Mulheres que Transformam

Ignez Dellazeri

Conforto espiritual na fragilidade

Créditos: Rita de Cássia
Irmã Ignez Dellazeri leva todo o seu amor para quem precisa de alento - Lidiane Mallmann

Ela tem um olhar doce que é capaz de confortar até nos momentos mais difíceis. Driblando a timidez, irmã Ignez Dellazeri (81) consegue, como poucos, estabelecer uma relação de confiança com quem só espera recuperar a saúde. O carinho da religiosa da Congregação da Divina Providência alcança, todos os dias, dezenas de pacientes do Hospital Bruno Born, em Lajeado. A delicadeza leva força e esperança nas palavras diárias com que motiva quem está enfermo - e regem seus 60 anos de vida dedicada à religiosidade. "Digo para as pessoas terem coragem, pois tudo passa. Também aprendi que, ao consolar alguém, nunca devemos falar sobre os nossos próprios problemas", conta ela, sorrindo.

Dedicação

Irmã Ignez Dellazeri nasceu no interior de Encantado, em 15 de dezembro de 1936. Aos 18 anos - durante uma festa de Nossa Senhora de Lurdes, em Relvado - decidiu que dedicaria sua vida a servir a Deus e ao próximo. "Foi difícil no começo. Pelo fato de eu ser a mais velha entre oito irmãos, meus pais não queriam deixar. Mas, depois concordaram." Estudou em Arroio do Meio e, após alguns anos, foi transferida para o Hospital Presidente Vargas, de Porto Alegre, onde ficou por outros seis. "Às vezes, batia uma saudade da família, mas tentava me distrair para não pensar." Depois, atuou por 14 anos no Hospital Divina Providência; outros três em Santa Clara do Sul e, por fim, em Lajeado, onde mora até hoje e divide uma residência com outras seis irmãs, no Bairro São Cristóvão. É lá que ela compartilha suas vivências, faz orações e aproveita as poucas horas vagas para fazer tricô, ler e cuidar do jardim. A dedicação vai além, claro. "Sempre gostei muito de cuidar da vida. Da minha vida e das outras pessoas. Por isso, escolhi ser irmã." Quando passa pelos corredores do hospital, em meio a doentes, médicos e enfermeiros, Ignez coloca em prática tudo o que acredita. "A oração é uma força. Gosto daquela que diz assim: 'O Senhor esteja a nossa frente, para nos mostrar o caminho'. Então, eu imagino assim: 'Ele vai na minha frente e me mostra o que fazer."

Voluntariado

O local onde as horas parecem não passar - em especial quando algo não vai bem - é o mesmo em que cada minuto é precioso. Irmã Ignez conhece bem essa rotina. Afinal, são 19 anos de trabalho junto ao Hospital Bruno Born. Ela dedica suas manhãs, de forma voluntária, para oferecer um alento aos doentes. Um trabalho que, para ela, vale ouro. Desde a chegada - quando recebe da equipe do hospital a lista atualizada dos internos - até a preparação para levar a melhor palavra ou uma escuta providencial. Afinal, muitas vezes, ela mais ouve do que fala. "Uma vez, ao final de uma visita, a familiar do paciente agradeceu pelos meus conselhos. Na verdade, eu não tinha dito nada. Só ouvi os problemas dela. Entendo que há casos em que as pessoas só querem desabafar. Então, eu ouço", lembra. Essa atenção pode mudar o dia de alguém. 
Irmã Ignez também é a responsável pela organização das missas, realizadas todas as quintas-feiras pela manhã, na Capela Nossa Senhora das Dores - na casa de saúde - celebradas pelos sacerdotes das paróquias Santo Inácio, Moinhos e São Cristóvão. "Eu me sinto muito bem aqui. É minha segunda casa. De manhã, quando é hora de vir pra cá, fico muito contente."

Amizade

Quem costuma passar os dias dedicados aos doentes, às vezes, também precisa de apoio, como é caso da irmã Margarida Schaefer - colega de congregação que também dedica a vida aos enfermos. Enquanto aguarda para fazer uma cirurgia, ela recebe as visitas carinhosas e palavras de força da amiga Ignez. "Logo ela estará bem", afirma.

De porta em porta

De segunda a sexta-feira, por volta das 7h30min, Irmã Ignez já está em sua sala, ao lado da capela do HBB. Como não é possível passar em todos os quartos - devido ao grande número de pacientes, visita somente os que foram internos no dia. Há outras pessoas que também fazem trabalho semelhante, mas é irmã Ignez quem conhece cada detalhe da casa de saúde. Ela bate na porta, entra, pede licença, e só permanece se é aceita. "Quase ninguém rejeita. E, quando alguém não quer, eu respeito. Mas, quando querem, é muito bonito. Muitas pessoas agradecem quando vão embora", explica a religiosa, que fica sem jeito ao receber um elogio.

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