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Meu obituário


Já confessei que sou leitor assíduo de obituários publicados nos jornais. Calma! Não se trata de um hábito mórbido, mas de exercício de imaginação. Ao vislumbrar o resumo de uma vida, tento imaginar como era, na vida real, a maneira de ser do personagem em destaque.
Outra ilação é sobre o meu próprio obituário, o que é um bálsamo. Explico: esta resenha só destaca as coisas boas que o falecido realizou, os hábitos sempre saudáveis e dignos de elogios, e suas ações altruístas. Publicamente serei um cara quase perfeito, mas quem convive comigo verá, em cada linha, meus (inúmeros) defeitos, falhas e fraquezas.
Talvez o necrológio contenha algo como "adorava fazer churrasco e reunir os amigos em torno do fogo". Meus filhos e mulher atualmente pensam: "Ele só sabe fazer churras e torrada", o que é verdadeiro. Afinal, já são 87 churrascos preparados este ano, conforme o diário que mantenho. Ali registro data, carne servida e os integrantes do encontro geralmente regado a vazio, salsichão, pão com alho e picanha/costela suína.
Minha necrologia registrará "Ele era metódico, tinha hábitos arraigados", mas minha família me acusa: "É uma 'mala', um chato apegado a detalhes. É um velho teimoso, 'reclamão' que repete as mesmas frases há anos! É tudo verdade!. O resumo dirá ainda: "Adorava crianças", mas hoje meus filhos advertem: "Pai! Para de brincar com a gurizada... as pessoas vão achar que és um pedófilo ou ladrão de crianças!".
No quesito futebol escreverão: "Era um colorado que convivia pacificamente com gremistas, até comemorava com a filha tricolor". Hoje, porém, alguns amigos colorados amigos me acusam de gremista enrustido porque evito brigar por causa do futebol, esporte repleto de "profissionais".
Os amigos poderão deparar com outras referências divorciadas da realidade, do tipo "valorizava os amigos, lembrava os aniversários, enviava cumprimentos a jornalistas por prêmios conquistados e belas reportagens". O pessoal de casa, porém, diz que abuso dos whatsapp com novidades e conteúdos pouco interessantes.
É normal ouvir-se que "ao morrer, todos são elogiados e parecem imunes a defeitos". É tão normal quanto o arrependimento de não procurar amigos inesquecíveis da adolescência ou de viagens e conquistas profissionais na partida de um parceiro do coração.
Assim como toda mãe considera o filho perfeito - inclusive as progenitoras de notórios assassinos - o finado é sempre uma pessoa "do bem". Por isso, leitores, encare seu desafeto como se estivesse lendo o seu obituário. Afinal, gentileza gera gentileza!


Gilberto Jasper

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