Mulheres que Transformam

Glaci Backendorf Kuhn

Lições de amor e geografia

Créditos: Naiâne Jagnow
- Lidiane Mallmann

Travesseiro - A gente sabe que aprender sobre latitude, longitude e os movimentos da Terra é importante. Na sala de aula de Glaci Backendorf Kuhn (56), porém, o conteúdo vai além. A professora da Escola Estadual de Ensino Médio Monsenhor Seger passa lições de amor e companheirismo. E é uma mãezona para muitos estudantes de Travesseiro.

Apesar de não ter filhos, Glaci adota os alunos com amor maternal. "Eu sempre digo para eles: 'Queria todos vocês como meus em casa'. Eu me sinto muito responsável por todos. Eu não sou aquela profe que só dá conteúdo. Eu dou amor, carinho e atenção. Porque vejo que, neste mundo agitado de hoje, tem poucos que recebem um abraço." Os estudantes retribuem o carinho. Mesmo nas turmas dos maiores, como do 3o ano do Ensino Médio, ela é recebida com beijos e abraços.

À professora, com carinho

Bichos de pelúcia, cartinhas, poemas e almofadas estão por aqui e por ali. A afeição dos alunos atravessa as paredes da escola e chega à casa de Glaci. São alguns dos presentes que ela fez questão de guardar. "Esse urso branquinho eu ganhei de um menino. Agora, ele está um baita homem", lembra ela, com um sorriso saudoso.

Cada peça conta uma história diferente. Como um jogo de crochê cor-de-rosa, símbolo da gratidão da mãe de uma menina que não queria, de jeito nenhum, ir para a escola. A habilidade e o carinho de Glaci convenceram a aluna. Quinze anos depois, o presente tem lugar cativo na casa da professora, em Travesseiro.

As recordações das crianças a fazem lembrar de sua infância. Glaci diz que sempre teve, desde pequena, a vontade de educar. "Isso é algo que deve estar dentro de ti. Desde a minha 1a série, eu dizia para aquela que me alfabetizou: 'Eu quero ser professora'." Aos 9 anos, brincar de "escolinha" com as amigas era rotina. "E eu sempre era a professora", destaca, sorrindo.

Com formação na área de humanas e especialização em Psicopedagogia, Glaci hoje leciona geografia e ensino religioso no 8e 9anos. No Ensino Médio, apenas a primeira matéria.

O maior título, entretanto, vem dos alunos, para os quais ela é a "melhor profe". Tímida, Glaci conta seu segredo. "Tem aqueles que trabalham pelo dinheiro e tem aqueles que trabalham por amor. Se tu não tens amor, acho que não é o teu lugar. Eu penso assim em todas as profissões, a gente tem que fazer tudo por amor." Na escola, ela demonstra esse sentimento todos os dias. A paixão pela sala de aula é sua maior lição.

Épocas distintas

Mestra há 32 anos, Glaci Backendorf Kuhn viu o século mudar, assim como a educação. "Trabalhei boa parte da minha carreira com alunos de 1a a 5a séries em uma mesma sala. Cada fila era uma turma diferente, e era preciso passar atividades distintas." Se precisasse de uma cópia, era preciso mandar o material de ônibus para Arroio do Meio. Tempos difíceis, mas de muitas alegrias. Hoje a gente está na rua e ouve 'oi, profe, oi, profe'. Isso dá um bem-estar tão grande. Nenhuma época foi feia, eu não me arrependo de nada."

Glaci não ficou parada no tempo. Na Escola Estadual de Ensino Médio Monsenhor Seger, sempre faz o uso das novas tecnologias. "Computadores, datashow e músicas estão presente nas minhas aulas. E os alunos são meus grandes ajudantes." Ser dinâmica é o que atrai atenção na hora de ensinar. "Procuro cativar os alunos, conquistá-los. No 2º ano, estudamos geografia humana, e é possível ver toda a situação, como está complicada a sociedade de hoje e essa carência que os alunos têm."

Por isso, apesar do passar dos anos, a essência de dar a aula não mudou. Segundo Glaci, se a relação professor e aluno for de companheirismo, o ensino pode ser muito melhor. "Se tu os tem junto contigo, eles vão render o dobro. Os alunos precisam de amor. Eles já têm uma sociedade que castiga, então na escola é preciso fazer o diferencial. Não é preciso deixá-los fazer o que querem, tudo tem limites. O conteúdo precisa estar junto, mas o professor não é dono da verdade, a aprendizagem é construída junto com os estudantes."

 

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