Mulheres que Transformam

Paula Garibotti

Carinho materno para voltar à vida

Créditos: Rita de Cássia
Paula é professora, bióloga e especialista em dependência química - Lidiane Mallmann

Encantado - Mãe, professora, bióloga e especialista em dependência química. Paula Garibotti dedica-se a amar a família e ajudar pessoas a encontrar o caminho de volta à vida. Aliás, os caminhos que um dia pareciam já trilhados - acertados em seus mínimos detalhes - de repente mudaram o rumo de tudo o que ela havia imaginado. O filho mais velho, recém saído da adolescência, olhou nos olhos dos pais e pediu ajuda para deixar as drogas. De lá para cá, tudo foi diferente. A dor virou força e luz para transformar ações e vidas.
Ela é a caçula de uma família de três meninas. Casou-se aos 17 anos com Ademir Kuffel, com quem teve Eduardo (28) e Vinícius (25). Fez magistério, começou a dar aulas aos 18 anos e entrou na faculdade aos 17. Fez três pós-graduações, uma delas em Portugal e a última em dependência química. Em meio ao trabalho e aos estudos, sempre dedicou carinho especial aos cuidados familiares. "A gente sonha com o primeiro filho. Faz planos. Pensa num futuro maravilhoso e vai fazendo de tudo para que isso aconteça." Quando os meninos ainda eram adolescentes, o casal descobriu a propriedade da empresa Costi, que estava à venda em leilão - e onde hoje fica a clínica Novo Começo. "Nós queríamos que eles vivessem num local assim, perto da natureza. Então, adquirimos o imóvel e transformamos em um sítio. Enquanto isso, eu seguia com meus projetos, e meu marido sempre trabalhando na área do comércio."

Coragem
Paula lembra bem do dia em que o filho Eduardo chamou o casal - um pedido de socorro. Ele queria sair daquele mundo, mas não conseguia se livrar das drogas sozinho. "Na hora, a gente não sabe o que fazer porque ninguém está preparado. Pensamos que morreríamos com ele", lembra. Os pais e o irmão Vinícius - peça-chave na recuperação - deram todo o apoio. Foram várias tentativas. Desde o início, a família contou com o importante suporte do psiquiatra Fábio Vitória - hoje sócio na Novo Começo. "Foi um período muito difícil. Consultas, medicações e internação domiciliar. Deixei tudo de lado, para me dedicar a ele. Não tinha outro jeito, porque a droga abala todas as estruturas da família e do dependente também. Ele estava comprometido e precisava de alguém que segurasse sua mão. Graças a Deus, meu marido me deu total suporte." A coragem sempre esteve com Paula em todos os momentos. "A dor transforma a gente. Falei com pessoas perigosas. Mas, eu precisava dizer o que sentia." Até quando entes queridos se foram a mulher guerreira buscou forças. "Em um mesmo ano, perdi pai, mãe e um avô. Foi triste demais, mas tivemos que nos reestruturar e seguir em frente."

Combinado com Deus
"Em uma das vezes que ele estava muito mal, eu disse para Deus: "Senhor, ele é o meu menino, eu quis tanto ele. Se for da tua vontade que eu fique com o Dudu. E se eu ficar, te prometo que a minha vida vai mudar. Vou me dedicar a ajudar a outras pessoas e não vou mais olhar por mim só. Fiz esse combinado com Deus".

Imersão total
Além de mãe e amiga, as funções de enfermeira e cuidadora passaram a ser rotina para Paula, na tentativa de livrar o filho da dependência. "Mesmo assim, não consegui ajudá-lo. Porque mesmo com o pouco tempo de uso, a obsessão e compulsão eram muito grandes." Ela recorda que foi um ano muito difícil. Foi necessária a internação involuntária. "Nós tínhamos que fazer isso para salvar a vida dele." Em pouco tempo, estava de volta para casa. Prometeu não usar mais drogas, mas recaiu. "Nessa época, eu já conhecia o Amor Exigente - um programa que salva vidas e salvou as nossas também. Serei eternamente grata. Foram os ensinamentos que me ajudaram, além, é claro, do acompanhamento da psicóloga e do psiquiatra." E a espiritualidade foi fundamental. "Nos momentos em que eu estava à beira de perder o meu menino, era de joelhos que eu ficava e pedia ajuda a Deus." Neste período, Paula já estudava sobre dependência. Queria saber tudo. Para isso, fez cursos. Ainda assim, não conseguia sucesso nas tentativas de curar o filho. "Chegou um momento em que ele quis a internação. Foram dias complicados e sofridos, mas, de lá para cá, o meu menino vive um dia de cada vez. Cada vez melhor."

Amor Exigente
O programa mudou a vida da família. Foi ela quem implantou esse formato de encontros em Encantado, após conhecer  grupo em Porto Alegre e Capão da Canoa. "Eu vivo o Amor Exigente. Toda a segunda-feira temos as reuniões que ensinam a mudar. São encontros gratuitos, sigilosos e abertos. Para familiares de dependentes, para os dependentes e para quem tem depressão. Esse é o meu trabalho voluntário que faço com todo o amor." O mesmo propósito tem a Clínica Novo Começo, de propriedade do filho Eduardo e do médico psiquiatra Fábio Vitória. "A ideia surgiu durante a internação do meu filho. Foi a forma encontrada de fazer um trabalho que ajuda pessoas a encontrar o caminho de uma vida livre", explica Paula.

 

Comentários

VEJA TAMBÉM...