Mulheres que transformam 2019

Lisiane dos Santos

A arte de dançar como identidade


- Lidiane Mallmann

Lisiane dos Santos (40) possui uma grande paixão, a dança. Impulsionada pelo desejo de expressar, por meio da arte, sua identidade e despertar outras mulheres a também descobrirem-se com o movimento do corpo, ela ministra aulas gratuitas de dança desenvolvendo as temáticas afro e regionais brasileiras. "Quando me apresento é um momento mágico e percebi que para elas também poderia ser." A mulher de personalidade afirma que todas as pessoas foram feitas para se movimentar de alguma forma. "O corpo foi feito para isso."

Vocação

A vocação para as artes vem de berço. O pai Recioli dos Santos, graduado em Artes Cênicas, incentivou a filha a correr atrás do sonho. Lisiane chegou a iniciar o curso de Educação Física estimulada pelo interesse de atuar na área da dança, mas deixou o curso com apoio do pai para ingressar na graduação de Dança na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs). Na busca pelo conhecimento foi além, com especialização na área e em Pedagogia da Arte. Conforme ela, seu estudo se volta para a arte.

Lisiane conta que a paixão pela dança a acompanha desde a adolescência. Aos 14 anos fez um curso de samba com o professor Mario Terra. Da experiência surgiu a admiração que se tornou em uma troca de conhecimentos e experiências até hoje.

A arte de ensinar

Professora de dança e artes de alunos da Educação Infantil ao 3º ano do Ensino Fundamental, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Nova Viena e Escola Municipal de Ensino Fundamental Vida Nova Conventos, ela procura inserir o gosto pela dança também para os estudantes, para que todos possam ter acesso a Arte do movimento. "Os meninos também precisam conhecer. Há uma cultura de que homem não dança. Mas assim eles podem perceber que também podem dançar." A professora vê uma oportunidade de trazer um conhecimento diferenciado no movimento com o corpo, para além da prática do esporte.

Após as férias de inverno das escolas, o projeto de dança será ampliado e passará a atender alunos do Ensino Médio do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco. Para isso, será formada uma turma que terá aulas gratuitas, no turno inverso, uma vez por semana. "O dinheiro não paga. Eu amo muito isso. A dança, a arte, abre caminhos. É um tempo para si".

Coragem para subir ao palco

A paixão pela dança impulsionou Lisiane a formar um grupo. Para isso, lançou o convite no Instagram e no Facebook por meio de uma hashtag "Vou desafiar você vai ter que dançar". O convite para as aulas de dança oferecidas, gratuitamente, surgiu como um desafio. As únicas determinações para integrar o grupo eram participar das apresentações e custear o seu figurino. "Tu tem que ter coragem para estar no palco. É dedicação e força de vontade." Desde fevereiro, as dez participantes reúnem-se no espaço cedido pela professora de educação física que trabalha com ritmos, Paula Batista.

Mulheres que se movimentam

Conforme ela, o grupo que recebeu o nome "Identidade" funciona como um projeto do Centro de Cultura Afro-Brasileira. A proposta é reforçar a identidade do negro. "Me cativa poder trabalhar a história e as raízes de um povo." Lisiane, destaca a diversidade como um dos temas abordados pelo grupo. Ela explica que o grupo está formando sua identidade, é composto por mulheres de todas as cores. "Quando tu conhece a cultura do outro, aprende a respeitar. A arte proporciona que sejamos mais humanos, pois toca o mundo do outro." Acrescenta que o grupo é formado por mulheres que já tinham contato com a dança até mulheres que não possuíam experiência, mas foram desafiadas e, hoje, já guardam cinco apresentações, havendo cumplicidade e apoio entre as integrantes. "Somos mulheres, mãe, avó, acho lindo depois da apresentação a mulher poder amamentar o seu filho."

O grupo também trabalha a autoestima, desde a montagem do figurino, o empoderamento da mulher para subir no palco e colocar personalidade em sua apresentação. "São mulheres que se encontram e se curam, também precisam do seu momento." Ela emociona ao lembrar dos depoimentos das dançarinas. "Eu dancei como se não houvesse amanhã."

Orgulho da cultura

O processo de autoconhecimento é uma das motivações para o envolvimento com a dança. "Tem a ver com a minha identidade, tenho ascendência afro. Me faz bem esse trabalho também para me entender". Ela conta sobre o amor à cultura brasileira e afro, gesticula mostrando os movimentos de dança e expressa em seu semblante a alegria em poder falar sobre o que tanto ama. "Eu eu amo a cultura brasileira, tem o indígena, o lundu, o carimbó. Na escola trabalho a dança criativa, alongamento, marchinhas, samba, lendas." A professora de dança transborda expectativas com um brilho no olhar, ao planejar as apresentações para o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Tem prazer em ensinar sobre a história e a cultura dos povos.

Ela explica sobre a relação entre, movimentos, crença, alimentos e lendas, aspectos que fazem parte de uma tradição e não podem ser tratados de maneiras isoladas. Mostra com orgulho o turbante e brincos que representam acessórios usado na África e Índia e também servem para proteção do cabelo. "Não é só para bonito, é importante conhecer de onde vem."

"Quando tu conhece a cultura do outro, aprende a respeitar. A arte proporciona que sejamos mais humanos, pois toca o mundo do outro"

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