Mulheres que Transformam

Silvane Wathier

Do drama fez-se a força

Créditos: Fernanda Mallmann
RENDA: do trabalho como costureira, Silvana Wathier tira o sustento da família - Lidiane Mallmann

Lajeado - Se existem mulheres que transformam a vida dos outros, também há aquelas que mudam a sua própria história. E radicalmente. Foi isso que Silvane Wathier (44) experimentou nos últimos anos. O resultado? Uma nova mulher.

Silvane é mãe de três filhos: de 27, 25 e 13 anos. Os dois mais velhos, fruto do primeiro casamento. O caçula, do segundo. Ela também cria uma neta do coração, de 4 anos, filha da enteada que tinha no segundo relacionamento. "Sou mãe, pai, vó e vô", brinca. Na sua casa, no Bairro Campestre, em Lajeado, ela mora com o filho mais novo e a netinha. Sustenta a casa com o seu trabalho como costureira. Só o esforço de ser uma em várias já faria de Silvane uma guerreira. Mas ela trava uma luta ainda mais pesada.

O dia em que tudo desabou
Por 14 anos, Silvane viveu um relacionamento quase doentio. Era apaixonada pelo segundo marido, mas o companheirismo nunca foi retribuído da mesma forma. "Ele não se prendia. Em 14 anos juntos, fizemos 13 mudanças de cidade. Era uma mudança por ano, uma loucura. Sempre seguia ele porque eu gosto da família unida. Queria ter a minha". Há quatro anos, quando vieram de muda para Lajeado, Silvane decidiu que era aqui que iria ficar. "Ele queria uma esposa submissa. Mas as coisas foram mudando, já não sentia mais a necessidade dele por perto", conta, lembrando que foi agredida verbalmente e fisicamente diversas vezes pelo ex-companheiro.


Foi nesse período, em outubro de 2016, quando já planejava sua independência, que a vida deu uma reviravolta ainda maior. "Eu estava sempre doente. Foi aí que as moças do posto de saúde aconselharam eu e meu ex-companheiro a fazer alguns exames. Descobrimos que temos Aids, foi o dia que tudo desabou", resume. Era a gota que faltava para a separação.



A difícil tarefa de se reerguer
Depois de saber que tinha Aids, veio o fundo do poço. "Na primeira semana, eu só chorei. Nos dois meses seguintes, eu não tinha força para nada, só desejava que não tivesse acordado." Ela conta que em janeiro de 2017 estava tão mal, que pensou que iria morrer. "A médica me disse: se tu não te reanimar, não vais viver. Eu cheguei em casa, olhei para carinha do meu filho e da minha neta e pensei: eu preciso dar a volta por cima."


Foi o que fez. A medicação foi sendo melhor tolerada, os vizinhos ajudaram a motivá-la e a psicóloga e assistente social do Cras foram decisivas para que ela passasse a se colocar em primeiro lugar. 


Mas ainda havia mais uma dor no caminho. Quando reuniu os dois filhos mais velhos e os pais para informar sobre a doença, não encontrou amparo. "Por um mês, ficou um gelo. Nenhum deles falou mais comigo. Aos poucos, eles começaram a voltar e hoje nossa relação é boa de novo."

As lições no caminho

Do drama pessoal, Silvane acredita que ainda vá encontrar uma resposta. "Eu não procurei essa doença, ela caiu no meu colo de graça. Mas acredito que isso não é gratuito: essa doença deve ter vindo para me mostrar alguma coisa. Mas eu vou morrer sem aceitar o que tenho", afirma.


Hoje, a costureira diz que vive mais serenamente: ela conta que aprendeu a dizer não, cuida mais de si, não tenta mais resolver o problema de todo mundo e a sua maior preocupação é trabalhar para cuidar bem dos filhos e neta. "Sou vítima dessa doença que meu ex-companheiro trouxe para dentro de casa. Tenho essa ferida dentro de mim que não cicatriza. Eu digo que só vou superar o dia que eu conseguir falar sobre isso sem chorar. Ainda não consigo. Mas eu sou mulher e toda mulher é guerreira", confia Silvane, que transformou a dor em força.

Comentários

VEJA TAMBÉM...