Colunistas

Desclassificados

Gilberto Jasper Jornalista


A tecnologia sepultou práticas seculares por meio de novos hábitos e comportamentos. Sou leitor compulsivo de jornais em papel, um tipo 'dinossauro' que aos 16 anos era o único funcionário da redação de um jornal do interior do Estado. Entre as diversas alterações se destaca o fim dos classificados, aqueles pequenos anúncios de compra e venda, serviços e negócios de todo tipo.
Até pouco tempo os grandes jornais publicavam uma ou duas vezes por semana cadernos especiais com dezenas de páginas que registravam elevado índice de leitura. Muita gente comprava o jornal, sacava o suplemento e jogava o 'corpo do jornal' no lixo. Assisti a esta cena várias vezes.
De carros novos e usados ao trabalho das 'massagistas especiais' tudo passava pelos classificados que rendiam bons lucros às empresas jornalísticas. Trabalhei por 11 anos na Zero Hora, cuja edição de domingo era impressa na madrugada de sexta-feira para sábado. Pela manhã proliferavam pessoas interessadas em adquirir apenas o suplementos dos pequenos anúncios nas imediações das oficinas do jornal.
Este contingente era composto majoritariamente de revendedores de carros usados e particulares interessados em adquirir veículos. Aqui se impõe uma explicação: antes da rodagem definitiva da tiragem é feita uma prova. Este prática serve para ajustar as cores, conferir a sequência de páginas, uma checagem final.
Esta "quebra" da edição _ composta da conferência dos ajustes - era disputada a tapa pelos chamados "picaretas". Eles chegam ainda escuro na Avenida Ipiranga, em Porto Alegre, na sede da ZH. Depois de conseguir o valioso caderno com alguns funcionários da oficina eles saíam em dispara atrás das ofertas e dos melhores negócios.
O saudoso caderno de classificados me vem à mente cada vez que leio notícias que tratam de golpes perpetrados através da internet. A ganância parece cegar as pessoas que acreditam em "negócios da China" onde carros de R$ 60 mil são vendidos por R$ 45 mil. Sem conferir a origem da oferta, os internautas depositam quantias em contas de banco fantasmas, não recebem o bem contratado e nunca mais conseguem notícias sobre a negociação.
Muita gente compra todo de tudo sem sobressaltos porque têm alguns critérios, como conferir as referência de sites e fugir das barbadas. A compra por impulso é uma armadilha. Sem controle o internauta corre dois riscos: contrair despesas e não ver seu desejo de consumo atendido e cair no endividamento, resultado da facilidade de aquisição.
Os velhos classificados se baseavam em negociações olho no olho. Isso, porém, não impedia, mas ao menos constrangia os golpistas. Infelizmente a 'criatividade para o mal' ignora barreiras como costumes e tecnologia. É onipresente.


Gilberto Jasper

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