Mulheres que Transformam

Marizete Dalla Corte

Ela é pura gratidão


No dicionário, a definição de voluntariado é mais complexa. Mas para a menina que um dia Marizete Dalla Corte foi, voluntariado era fazer o que o coração manda e o que a cabeça acha certo. Aos 14 anos, ela morava no interior de Santa Maria. A família tinha uma pequena olaria. Os funcionários, gente bastante humilde, que vivia nas redondezas. "Eu via aquelas famílias, as crianças muito magras. Então, eu recolhia sobras e passei a fazer sopão. Também reunia uma turma e levava para casa. A mãe ficava louca, porque a fornada de pão que fazia para durar a semana inteira, acabava logo", recorda.

E foi fazendo o que o coração manda e o que a cabeça acha certo que ela seguiu nessa de ser uma pessoa que faz a sua parte para mudar o mundo. Alguns anos mais tarde, quando estava quase concluindo a faculdade de Letras na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), uma amiga entrou em depressão. Foi então que Marizete a levou para o Lar da Menina, um orfanato que cuidava de crianças que haviam sido tiradas de suas famílias pela Justiça. Todo sábado, brincavam e levavam lanche para as garotas.
O que Marizete não poderia esperar é que, dessa ação voluntária, ganharia um filha. "Havia uma menina de 6 anos e meio, com problemas de toda ordem. Já havia sido adotada e devolvida. Levei-a para casa para cuidá-la por uma semana, mas eu e meu marido acabamos ficando com ela. O voluntariado meu deu uma filha", surpreende-se, ao contar a história que fez dela mãe de Aline, hoje com 26 anos.

Em função das transferências por conta do trabalho do marido - ela mora em Estrela há cinco anos -, Marizete acabou se dedicando a diversas causas. Professora, pediu demissão da universidade em que trabalhava em 2003 para tratar de um problema sério na coluna. Chegou a ficar por algum tempo sem poder caminhar. Na época, conheceu o reiki, que a ajudou no tratamento. Ela estudou e hoje trabalha aplicando reiki e reflexologia podal. Hoje, usa as técnicas para auxiliar quem precisa, mas não pode pagar por isso em dinheiro. Só com gratidão.

Troca de energia
Há três anos, Marizete é voluntária na Associação de Apoio a Pessoas com Câncer (Aapecan), de Lajeado. Vai à entidade aplicar reiki e, a partir de janeiro, quer trabalhar também com refllexologia podal com os pacientes. São 40 minutos por sessão, mas normalmente se estendem um pouco mais porque Marizete gosta de conversar com gente. E desses papos consegue ajudar muitas. "Procuro passar energia para elas. Tu ajudares alguém a superar uma situação é algo que realmente não tem preço", define.

Em abril, Marizete teve um problema na perna, uma trombose que ainda limita suas idas à Aapecan. Mas não vê a hora de voltar com força total.

O acaso
Há pouco mais de dois anos, a vida se encarregou de apresentar novos personagens à Marizete. Ela tinha escutado que uma casa havia incendiado em Lajeado e foi até um supermercado, em Estrela, comprar alimentos para doar a esta família. Saiu de lá com a cesta básica no carro e, quando foi estacionar para ir a um próximo compromisso, havia uma bicicleta na vaga e duas crianças recolhendo papelão. "Esperei eles finalizarem para poder estacionar. Enquanto isso, várias coisas me impressionaram: dois meninos, em pleno sol de rachar de fevereiro, catando lixo.''

Marizete não teve dúvida: foi conversar com aqueles meninos de 11 e 14 anos. A empatia foi tanta que, na hora, ela já deu a eles a cesta básica que havia comprado para a família que tinha tido a casa incendiada. "Eu dei carona a eles e me assustei com a distância que tinham andado, naquele calor insuportável, para catar lixo reciclável." Marizete prometeu comprar o material escolar, quando as aulas começassem.

E assim foi. Ela e o marido foram até o Loteamento Marmitt, em Estrela, levar o material à casa dos meninos. Lá, mais surpresas - boas e ruins. A ruim foi ver a família numa moradia de chão batido. A boa foi o respeito. "Eu entreguei o material e eles levaram as sacolas para dentro. Quando eu e o meu marido fomos embora, eu perguntei se eles não abririam as sacolas e ver o material. Eles me responderam: 'Não, aqui é a mãe que divide tudo'", foi a resposta doce que Marizete recebeu.

Educação
Há dois anos, Marizete adotou a família do Marmitt. Na mesma casa, moram pai e mãe, quatro filhos e um neto. Falta tudo. Então, ela recolhe roupas, alimentos e até lixo seco para levar a eles. "Eu sei que é um lugar que tem droga e violência, também, mas a família que ajudamos tem todos os filhos na escola e isso basta para mim."
A filha mais velha do casal tinha muita dificuldade na leitura. Marizete passou, então, a levar livros e ensiná-la a ler. "O pai da família não quis que só aquela menina participasse das nossas aulas de leitura, mas todos. Isso, de saberem que só com estudo vão sair daquela situação, para mim é fundamental."
Hoje, nos planos de Marizete está ensinar artesanato não só às mulheres desta família, mas como à comunidade do Marmitt.

Precisa-se pouco
Se quando menina Marizete fazia o que coração mandava e o que a cabeça achava certo, hoje ela acredita que o voluntariado é uma forma de dizer que é muito grata. Para ela, que conta com o apoio do marido Marcos, poder ajudar é a melhor maneira de agradecer.
E para quem acha que não pode ou não não tem nada para auxiliar, ela prova que sim: "Se tu separares o teu lixo, tu já vais ajudar porque um reciclador vai poder ter renda com o lixo seco. Se tu deres um abraço em alguém, tu já vais estar ajudando. É muito fácil". Que tal colocar em prática?

 

Marizete Dalla Corte faz trabalho voluntário desde os 14 anos

 

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