Mulheres que Transformam

Ivete Magagnin

A arte de saber viver

Créditos: Rita de Cássia
- Lidiane Mallmann

Ivete Magagnin (62) nasceu artista. Tem uma energia contagiante. Quando pisa no palco, transforma o seu próprio mundo e o dos outros. A arte é sua grande companheira desde a infância, no interior de Anta Gorda, quando ia para a roça com os pais e irmãos. A aluna da primeira e única turma de magistério da cidade levou para a vida e para a profissão o amor ao teatro. Nas horas boas ou nem tanto, é na interpretação, na família e na oração que a professora aposentada encontra forças para seguir.

O começo
A vida nem sempre foi fácil para Ivete. Mas, ela não se deixa abalar. Se a tristeza aparece, tem uma fórmula infalível. "Nos dias em que fico muito pra baixo, eu rezo. A oração é uma terapia", afirma. Outra fonte de alegria é o teatro. A filha mais nova entre 11 irmãos já demonstrava aptidões para a arte desde criança, quando acompanhava a família na roça, na comunidade Vila Borguetto, em Anta Gorda. Entre um serviço e outro, o cabo da enxada virava um microfone. "Eu imaginava que estava cantando para um grande público."

Turma da Vila Borguetto
A artista por natureza cresceu assistindo e admirando programas de televisão, principalmente, a Cassino do Chacrinha. Não demorou muito para transformar a atração em teatro. Quando a turma da Vila Borguetto se reunia, era espetáculo na certa. O circo era outra paixão. "Sempre que era possível, minha mãe me levava para ver. Eu e minhas amigas tentávamos imitar alguns números", lembra. Já na adolescência, o grupo fazia sessões num porão - com cobrança de ingressos. Pedaços de madeira se transformavam em trapezios e tinha até cantoria. "Já escrevi e fiz muitas peças. Acredito que a brincadeira de criança nunca saiu de mim", conta a professora aposentada que mora em Encantado.

Discoteca do Chacrinha
A brincadeira começou em uma festa de São da Escola Antônio de Conto, no Bairro Jacarezinho, em Encantado, onde Ivete trabalhou por 20 anos. Entre outras criações suas, a Discoteca do Chacrinha é a preferida. No espetáculo com produção caprichada de Ricardo Werner, de Encantado, Ivete interpreta o saudoso comunicador, e ex-alunas representam as famosas chacretes. Os demais integrantes do show são pessoas das comunidades que sediam o espetáculo. "A cada nova discoteca, novos artistas são convidados." A organização começa com reuniões e ensaios para que gente comum se transforme em cantores como Gretchen, Sidnei Magal, Ney Mato Grosso, Pablo Vitar e Anitta.

O pior dia
Tudo andava muito bem, até a família receber um triste aviso. O filho do meio, Francisco, que hoje teria 27 anos, faleceu durante férias em Minas Gerais. O ator morava há cerca de três anos no Rio de Janeiro e perdeu a vida no dia 22 de agosto de 2016 - durante um passeio com amigos. "Ele era lindo e todos queriam estar perto dele. Eu nunca pensei que algo de ruim pudesse acontecer. Eu sentia que estávamos protegidos. Mas perdemos nosso filho querido. Eu pensei que iria enlouquecer de tanto sofrimento. Mas preferi levantar e lutar. Então adotei a frase 'Só por hoje'. Todos os dias me olho no espelho quando acordo e penso que vou ser feliz."

A força do teatro
Nos primeiros dias após a perda do filho, Ivete não queria mais sair de casa nem seguir com suas atividades no teatro e na igreja, onde canta na missa uma vez por mês. Após duas semanas da perda, em casa sozinha, tomou uma decisão. "Era um dia nublado. Cheguei na sala e pensei em sair pela porta gritando para ver se alguém ia me ajudar. Mas, de repente, olhei para as fotos dele e lembrei de um pensamento que diz: 'Quem faz o dia bonito somos nós'. Eu então fiz um fogo na lareira, liguei a música, acendi todas as luzes e fiz um chimarrão. Decidi ser feliz, mesmo com o sofrimento. Eu não quero e não vou sofrer." Os momentos difíceis uniram ainda mais Ivete ao esposo Nivaldo e aos outros filhos Gabriela (30) e Marco Aurélio (24). "Combinamos de nos ligar sempre que alguém sentir algo ruim, mas até hoje não aconteceu. Acredito que um sente a força do outro e sabemos que o Francisco está bem". O amor pelos filhos está na pele - na tatuagem que ela mostra com orgulho.

Seguir em frente
A força para continuar com sua rotina serve de inspiração para muita gente. "Quando vejo alguém triste, procuro sorrir para a pessoa. Acho que é isso que devemos fazer. Se alguém está com um problema, não devemos olhar com pena ou tristeza. Há casos em que não há palavras para ajudar, mas um sorriso e um abraço sempre ajudam. Aprendi isso com a minha filha. Se eu pudéssemos apertar um botão e mudar a vida, seria bom. Mas não posso. Então, vamos levantar a cabeça e ir em frente."

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