com o poder de Deus e o surgimento de Jesus Cristo temos condições de superar todas as adversidades.
"Aquilo que é impossível para o homem, para Deus não é".
Reportagem de O Informativo do Vale conheceu a história de três pessoas da região que estiveram entre a vida e a morte e contam como a fé auxiliou na cura e na recuperação de suas enfermidades.

11 tiros

23 de julho de 2001 - Teutônia


Saiu de casa e levou a esposa para o trabalho. Em seguida, o sargento Pedro Santana (48), na época com 30 anos, passou numa agência de banco no bairro Canabarro para fazer um depósito.
Ao chegar na fila, logo um indivíduo em traje surrado e atitude suspeita ocupou chegou e posicionou-se atrás de Santana, que aguardava ser chamado depois de outras seis pessoas.
A demora para ser atendido no banco, fez com que Santana procurasse o vigilante da agência, que já era conhecido seu há pelo menos 10 anos, para que lhe fizesse a transação de depósito para ele.
"Na época, meu filho David tinha apenas quatro anos. Queria voltar logo para casa para cuidar dele".
Assim que passou o envelope bancário ao vigilante, outros dois homens armados, um com revólver e outro com uma calibre 12 tentaram adentrar agência.
"Ao perceber que eram comparsas do indivíduo em atitude suspeita já dentro do banco, entrei em luta corporal com ele", relembra Santana.
Assim que adentraram o banco, um dos ladrões roubou a arma do vigilante e começou a efetuar disparos de revólver contra Santana enquanto o outro criminoso com o calibre 12 também atirava. Embora de folga e à paisana, o policial também estava armado e respondeu aos tiros dos bandidos.
Um dos disparos feitos pelos criminosos acabou acertando a cabeça do comparsa que entrara em luta corporal com o sargento.
Quanto a Santana, foi alvejado por 10 disparos de revólver que lhe atingiram braços, pernas, barriga e queixo. Além disso, um dos quatro tiros efetuados de calibre 12 acabou lhe acertando a perna esquerda, quebrando-lhe o fêmur.
"Na hora, enquanto vertia sangue de meu corpo, senti ardência e sede. Fiquei consciente durante todo período. Até chegar no Hospital Bruno Born, quando desmaiei".

Corrente de reza
Depois de três dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), Santana ficou mais 40 dias hospitalizado em recuperação. Neste período, perdeu 32 quilos.
"Durante este tempo, a única coisa que nunca me passou pela cabeça foi a morte", conta. Filho de pastor, a fé sempre esteve presente na vida do policial. Enquanto hospitalizado, colegas da Brigada Militar, amigos e familiares iniciaram uma corrente de oração pela melhora do sargento.
"O que me salvou foi a minha fé. Sempre acreditei. Mas não foi só minha fé. Sou muito grato a comunidade de Teutônia que orou por mim. Isso trouxe muito força", rememora.
De acordo com o frei Guerra, a fé traz a esperança de cura o que acaba potencializando o sistema imunológico.
"Quando um número grande pessoas rezam por alguém, isso tem muita força. Estas pessoas auxiliarão intercedendo por meio de Deus essa fé na cura por meio da energia divina".

Vestindo a farda
A emoção de voltar a vestir a farda da Brigada Militar é lembrada com emoção pelo sargento Santana. Após um ano e quatro meses afastado do trabalho em recuperação, ao retornar a corporação passou 5 anos em atividade internas, até recuperar-se bem.
Hoje, de volta as atividades policiais, o sargento comemora a boa saúde.
"É muito bom saber que temos outra oportunidade devida. Passei a dar mais valor e a ser mais gentil. Percebi que não passamos de uma matéria e que o mais importante é cuidarmos de nossa alma preservando nosso espírito", diz.

(Foto: Lidiane Mallmann)


A queda

21 de outubro de 2018 - Lajeado


O farelo de madeira caía do telhado para o interior da casa do eletricista Getúlio da Silva (53). Formigas e cupins se alastravam pelo forro da residência, no bairro Morro 25. Naquela domingo, um veneno para aqueles insetos colocaria fim a sujeira causada por eles no assoalho do imóvel, para alívio da esposa Ana Cristina da Silva (49).
Pouco antes das 10h da manhã, Getúlio posicionou a escada em frente a garagem do imóvel e subiu no telhado de casa. Depois de espalhar a solução contra as formigas e cupins, ao descer, colocou o pé de mal jeito na escada e acabou caindo de cabeça de uma altura de cerca de 3 metros.
Do traumatismo craniano que sofrera, o sangue vertia da boca e do nariz de Getúlio. O estado era gravíssimo. Desmaiado e sem dar sinais, não havia tempo para espera de socorro. Getúlio estava em coma.
Com a ajuda de um vizinho, o eletricista foi alocado na caçamba da caminhote que usava para o trabalho e levado às pressas para a emergência do Hospital Bruno Born.
"Não me recordo de nada. Não lembro nem de ter subido a escada e tão pouco descido", conta Getúlio.
Na UTI, um médico chegou a alertar a família de que talvez Getúlio não sobrevivesse aquela noite. Diagnóstico errado, pois o eletricista deu a volta por cima. Em outros momentos, nos 22 dias que ficou hospitalizado, outros doutores disseram a esposa de Getúlio que talvez ele não saísse da cama e que poderia entrar em estado vegetativa ou não falar mais.
"A vida é muito proveitosa. Este Deus, lá no céu, o que ele deu para mim, ele dá para todo mundo que merece estar nessa vida. A segunda vida que a gente ganha é diferente", exalta Getúlio enquanto caminha abraçado com a esposa pelo pátio de casa.


Livro de visitas
Conhecido e querido na comunidade do morro 25, o livro de visitas no quarto em que Getúlio Vargas ficou internado durante 22 dias recebeu mais assinaturas do que pessoas que ficam hospitalizadas durante 6 meses, assegurou um diretor do HBB à esposa Ana Cristina.
"Se eu tivesse morrido, colocariam terra sobre o meu corpo e para mim estaria tudo terminado. Sei disso. Mas quando vi meu filho Jean (23), minha filha Gerusa (31) e minha esposa sofrendo minha concepção de vida mudou. Assim como eu dependo deles, eles dependem de mim", relata.
Pelos corredores do hospital, pessoas que não eram conhecidas da família da Silva passavam e diziam "estamos fazendo corrente de oração para Getúlio", relembra Ana Cristina.
Muito religiosa e devota, a esposa de Getúlio orquestrou com a família uma rotina de rezas pela melhora do marido.
"Foi um milagre. Ele sempre foi um bom marido. Agora vamos aproveitar ainda mais a vida juntos", diz Ana Cristina com os olhos marejados de lágrimas.

Beijo do filho
"Você não faz ideia do carinho que foi criado dentro de minha casa desde o acidente", conta Getúlio. Das maiores emoções dele, foi passar a receber beijo do filho Jean.
"Ele nunca foi de fazer isso. Agora ele me visita ainda mais seguido, me beija no rosto e se eu ligar logo ele aparece aqui em casa. Minha filha também está ainda mais querida comigo. Mas procuro respeitar a vida de casados que eles levam. Os amo muito", diz.
Ainda em recuperação pelos próximos meses, assim que a rotina for reestabelecida, Getúlio pretende integrar uma igreja como forma de gratidão pela segunda vida que ganhara.
"Das raras lembranças que guardo desde que voltei para casa, foi um dia que saí da cama e vi o nascer do sol. Aquilo me comoveu, fiquei muito feliz de ver mais um dia começando".

(Foto: Lidiane Mallmann)

 


No ombro de Maria

27 de agosto de 1999 - Lajeado


Sentada no saguão com o grupo de oração do Hospital Santa Rita, em Porto Alegre, Maria Nair Giovanella (74) ainda não sabia que guardava dentro de si um câncer maligno no intestino. Em meio a outros pacientes que se distribuíam nas cadeiras para a oração do dia, uma religiosa disse aos presentes: "alguém aqui está muito doente. Mas quero que saibas que podes ir tranquilo. Jesus está contigo".
Neste momento, Maria Nair sentiu uma mão repousando em seu ombro direito. Ao olhar para trás, não viu ninguém.
"Senti que aquelas palavras eram para mim. Eu ainda não sabia da gravidade do meu quadro, mas soube naquele instante que Deus estava comigo".
Os sintomas que começaram em casa com a frequência de idas ao banheiro, a levaram para um exame no Hospital Santa Casa, em Porto Alegre. Assim que obteve os resultados, o médico solicitou uma análise mais aprofundada. Pela gravidade do câncer, um cirurgia de urgência foi marcada às pressas.
"Só tive tempo de voltar para casa e pegar roupas. Sentia que meu corpo não estava bem. Falei aos médicos que eu estava nas mão de Deus e que seria curada por Ele através de quem me fizesse a cirurgia", relembra.


Quatro meses, um quarto

Depois do procedimento cirúrgico de 8 horas, Maria foi levada ao quarto, onde repousou. Assim que recuperou-se, retornou a sua casa, no bairro São Cristóvão. No conforto do lar, sentiu um dor aguda na barriga. Os pontos da cirurgia haviam rompido.
"Neste momento começou toda minha jornada de fé. Fui testada por diversas vezes por acreditar que Deus tocou no meu ombro ou não. Mas ele tocou. Sempre acreditei que ele me curaria e me curou", orgulha-se.
Maria passou quatro meses hospitalizadas. Com a fraqueza no corpo que lhe assolara, ela estava pesando 32 quilos. Para deslocar-se pelos corredores do Santa Casa era necessário se apoia em algum familiar.
Voltou para casa no Natal para então não mais retornar àquele quarto de hospital.
"Acredito que nasci de novo. Sinto a presença de Deus comigo todos os dias: ao olhar para a natureza, para o céu, para as pessoas vejo a obra perfeita que só poderia ter sido feito por alguém divino", conta.


Deus na campainha
Há um mês, a campainha da residência de Maria tocou. Ao receber a visitar, deparou-se com uma religiosa da Paróquia de São Cristóvão lhe convidando para ser catequista.
"Disse a ela que aceitaria, não porque ela estava me pedindo, mas sim porque eu tinha certeza de que Deus havia lhe enviado para este convite", conta.
Desde então, Maria leciona o último ano de Crisma na Catequese. Para ela, quem crê no divino, tudo pode.
"Páscoa é época de lembrar que Jesus não gicou na morte. Ele está vivo dentro de todos nós", ressalta.

(Foto: Lidiane Mallmann)


"A fé aumenta a qualidade de vida, sobrevida e na saúde mental das pessoas"

Professora de psicologia e doutora em Educação, Suzana Schwertner acompanha estudos que abordam a ligação da fé com a recuperação em quadros de saúde. Na Univates, supervisiona a Liga Acadêmica de Saúde e Espiritualidade.

 
O Informativo do Vale - Como a fé pode contribuir na melhora de uma enfermidade?
Suzana Schwertner - Dentro da ciência existem diversos estudos que apontam melhor em quadros de saúde a partir da fé e da espiritualidade. Nos últimos 15 anos, pesquisas relacionadas ao tema cresceram muito. Para se ter uma ideia, a cada dia há uma média de 7 novos artigos no mundo tratando sobre a relação de melhoria em saúde a partir da fé. A ciência tem percebido que a dimensão física e espirtual estão articuladas. Percebe-se aumento de produção no sistema imunológico do paciente que tem fé. Além disso, os estudos apontam que a fé aumenta a qualdiade de vida, sobrevida e na saúde mental dessas pessoas. Inclusive, auxilia no bem-estar psicológico.

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