Mulheres que transformam 2019

Lourdes Gema Faccini

Testemunha das transformações


- Marcel Lovato

Quem transita pela ERS-332, em Linha Bonita Alta, Doutor Ricardo, nem imagina que ali vive uma personagem cheia de histórias para contar e dona de uma memória invejável. Há 61 anos, o local é a casa de Lourdes Gema Faccini (88), o que faz a ser a única remanescente dos primeiros moradores da comunidade. Por conta disso, observou todas as mudanças ocorridas com o passar dos anos. Do asfaltamento da rodovia ao processo de emancipação do município. Ali, construiu a sua vida e se tornou conhecida em grande parte da região.

União e trabalho
Em 11 de outubro de 1958, Lourdes deixou a comunidade encantadense de Linha Santa Terezinha, onde nasceu e estudou, para subir ao altar com João Celeste Faccini. "Costurei meu próprio vestido de noiva justamente para economizar. Para começarmos nossa história, fomos ajudados pelos nossos pais", relembra Lourdes. Eles tiveram cinco filhos, quatro homens e uma mulher. Todos nasceram em casa, com auxílio de uma parteira vizinha da família.

O casal se separou somente 50 anos depois devido ao falecimento de seu João. "Senti muito a morte do meu marido porque a gente se dava muito bem. Tivemos uma linda relação de amor, respeito e apoio incondicionais. Cheguei a emagrecer 25 kg. Mas consegui superar a dor da perda e hoje procuro lembrar de tudo que a gente construiu", salienta.

Ao longo da vida, o casal se desdobrou para sustentar os herdeiros. Eles trabalhavam na roça, mantinham um armazém e realizavam outros serviços em horários alternativos. Um pouco de tudo. Por ter feito curso de cabeleireiro, Lourdes aprendeu a encrespar cabelos e ofereceu essa técnica durante décadas, uma exclusividade para a época. "Primeiro eu enrolava os fios e depois colocava naqueles secadores gigantes de alumínio. Então, regulava a temperatura conforme o gosto da cliente", explica. O processo poderia demorar até três horas para as madeixas ficarem no ponto desejado.

Junto com o marido, Lourdes aprendeu gestão empresarial na prática, tanto que o negócio existe até hoje e é tocado por familiares. "Como sempre convivi em harmonia com a vizinhança e confiava, vendia fiado. Durante esses anos, apenas um não voltou para acertar as contas", comenta aos risos. Para garantir as bebidas geladas, a família as resfriava no poço artesiano, a cerca de 5 metros de profundidade. Os filhos ajudavam no processo. Não havia energia elétrica.
Ela se orgulha de ter ensinado aos filhos a importância da educação financeira. Com a atividade, proporcionou estudos a todos eles, ajudou nos casamentos e ainda colocou porções de terras em seus nomes.

Popularidade
Lourdes garante que já foi madrinha em mais de cem celebrações, entre casamentos, batizados e comunhões. Como aprendeu com a mãe a confeccionar coroas de flores com parafina para enterros, comercializava os arranjos e garantia a pronta-entrega, algo igualmente pioneiro nos arredores. Mais uma renda extra. Em um ano, chegaram a ser produzidas 120 unidades, cuja tarefa era realizada costumeiramente à noite. Por esses motivos, se tornou uma figura popular no Vale do Taquari, a ponto das pessoas pararem para visitá-la e ela, por vezes, não se lembrar de alguns por causa da quantidade ou do tempo. Outro fator que ajuda nesse fenômeno foi a intensa participação como festeira ou voluntária em eventos religiosos e comunitários.

Um deles pode ser considerado uma epopeia. Há 60 anos, Lourdes, o marido e outros casais se uniram para realizar a 1° Festa da Gruta Nossa Senhora de Lourdes, de Doutor Ricardo. O local havia sido descoberto pouco tempo antes, mas estava inacessível. No decorrer de um mês, com ajuda do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), o grupo trabalhou intensamente para tirar as pedras que impediam a aproximação e uma estrada foi aberta. "Com pés descalços e muita lama, cheguei a carregar sacos de 60 kg nas costas, inclusive em dias de chuva. Lembro como se fosse hoje que mais de 1000 pessoas estiveram na inauguração, em um dia lindo", recorda. Parte da comida da festa foi feita com a água de um riacho próximo. E a imagem da santa foi comprada e trazida pelo padre Vitório Scopel, já falecido.

Sabedoria
Mesmo com a idade avançada ela dá várias demonstrações de vitalidade, além da simpatia, gentileza e alegria. Mesmo com dificuldade para caminhar, o sorriso é mantido. Na condição de alguém que enfrentou uma série de obstáculos ao longo de sua existência e soube tirá-los de letra, fez questão de compartilhar dois pontos de vista. "Se você cultiva a paz, possui boa saúde e dinheiro na medida certa, então tem tudo. E digo mais. Aproveite a vida da melhor forma, pois quem sabe fazer isso conhece a verdadeira receita da felicidade".

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