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Bancos Centrais em Ação

João Fernandes, Economista da Quantitas Gestão de Recursos


Na grande maioria dos países o Banco Central é a instituição responsável por manter a inflação controlada, isto é, impedir que os preços subam ou caiam de forma exagerada. Para tanto, definem um nível de taxa de juros que equilibre a oferta e demanda por bens e serviços - vamos lembrar que se a demanda por um bem for maior que sua oferta seu preço tende a subir, e vice-versa.
Na quarta-feira passada tivemos as decisões dos dois Bancos Centrais mais relevantes para nossa economia: o dos Estados Unidos (Federal Reserve, ou Fed) e o do próprio Brasil. No caso do primeiro, sua importância advém do fato da economia norte-americana ser a maior do mundo, e do dólar ser a principal moeda utilizada em transações internacionais, de modo que a taxa de juros dos EUA influencia diretamente aquelas de todos os demais países.
O Fed decidiu reduzir a taxa de juros de 2,50% a.a. para 2,25% a.a., algo amplamente esperado pelos mercados. Contudo, a surpresa veio na sinalização que a instituição deu para as próximas reuniões: o mercado esperava que ela desse indícios de que haveria mais uma queda em setembro, mas ela preferiu deixar esta decisão bastante em aberto, mostrando que não está tão disposta assim a reduzir os juros de forma mais agressiva.
Esta possibilidade da taxa de juros dos EUA não cair tanto elevou os temores do mercado de que não seriam dados estímulos suficientes para manter o ritmo de crescimento do país, levando a uma maior aversão a risco entre investidores que levou à desvalorização de ativos financeiros ao redor do mundo. Aqui no Brasil, por exemplo, se observou queda da bolsa de valores e elevação do dólar.
Se por um lado o cenário internacional ficou mais adverso, no Brasil o Banco Central agiu de acordo com o esperado, reduzindo a taxa de juros - chamada de Selic Meta - de 6,50% a.a. para 6,00% a.a., uma nova mínima histórica. Além disso, o comunicado da decisão deixou claro que a instituição antecipa que a inflação continuará baixa, além de denotar preocupações em relação ao dinamismo do crescimento e emprego no país. Esta caracterização sinaliza que novas quedas estão a caminho.
Ora, mas o fato dos EUA sinalizarem que não vão derrubar tanto a taxa de juros não poderia impedir que ela caísse muito no Brasil? De fato, sim, porém no início desta semana um novo fato apareceu: a guerra comercial entre Estados Unidos e China se agravou. Desde a eleição de Donald Trump, esta disputa por vantagens no comércio de bens entre os países vem dominando as manchetes ao redor do mundo. O agravamento da guerra comercial significa maiores preocupações em relação ao crescimento econômico dos próprios Estados Unidos. Esta é uma conjuntura que tornará mais difícil para o Banco Central norte-americano evitar novas quedas dos juros, pois elas serão necessárias para evitar uma desaceleração do crescimento, permitindo assim que outros Bancos Centrais (como o do Brasil) possam também derrubar suas taxas. O cenário de juros cada vez menores continua preponderante.

* as opiniões do autor refletem uma visão pessoal e não necessariamente da instituição Quantitas Gestão de Recursos


João Fernandes

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