Mulheres que Transformam

Marta Maria Pretto

Das perdas ela fez doação

Créditos: Fernanda Mallmann
- Lidiane Mallmann

Outra pessoa que tenha passado pelas provações que Marta Maria Pretto (70) enfrentou na vida poderia questionar os porquês. Mas isso nunca passou pela cabeça da professora aposentada, que nasceu e vive até hoje em Encantado. Muito pelo contrário: "Eu me sinto a predileta de Deus. Por quê? Porque mesmo com estas perdas todas eu não consigo dizer: por que pra mim?".

Quando fala "destas perdas todas", Marta se refere ao marido, João Carlos Pretto, que morreu há 21 anos, quando tinha apenas 50. Outra, ainda mais devastadora, foi a morte do único filho, Ezequiel, em abril de 2010, na época com 28 anos. "Quando você passa por um grande sofrimento, como a perda de um filho, você precisa fazer escolhas. Você pode ir para um quarto escuro e ficar lá. Eu escolhi me voltar ainda mais para o voluntariado", conta Marta, sem nenhum ressentimento, só com a paz que a espiritualidade lhe deu.

 

A dor devastadora

Foram seis inícios de gestação e seis abortos. Só na sétima gravidez que Marta conseguiu segurar o filho no ventre por nove meses e dar a luz. "Eu e meu marido queríamos muito ter um filho. No sexto aborto, eu passei muito mal, os médicos me diziam para tirar essa ideia da cabeça. Mas rezávamos para Nossa Senhora de Fátima e ela nos deu o Ezequiel", conta.

O menino saudável veio alegrar a família. "Foi uma vida linda. Havia muito amor entre nós três". Quando o marido faleceu, Ezequiel tinha 15 anos. "Aí sim foi uma barra, ficou tudo comigo. Eu tinha um filho adolescente, tinha medo das drogas... Mas nós dois nos unimos, nos demos as mãos e fomos tocando", relembra.

A vida foi tomando os eixos, como recorda Marta. Ezequiel entrou para faculdade de Publicidade alguns anos depois e, na metade de 2010, seria a sua formatura. "Ele estava trabalhando, feliz no trabalho. Tinha uma banda, a Luauê, e adorava tocar e cantar. Eu pensava que ele iria se formar e aí a gente também viveria com um pouco mais de folga financeira. Estava pensando que tudo se ajeitaria. Mas não."

Ezequiel acabou falecendo no dia 14 de abril de 2010, em um acidente, em Canoas, quando estava indo a Santa Catarina a trabalho. Ele não estava dirigindo e, por ironia do destino, ele era voluntário do Vida Urgente, o que tornou tudo ainda mais triste. "Era uma quarta-feira de tarde. Eu recebi uma ligação e um homem, que até hoje não sei quem é, me disse: o Ezequiel está morto. Aquela palavra 'morto'..., ah eu perdi o chão". 

Os tempos em que tudo se ajeitaria não chegaram nem mesmo a formatura. "O Ezequiel faria a festa com outros dois colegas. Ele me dizia: mãe, na noite da festa, serão três mães. Mas eu quero que tu sejas a mais bonita, quero que tu faças um vestido de renda". O vestido nunca foi usado.

 

O amor

Quando o único filho de Marta, Ezequiel, faleceu, foi então que, mais do que nunca, ela sentiu o que é amor. "Os amigos e amigas dele vinham aqui em casa, ficavam comigo. Permaneciam em silêncio se eu quisesse ou cantavam as músicas que ele gostava. Era puro amor. E isso vem de onde? Vem de Deus", explica.

Ainda hoje, quando se sente triste ou com saudade de Ezequiel, não demora até que um amigo dele dê sinal: "Acho que é o Ezequiel, lá de cima, me cuidando. Ele deve beliscar algum amigo dele e dar o recado: ó, vai lá ver a minha mãe."

 

Vida voluntária

O voluntariado é vocação para Marta, e começou cedo. Logo depois que casou, ela se tornou catequista. Chegou a coordenador o grupo da catequese, em Encantado. Também foi e continua sendo ministra da Igreja.

Mas um divisor de águas foi em 1986. Marta, o marido e o filho venderam um carro, na época, e foram para a Itália conhecer o Movimento dos Focolares, uma mobilização ecumênica que surgiu depois da 2a Guerra Mundial. "Eu conheci esse movimento e isso foi tão forte que me transformou. Hoje eu penso, na verdade eu tenho certeza, que Deus foi me preparando para as perdas que eu teria depois", acredita.

A atividade voluntária nunca cessou. Entre os trabalhos mais recentes está a participação no Amor Exigente, um grupo de apoio para dependentes químicos e seus familiares. Os voluntários se reúnem todas as segundas-feiras à noite para auxiliar quem os procura. Para poder ajudar, além da experiência de vida, Marta vai a reuniões e congressos por todo o país, promovidas pelo Amor Exigente, para saber a melhor forma de ajudar. "Beber ou usar droga, eu penso, não é sem-vergonhice. É uma doença. E essas pessoas precisam de ajuda. Eu sinto amor por essas elas e fico muito feliz quando alguém consegue se livrar do vício. Mas também sofro quando vejo que alguém, principalmente um jovem, tem uma recaída."

Além dos atendimentos do grupo, Marta visita com frequência uma clínica de recuperação de dependentes e também vai ao presídio levar, como ela diz, espiritualidade aos que estão lá. "Este é um trabalho lindo. Às vezes, me perguntam se eu não tenho medo de entrar no presídio e me reunir com os presidiários. Mas eu sempre penso: o mesmo Deus que está em mim está neles. Então, nada de mal vai me acontecer. Eu transmito amor a eles e acho que eles percebem isso. Então, eu me sinto protegida", diz. 

E Marta não para por aí. Ela já está em contato com duas escolas para desenvolver o Projeto de Educação para Paz, da Living Peace International. Agora, a meta trabalhar com jovens transmitindo um pouco do que a vida lhe ensinou. "Eu não saberia viver sem o voluntariado. A minha missão agora é essa. Os meus se foram, então, agora, dedico minha vida aos outros. Enquanto eu tiver um sopro de vida, vou fazer isso", assegura Marta com o coração que sente dor, mas que também tem amor de sobra para distribuir e transformar.

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