Mulheres que Transformam

Magali Quevedo Grave

Amor em cada atendimento

Créditos: Fernanda Mallmann
Magali é fisioterapeuta e professora - Lidiane Mallmann

Lajeado - O que explica não ver uma pessoa por muito tempo e, mesmo assim, ela se lembrar de você numa das datas mais importantes da vida dela? Amor? Gratidão? Reconhecimento? A fisioterapeuta e professora da Universidade do Vale do Taquari (Univates), Magali Quevedo Grave (57), sabe a resposta.
A santa-mariense formou-se em Fisioterapia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) há 35 anos. Durante o curso, apaixonou-se por uma área em especial: a neurologia. E isso fez toda a diferença na sua vida profissional - e pessoal também.

O gosto pela área fez com que, ainda em Santa Maria, ela estagiasse na Apae. Quando veio para o Vale do Taquari, a vida profissional também foi dentro desta entidade. Magali trabalhou nas Apaes de Lajeado, Estrela, Bom Retiro do Sul e Encantando. "Quantas crianças passaram por mim! Dentro das Apaes, eu vi muita coisa, tive oportunidade de criar os setores de estimulação precoce naquelas onde trabalhei. Passamos a entender a criança como um sujeito", conta.
Esse olhar transformou a forma de atendimento. "Quando eu passo a conhecer a criança como um todo, começo a trabalhar com as suas possibilidades e potencialidades. E não com as dificuldades. Dificuldades a gente sabe que elas têm, mas o que posso fazer para minimizar os obstáculos e para maximizar o potencial individual de cada criança? Esse passou a ser nosso entendimento", explica a fisioterapeuta.

O modo carinhoso de se dedicar às crianças e à Fisioterapia trouxe grandes recompensas. Só para ficar em um exemplo: não raro, Magali é convidada para festas de Primeira Comunhão ou de 15 anos. Os anfitriões são ex-pacientes da época das Apaes. "Eu vou a todas essas festas, seja onde for que elas aconteçam. Se eu fiquei quase dez anos sem enxergar esse pai, essa mãe e essa criança e, ainda assim, eles me convidam para a festa de 15 anos, é porque eu devo ter sido muito importante na vida deles. Muitas vezes, eu chego nestes locais e há fotos minhas no painel das crianças. Eu fico muito feliz. Não tem dinheiro no mundo que pague isso", assegura Magali, que coloca amor em tudo o que faz, mas que também o recebe de volta.


Da prática à docência
Depois de trabalhar por 20 anos em Apaes, a vida acadêmica conquistou Magali. Há 15 anos, quando fazia mestrado, foi convidada a lecionar na Univates. Depois disso, ainda fez doutorado em Medicina e Ciências da Saúde - Neurociências. Na universidade, o reconhecimento veio sem demora. Ela já foi coordenadora do curso de Fisioterapia por duas gestões e, agora, é diretora do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde.

A carga administrativa exige muita dedicação, mas nunca a afastou do lugar onde realmente se sente bem: a sala de aula e a Clínica Escola de Fisioterapia, que atende crianças e adultos com distúrbios neuromotores decorrentes do sistema nervoso. Uma cadeira em especial presta auxílio a crianças com atraso no desenvolvimento. "É nessa disciplina que meu olho brilha", afirma. Aí, Magali veste o jaleco colorido, pega as crianças no colo, brinca, interage com os pais. "Eu sempre falo para os meus alunos: a primeira coisa que vamos fazer é acolher este sujeito como se fosse o único da face da Terra. Porque as pessoas que vêm nos procurar estão tristes por alguma coisa. Mas elas precisam sair felizes, elas têm de sair do atendimento vislumbrando possibilidades."


Acolhimento
Da experiência na Univates, Magali encanta-se pela possibilidade de poder ajudar gratuitamente quem precisa, por meio da Clínica Escola de Fisioterapia. "Eu me sinto gratificada porque a gente consegue acolher. Na clínica, primeiro é o Caio, a Ana Clara, a Maria, a Joana... A Síndrome de Down, a paralisia, elas vieram junto com eles, mas primeiro a gente olha para o bebê, para o sujeito."

E como se faz isso? "Eu sempre digo para os meus alunos que a gente só aprende a fazer, fazendo. E com criança é preciso ter contato. Tem de pegar no colo, tem de mostrar um passarinho, um brinquedo. A gente tem de atender bem para melhorar a qualidade de vida das pessoas que perderam ou que não tiveram a função desenvolvida. Precisamos nos propor a transformar o problema em uma coisa mais leve, para que a realidade não seja tão dura. Não é negar a doença, mas é ver chances dentro deste quadro", observa.


Transformação
Se em 35 anos como fisioterapeuta conseguiu transformar a vida de muitas pessoas? "Eu não sei se consegui, mas tenho tentado. Toda minha tentativa é essa: buscar transformar", garante Magali que, se lhe fosse dada oportunidade, começaria tudo de novo.

Ela ainda planeja trabalhar por mais alguns anos, repassando a experiência que a vida lhe deu. "Quantas crianças, famílias, histórias já passaram pela minha mão? São relações que tu vais construindo. Eu consegui me incluir na vida dessas pessoas e isso que faz tudo valer a pena", acredita.

Como professora, Magali pensa estar transmitindo a forma humanizada de atender e de cuidar para os seus alunos. "Eu acho que essa sementinha fica neles. Quem é fisioterapeuta e não consegue fazer um carinho, dar um beijo ou segurar a mão de alguém, escolheu profissão errada. A nossa profissão é do toque, do afeto", ensina a mestra que domina a técnica, mas entende especialmente da arte de transformar uma dor numa possibilidade muito promissora.

 

 

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