Mulheres que Transformam

Carmine Brescovit

Plantar uma semente

Créditos: Natalia Nissen
Carmine Brescovit defende a educação e a prevenção para combater a violência - Lidiane Mallmann

Teutônia - Uma mulher pode ser policial? Se depender de Carmine Brescovit (34), uma mulher pode ser o que quiser. A personagem dessa história ocupa um posto de liderança em uma corporação majoritariamente masculina. Natural de Lajeado, é capitã da Brigada Militar e comanda a 2ª Companhia do 40º Batalhão de Polícia Militar (40º BPM), em Teutônia.

A própria instituição já tem 180 anos, mas foi em 1985 que elas passaram a fazer parte do quadro de profissionais de carreira. A oficial é inspiração para colegas de farda, crianças, jovens e mulheres que convivem com ela no dia a dia. Desde que começou na carreira militar, em 2012, quis colocar em prática uma vontade que a acompanhava há muitos anos: o voluntariado. E foi na polícia que viu a oportunidade de trabalhar com a prevenção da criminalidade de forma educativa.

A semente
Bacharel em Direito pela Univates, Carmine também é especialista em Direito do Trabalho, e Segurança Pública e Gestão de Conflitos. No mestrado em Ciências Policiais, no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (ISCPSI) de Portugal, abordou o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência, desenvolvido pela BM em Teutônia com alunos do 5º ano do Ensino Fundamental. É por meio do Proerd que ela pratica parte do voluntariado. Ainda que os resultados do trabalho não possam ser mensurados de forma objetiva, é uma aposta para evitar que as crianças tornem-se adultos criminosos. "É nisso que acredito, por isso faço e gosto. Sei que é um resultado que vem a longo prazo, mas uma das ideologias do Proerd é plantar uma semente. Não sabemos o que vamos colher, mas se estamos plantando boas sementes, teremos uma boa colheita no futuro. Uma ou outra semente sempre irá florescer."


Ela também lembra que o retorno dos pais é importante e o agradecimento da família reconhece o esforço dos instrutores voluntários. Muitos estudantes apresentam mudanças de comportamento e aprendem a lidar com os conflitos. Para a capitã, essa orientação evita que eles se transformem em potenciais agressores e valida o conceito de atuação do Proerd - a relação da escola, comunidade, polícia e família. Além disso, esse contato com as crianças e adolescentes ajuda a desmistificar uma imagem que muitos têm dos policiais, de que são rudes e amedrontadores, estão presentes apenas nas situações ruins. "O policial deve ser a referência de apoio em um momento difícil. Se uma criança está perdida em algum lugar, ela precisa saber que a polícia vai ajudar e acolher. Muito melhor que ela se sinta segura com um policial do que com um estranho. Nosso objetivo é desconstruir aquela história que tantos adultos contam para as crianças de que se elas fizerem algo errado, a polícia vai prendê-las. Não é assim que devemos mostrar às crianças o que é certo e o que é errado."

As mulheres
Os índices de violência doméstica em Teutônia logo chamaram atenção quando Carmine assumiu o cargo, em 2014. Foi por isso que ela envolveu-se com profissionais empenhadas no enfrentamento à violência de gênero - o Coletivo Tônias. O grupo promove encontros mensais para debater diversos assuntos do universo feminino, organiza ações para conscientizar a comunidade sobre a importância da igualdade e justiça entre homens e mulheres. Ainda que a agenda seja repleta de compromissos profissionais, ela sempre busca uma forma de colaborar, mesmo que a distância, unindo o trabalho e o voluntariado.

Carmine afirma que a violência doméstica é um crime que a BM toma conhecimento quando já aconteceu, mas acredita que a prevenção é mais eficiente do que a repressão. "Uma das falas que tenho feito para as mulheres é: 'Pensem, vocês que são mães de meninos e meninas, como estão educando seus filhos? Por que a menina tem que lavar louça e o menino não?' Na minha concepção, estamos fazendo um trabalho para gerações futuras. Nós, mulheres, precisamos combater a cultura machista enraizada na nossa história."

A mudança
Carmine participa de eventos e conversas com a comunidade, e apresenta-se como comandante. Nem sempre o público compreende a hierarquia militar que envolve tal posto, mas o olhar de admiração é perceptível. Emocionada, ela conta que já foi questionada por meninas sobre o que é necessário para ser policial, ser como ela. "Desde que vim para Teutônia, não senti preconceito em relação a ser mulher vindo do meu efetivo, em maior parte homens. Não gosto de dizer subordinados, é a minha equipe. Dependo deles para fazer um bom trabalho. Eu faço o gerenciamento, mas quem está na rua são eles."

A boa relação com a comunidade é uma obrigação da profissão, mas Carmine também aposta em dever como cidadã. As atividades a deixam, muitas vezes, fisicamente cansada, mas emocionalmente satisfeita. Por meio dos projetos sociais, ela consolida a realização profissional. "Me motiva a continuar. Quando estou na frente dessas pessoas e surge uma pergunta, vejo que inspirei alguém ou percebo um brilho no olhar, sinto uma energia boa. É a sensação de que estou fazendo o bem e recebendo o bem. Mais do que ensinar, também aprendo. Essa troca me move e transforma a minha vida."

As mazelas da sociedade fazem parte do dia a dia de um policial e um desafio é não deixar-se abater com as coisas ruins. "Não podemos tomar todas as maldades do mundo para nós. Com o tempo, aprendemos a lidar com isso. Então, dentro do meu jeito de ser, descobri a melhor forma de ajudar e me fazer bem."

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