Mulheres que Transformam

Stefânia Faé

O riso que cura

Créditos: Rita de Cássia
- Lidiane Mallmann

Ela ama a vida, a família, os amigos, a medicina e o teatro. Mas é quando se transforma na Dr. Torta que Stefânia Faé (24) consegue mostrar da maneira mais pura todo o seu amor ao próximo. A jovem natural de Caxias do Sul é aluna do Curso de Medicina da Univates e uma das fundadoras do grupo voluntário E Seu Sorrir?. A habilidade de rir de si mesma e o nariz vermelho são os componentes que ela utiliza para fazer sorrir até mesmo quando a esperança está triste.

E Seu Sorrir?
A admiração pelo teatro começou na escola e continuou no Sala de Ensaio, em Caxias do Sul. Foi lá que conheceu Davi de Souza, o diretor geral do Médicos do Sorriso - grupo de palhaços de hospital. "Achava o trabalho deles fantástico e coloquei como objetivo de vida fazer isso também. Como meu pai é médico, a vontade de seguir a carreira já existia, então uni minhas duas vocações", explica. Já no primeiro mês em Lajeado pensou em criar um grupo de clown ou palhaços terapêuticos. Contou com a ajuda do amigo Ricardo Sandri - estudante de Medicina da PUC na época - que fazia parte do projeto Palhaçada, de Porto Alegre. A partir da união com proposta semelhante de uma outra turma, o trabalho ganhou força e a aprovação do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Univates e da diretora Magali Quevedo Grave.

Clown
É um termo em inglês que no Brasil é mais utilizado ao referir-se ao palhaço terapêutico. "Chamamos de arte da palhaçaria o fato de aprender sobre o palhaço. E a arte do clown é aprender sobre a questão dentro de hospitais", afirma Stefânia. No segundo semestre de 2015, formou-se a primeira turma em Lajeado - após seis meses em que é ensinada a arte do clown. "Parece brincadeira, mas é bem difícil. Há uma transformação em que o voluntário precisa aceitar-se, juntar todos os defeitos e colocar à prova. Porque o clown nunca vê os defeitos dos outros e nunca atinge os outros. Sempre vai usar de si para fazer os outros sorrirem. Então, se tiver algo do qual não goste, precisa aceitar. E, a partir disso, escrachar para que os outros consigam esquecer dos próprios problemas", explica. A futura médica também destaca que há todo um trabalho da questão emocional e autoconfiança, de intimidade do próprio grupo para que a brincadeira dê certo, de respeito e de como se portar num hospital. "Não podemos gritar e só usar a música quando a situação permitir. É fundamental respeitar o momento de cada paciente e aceitar quando não está disposto a receber o clown no quarto. Também entender as equipes médicas e de enfermagem, saber o nosso espaço e observar algumas regras para evitar contaminações."

"Sempre fui apaixonada pela arte do palhaço e a terapia que ela faz."

Terapia
Por mais que seja uma brincadeira, a atividade deve ser levada a sério, assim como qualquer outra dentro do hospital. "A intenção é levar esse projeto como uma forma de terapia alternativa. Existem vários estudos que comprovam que o riso ajuda no tratamento, diminui o nível de dor, facilita a alta e aumenta a imunidade. Somos muito bem recebidos pelo Hospital Bruno Born e isso é um grande avanço", aponta. Desde 2016, são feitas visitas semanais. A ideia é aumentar para duas duplas por semana. Stefânia não tem conseguido ir ao HBB com a frequência que gostaria, devido ao período em que se encontra na faculdade. Passados os quatro anos de aulas teóricas, está em plena prática e atendimentos. "É a vivência da rotina médica, então agora a dedicação é voltada a essas agendas. Mas ajudo na coordenação do E Se Sorrir? e acompanho a atuação dos voluntários."

Dr. Torta
Quando coloca o jaleco e o nariz vermelho, Stefânia desaparece. Entra em cena a Dr. Torta - que é uma médica formada em besteirologia. "Sempre fui apaixonada pela arte do palhaço e a terapia que ela faz. É sensacional porque não olha a pessoa como um paciente e sim como alguém que está num local e que precisa fazê-la sentir-se bem. Não é uma obrigação fazer a pessoa dar risadas. Às vezes é apenas uma conversa. Criamos um mundo a parte para distrair as pessoas. Para mim é uma sensação inexplicável. O melhor momento é quando chego no local e encontro alguém sério e, quando saio, já está sorrindo. Por alguns instantes, ignoraram os problemas ou o nervosismo. É levar leveza. É transformar", comemora. O grupo também deve ser sensível em perceber os momentos tensos e fazer a aproximação de maneira sutil, como através de um vidro da sala de espera ou usando apenas gestos. Uma das lembranças mais marcantes que a jovem tem é a de um paciente acamado da oncologia. "Não realizamos nenhuma atividade. Apenas conversamos com os pais. Eles então pediram para tirarmos uma foto e o filho sorriu. Foi lindo."

 

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