Mulheres que Transformam

Fabiane da Rocha Barcelos

Acolher para ajudar e aprender cada vez mais

Créditos: Natalia Nissen
Fabiane da Rocha Barcelos cuida da Casa de Passagem do Vale há sete anos - Lidiane Mallmann

Vale do Taquari - Fabiane da Rocha Barcelos (40) abre a porta da Casa de Passagem do Vale para receber as visitas e mostrar seu ambiente de trabalho: todos os cômodos são organizados, limpos e têm detalhes que refletem as características dos hóspedes. A sala é grande, tem sofás e uma televisão para reunir as mulheres que precisam de acolhimento com seus filhos. Em um canto de outra sala, uma pequena biblioteca e brinquedos. Nos quartos, beliches bem arrumadas e janelas abertas para permitir a entrada do sol. Com ou sem acolhidos, tudo fica em ordem pelas mãos de Fabiane.

Ela é zeladora da casa há sete anos. Mulher vaidosa e de origem humilde, reconhece que transforma vidas e, mais do que isso, aprende a cada dia com as pessoas que buscam na Casa de Passagem um ambiente seguro para fugir do ciclo da violência doméstica. Enquanto fala, lembra com carinho das mulheres responsáveis por administrar a Associação Casa de Passagem do Vale. Gratidão é a palavra que define seu sentimento. "A Silvia Feldens (coordenadora da casa) foi um anjo que Deus colocou na minha vida." O lenço verde, que exibe orgulhosa, foi um presente de Silvia, trazido de uma viagem à Argentina. "Tenho três. Cada um ela trouxe de um lugar diferente. É como se ela trouxesse um pedacinho daquele lugar que conheceu."

Acreditar que o melhor nos espera

A protagonista dessa história é natural de Porto Alegre, mas cresceu no Vale do Taquari. Nunca foi vítima de violência doméstica. No entanto, a primeira união não deu certo e ela acabou tendo que cuidar dos filhos sozinha - duas meninas e um menino. A separação ocorreu quando ela estava grávida do terceiro filho. "Sofri muito preconceito por estar sozinha. Eu tinha uma vida comum e digo isso porque, quando vim para cá, tudo mudou." Fabiane conta que passou por muitas dificuldades e chegou a deixar de jantar para ter o que oferecer de almoço para as crianças.

Trabalhou como zeladora da Casa de Passagem por um curto período e resolveu buscar outro emprego porque não se sentia preparada. Anos depois, recebeu um novo convite para cuidar do lar de acolhimento. Casada, mãe e avó de um menino de dois anos, diz que enquanto houver a casa, estará nela. "Na primeira vez que trabalhei aqui as coisas eram diferentes. Não tinha lei para proteger as mulheres e o preconceito era maior."


Foi com o novo trabalho que surgiu a oportunidade de voltar a estudar. Fabiane passou a envolver-se com a causa das mulheres e preocupar-se com o futuro de quem passa pela casa. "Por mais rápida que seja a saída delas, crio uma amizade e um carinho. Quero saber como elas estão e o que mudou em suas vidas. Amo meu trabalho e as amigas que ele me trouxe."

Mais que zeladora

Fabiane acompanhou o avanço das políticas públicas de proteção às vítimas da violência doméstica e sente-se grata por cada mulher que sai da Casa de Passagem com um sorriso no rosto. "Quando vejo um caso resolvido, sinto alívio. Sou o primeiro contato dessas mulheres quando elas saem da delegacia. É um momento de fragilidade e medo, por isso recebo-as de braços abertos."

Embora seu trabalho seja cuidar da casa, sempre tira um tempo para ouvir um desabafo. Nas conversas, as vítimas relatam situações que tiveram vergonha ou medo de contar à polícia.

Fabiane frequenta a Igreja do Evangelho Quadrangular e compartilha o suporte espiritual que recebe. Fica feliz ao perceber que algumas mulheres saem da casa mais confiantes para enfrentar seus medos e dar andamento aos processos contra os agressores. "A casa tem regras e sou firme. Mas não posso ser rude. Lidar com pessoas é sempre uma situação delicada."

Motivação

Empatia é a capacidade de colocar-se no lugar do outro. É justamente isso que move Fabiane na vida pessoal e profissional. Enquanto muitos dizem que a vítima da violência doméstica sofre porque quer ou fez algo para merecer a agressão, a zeladora garante que nada justifica um ato de brutalidade. Quem convive ou conhece essa realidade passa a entender a dor do outro. E não precisa ser uma dor física. "A violência psicológica e emocional pode doer muito mais."

Nos últimos anos, Fabiane testemunhou histórias de superação e outras que terminaram em tragédias. Ela recebeu mulheres que, pouco depois, foram assassinadas por companheiros ou ex-maridos. Por conhecer de perto, aprendeu que o melhor conselho é: não sofram caladas, saiam gritando mundo afora e busquem ajuda. "Digo para que não se calem, e pensem nos filhos, nos amigos e nos pais, que também sofrem com a dor delas. Não é uma decisão fácil, mas vai melhorar a vida de todos à sua volta." Fabiane sempre gostou de ajudar as pessoas e abraçar o mundo, mas nunca imaginou que seu trabalho pudesse fazer tanta diferença na vida de outras mulheres.

 

 

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